sábado, 14 de abril de 2012

José Mário Branco – O Ladrão do Pão (Diapasão, 1979)




sacar

01. Fuga do Mar
02. Quatro Caminhos
03. Ó Ladrão
04. Ritmo Taberna
05. Reminescência I
06. Reminescência II
07. Reminescência III
08. A Madrugada
09. Acorda Padeirinho
10. Final

música – José Mário Branco
letra – Alexandre O’Neill

Quando este blog decide partilhar bandas sonoras, a coisa costuma correr bem. A banda sonora é uma coisa quase pensada para os Discos Com Sono, é aquele disco que, depois de reeditada toda a obra “normal” de um compositor, continua eternamente na gaveta. Para nosso contentamento, a segunda metade dos anos 70 e a primeira dos 80 foi época de produção entusiasta de cinema agora refundidíssimo, bem tingido de pedagogia pós-revolucionária, evoluindo progressivamente para o ressabiamento e o desencanto. É o caso, segundo parece, deste “O Ladrão do Pão”, filme de Noémia Delgado sobre o qual não consegui encontrar outra informação para além de que é inspirado no poema do mesmo nome de Alexandre O’Neill (que era – oh surpresa – marido da própria Noémia).
Independentemente dos eventuais méritos do filme, a escolha da banda sonora parece ter sido certeira. José Mário Branco saíra há pouco do GAC e atravessava agora o deserto de furiosa ressaca pós-PREC que exorcisaria pouco depois na digressão e disco Ser Solidário, e principalmente no famigerado FMI. Para mitigar o ressentimento, dedicou-se neste período à composição de bandas sonoras para filmes (para além deste, grava também a música para A Confederação e Gente do Norte).
Infelizmente, a identidade dos músicos que gravaram O Ladrão do Pão é incógnita e alguns temas registam desempenhos estranhamente inaptos para o que ZMB nos habitou. Para além disso, e tal como acontecia em A Confederação – na verdade, na maioria das bandas sonoras – várias faixas do disco partilham uma estrutura comum. Feitas as contas, é como se o autor tivesse composto dois temas que depois se desdobram em diversas variações, umas cantadas, adaptando o poema de O’Neill, outras instrumentais; umas mais longas, próximas do formato canção, outras meros apontamentos sonoros de poucos segundos. Se bem que contenha alguns fillers – Ritmo Taberna ou Reminescências, por ex – que pouca pertinência têm fora do contexto do filme, o disco justifica-se por inteiro nas canções que o abrem e fecham, e que julgo nunca terem sido regravadas posteriormente: o clima austero e grave de Fuga do Mar e Quatro Caminhos, e o encerramento festivo com Acorda Padeirinho e Final, esta última, ao que parece, cortada nos últimos segundos por se esgotar o tempo disponível no vinil. É que os 10 temas de O Ladrão do Pão foram registados num single, e espremem ao limite a capacidade de um sete polegadas. É sacar sem medos, caros clientes, que vale muito a pena.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Plexus – Paraíso Amanhã (RCA, 1969)



sacar

01. Paraíso Amanhã
02. Uba Budo
03. Waiting
04. Plexus I

Luis Pedro Fonseca – piano, flauta, voz, bateria
Jorge Valente – percussão, voz, efeitos especiais
José Alberto Teixeira Lopes – guitarra acústica, voz, guitarra de 12 cordas
Carlos Zíngaro – violino, violino eléctrico
Celso de Carvalho – violoncelo, violoncelo eléctrico, baixo

supervisão e direcção musical – José Cid e António Moniz Pereira

Se uma das raízes da Banda do Casaco vem da famigerada Filarmónica Fraude, a outra está aqui, neste Plexus, fundado em finais dos anos ’60 por uns ainda imberbes Carlos Zíngaro e Celso de Carvalho. Contando com a presença constante destes dois músicos, a banda foi recebendo e expelindo muitos outros ao longo dos anos. A música, ainda que oscilando por vários géneros conforme os músicos em ação, manteve-se sempre marginal e heterodoxa em relação a quase tudo o que se fazia aqui na parvónia.
Este EP, gravado em 69 e a única coisa editado pelo Plexus, apanha a banda ainda em registo pop, embora mesclada de influências jazzísticas e até de apontamentos de música concreta. Alguns truques ingénuos de estúdio, instrumentos utilizados de forma menos respeitosa (momentos em que o Zíngaro já toca o violino daquela maneira inconfundível), sons pouco convencionais que irrompem de tempos a tempos indicam um gosto pela experimentação que, nos anos 60, era pouco recomendável para qualquer músico que quisesse tocar ou gravar por estas bandas. Mas a “supervisão” de José Cid e Moniz Pereira, cujo objetivo provável era pôr os meninos na ordem, foi até certo ponto foi bem-sucedida. “Waiting” é definitivamente cantarolável, e todo o resto do disco dá para ir batendo o pé no chão. O cruzamento de influências beatlianas e talvez zappianas – coisas que os mais afortunados traziam do estrangeiro – resulta em quatro temas aventurosos mas que, ainda assim, respeitam a integridade neuronal da juventude familiarizada com o pop psicadélico da altura.
Depois do disco, a formação vai-se alterando com a entrada e saída de uma catrefada de gente - Carlos Bechegas, Nelson Portelinha, Paulo Gil, David Gausden, Carlos Alberto Augusto, Rui Neves, Miguel Campina – e a banda alista-se definitivamente nas fileiras da música improvisada e do jazz menos ortodoxo, abandonando as canções. Desse período não ficaram discos gravados, só restam os belíssimos cartazes do Zíngaro a anunciar concertos que ficariam espetaculares nas paredes da minha sala – fiz anos em Março, quem me quiser oferecer um é favor contactar nos comentários.