quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Sérgio Godinho – Tema musical do filme “Nós Por Cá Todos Bem” (Diapasão, 1977)


01. Nós Por Cá Todos Bem
02. Coro das Criadas de Servir 

Sérgio Godinho – voz, guitarra, percussão
Zita Duarte – voz (02.)

Hélder Reis – acordeão (01.)
Madalena Leal – coros
Shila – coros

Um ano e meio depois da última postagem, convém ver o que se reeditou entretanto em CD, para não ser processado (um abraço a quem denunciou o post do “Defeitos Especiais”, já agora). Já saiu o CD de “raridades” do Sérgio Godinho? Não, pois não? Então lá vai disto. Na segunda metade dos anos 70, Sérgio Godinho parece ter tomado o gosto às bandas sonoras. Depois de ter composto para Os Demónios de Alcácer Quibir (José Fonseca e Costa) e A Confederação (Luis Galvão Teles) em 1976, contribui com dois temas para a terceira longa metragem de Fernando Lopes, que arrasara com as duas primeiras, Belarmino (1964) e Uma Abelha na Chuva (1971). Entretanto, Lopes tivera o seu interregno revolucionário (quem os não teve?) em que se juntou, por exemplo, ao coletivo que fez As Armas e o Povo. Mas este novo filme, Nós Por Cá Todos Bem, não agradou à crítica nem ao público, que acharam indigesta a linguagem híbrida, entre o documentário, a ficção e a exegese pessoal, com que o realizador explora o quotidiano da aldeia onde nasceu.
Os dois temas compostos para o filme também habitam universos bem diferentes entre si: no primeiro lado, uma canção que, com mais algum trabalho, ocuparia a secção de honra do cancioneiro godinhesco, com o cantor a percorrer em modo de melancolia neo-realista as desgraças da vida rural no Portugal dos anos 70. Virando o disco, é a atriz Zita Duarte que canta (e ocasionalmente declama) um texto de Alexandre O’Neill sobre um arranjo mais espevitado mas melodicamente menos feliz do que o da canção-título (e onde parecem tocar músicos não creditados no disco). O amigo tubo até nos permite ouvir estas canções com as imagens a que foram destinadas, no genérico inicial e numa algo datada (para não ser mau) cena musical – incluindo coreografia algures entre o ballet clássico e a dança jazz. Se alguém souber de outras bandas sonoras do Sérgio Godinho não reeditadas em CD (Kilas o Mau da Fita teve reedição), é favor avisar na caixa dos comentários.

Almanaque – Desfiando Cantigas (EMI, 1984)


















01. Chamarrita (Açores)
02. Cantiga do Entrudo (Beira Baixa)
03. Quadrilha (Douro Litoral)
04. Senhora da Saúde (Beira Alta)
05. Menino Jesus (Algarve)
06. Maia (Minho)
07. Rula-rula (Douro Litoral)
08. Chula (Douro Litoral)
09. Senhora da Rosa (Beira Baixa)
10. Reis (Minho)
11. Cantiga das Casadas (Beira Baixa)
12. Cesaltina (Alentejo)
13. Maruquinhas (Minho)
14. Alvorada (Trás-os-Montes)


Alcino Pacheco (canas), Ana Costa, António Lopes (bombo, caixa), António Prata (violão, bandolim), Celestino Clemente, Cristina Marques, Ester Correia, Fernando Gomes, Isabel Amaral, Isabel Bernardo, João Cavadinhas (violão), João Lima (violão, bombo), José Alberto Sardinha, Luísa Nora, Luísa Prates, Nuno Valente, Olinda Sardinha, Orlanda Baptista, Rita Mendes da Silva (bandolim, banjola, cavaquinho, guitarra portuguesa), Rui Costa, Sérgio Contreiras, Vítor Reino (viola braguesa, harmónio, concertina, flauta de cana, pandeireta), Wanda Sá
+
Miguel Coelho (violino), Paulo Marinho (gaita de foles)

Produção – Almanaque
Arranjos musicais – Vitor Reino
Direcção musical – Vitor Reino e José Alberto Sardinha

Alongar-me por mais de dois parágrafos em discos como este sem possuir um certo grau de erudição é estar mesmo a pedir para ser massacrado pelos musicólogos e etno-especialistas. Por isso, sinto-me tentado a referir os interessados para o texto que o Fernando Magalhães escreveu há uns bons anos, quando “Desfiando Cantigas” foi incluído no livro “Os Melhores Álbuns da Música Popular Portuguesa 1960-1997”, safando-me com isso de procurar termos técnicos na net ou de fazer um crash course em etnomusicologia. Mas não vai dar para não dizer nada, até porque o enigma que é para mim a figura de José Alberto Sardinha – naquela sua mescla de erudição purista, espírito missionário e megalomania a raiar o delírio – não me deixa estar assim tão quieto. O grupo por ele fundado, Almanaque, surge, como se sabe, como reacção contra a bastardização da música tradicional protagonizada pela sua folclorização, e pelo prolongamento dessa “folclorite” pela música ligeira – algo que já vinha bem detrás, quando o Estado Novo, depois de contribuir para o aniquilamento de grande parte da música cantada, tocada e dançada pelo país fora (principalmente a profana), quis cristalizar os seus resquícios em ranchos que a reduziam à versão bilhete postal. Mas, por outro lado, o Almanaque assume-se também como contraponto à apropriação que, principalmente a partir da Brigada Vitor Jara, alguns grupos fizeram da música de raiz popular, fabricando novos arranjos para temas tradicionais e contaminando as suas versões com outras linguagens (o jazz, a música improvisada, as músicas “étnicas” de outras paragens).
A proposta de Sardinha é uma espécie de terceira via: os músicos por ele reunidos no Almanaque pegam nas gravações de campo (gravadas, precisamente, no campo) e procuram reproduzi-las o mais fielmente possível em contexto urbano. À partida, esta abordagem purista parece ter poucas pernas para andar, denunciando mesmo um certo paternalismo para com os rurais, que seriam – tudo leva a crer – bons compositores mas maus executantes: “fabriquemos então aqui em estúdio um simulacro do que recolhemos no terreno, mas agora bem tocado”. Para além disso, a preocupação com as raízes genuínas da música tradicional, com os seus elementos mais autênticos e não contaminados, cai muito mal numa altura em que essa contaminação é celebrada e o próprio conceito de autenticidade é posto em causa. Com semelhantes pressupostos, parece um milagre, afinal, que neste disco (e no anterior) do Almanaque, a música surja tão viva. Longe de uma réplica estéril, ainda que polida e bem gravada, do original, Desfiando Cantigas acaba por ser a prova de que o trabalho de aperfeiçoamento e depuração dos originais “em bruto”, da procura das suas componentes mais autênticas e profundas, seja lá isso o que for, não pode deixar de ser também um trabalho criativo que – mesmo involuntariamente – resulta numa música tão nova quanto a dos grupos “híbridos” que Sardinha procurava contrariar.