domingo, 26 de fevereiro de 2012

Corpo Diplomático – Música Moderna (Nova, 1979)



sacar

01. Lisboa (Quem Quer Comprar um Ferrari)
02. Televisão
03. Kayatronic
04. Férias
05. Clandestinidade
06. Maria
07. Bombista
08. Amor de Guichet

Falso Alarme [Paulo Pedro Gonçalves] – guitarra, voz
Carlos Maria [Carlos Maria Trindade] – órgão, voz
Choque Eléctrico [Rui Freire] – sintetizador, voz
Dedos Aires [Pedro Ayres Magalhães] – baixo, voz
Flash Gordon [Emanuel Ramalho] – bateria, percussão, voz
Ultravioleta [Carlos Gonçalves] – voz principal

produção – João Henrique e António Sérgio

Clássico entre os clássicos dos discos presos ao vinil, o LP dos Corpo Diplomático continua a fazer correr tinta aos analistas da história rock nacional e a emagrecer os bolsos dos coleccionadores que se esmifram por um exemplar. Não queria usar o irritante adjectivo “meteórico” (até porque me lembra meteorismo, e não me quero lembrar de meteorismo quando oiço os Corpo Diplomático) mas que outra coisa dizer de uma banda que durou pouco mais de um ano, editou um single e um LP, deu dois ou três concertos, e continua a soar como mais nenhuma?
Os Corpo Diplomático surgem em 1979, logo depois de Paulo Pedro Gonçalves e Pedro Ayres Magalhães enterrarem os Faíscas – dizem os compêndios que foi a primeira banda punk portuguesa – e reconverterem a energia crua do punk em electricidade espasmódica new-wave. E o facto é que, actualmente, quem fala sobre Corpo Diplomático quase não tem outro assunto senão sublinhar que mais new wave não podiam ser. Ora, se é verdade que a carapuça lhes serve, há um mar de distância entre este new wave e o de outras bandas que, poucos anos depois, foram assim rotuladas (Táxi, por exemplo) quando seguiram à risca a cartilha dos Blondie ou os riffs mais óbvios dos Talking Heads. Os Corpo Diplomático podiam sê-lo, mas o seu new wave só encontra reflexo no dos Pere Ubu ou dos Devo dos primórdios, ou seja, nas bandas new wave que ainda não sabiam que o eram e que, por isso, encontravam nesse limbo um espaço de liberdade. Se o tempo do rock corresse com alguma lógica, ao álbum do Corpo Diplomático não se teria seguido o boom do rock português, mas a cena da Música Moderna Portuguesa da segunda metade dos ‘80s, que seguiu o mesmo impulso criativo alimentado a claustrofobia e ressentimento.
Não era por acaso que Kayatronic – o mais alienígena e inquietante tema de “Música Moderna” – passava com insistência nos programas de música portuguesa da Rádio Universidade Tejo, entre maquetas dos Melleril de Nembutal e os primeiros discos dos Pop dell’ Arte – era uma invocação dos antepassados mortos, uma tentativa de absorver a gosma cósmica da subversão que uma meia dúzia de tipos com nomes ridículos pusera a circular no éter uma década antes.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Fausto – Guerra do Mirandum (Diapasão, 1984)




sacar

01. Invasão
02. Eu Casei com a Bonita

gravado em 1979 nos estúdios Musicorde (01.) e A.T. (02.)
captação de som de Rui Remígio (01.) e Moreno Pinto (02.)

Coisa das mais misteriosas a passar aqui pelo blog, este single do Fausto não aparece em nenhuma discografia que eu conheça, nem dele tinha ouvido falar até, há poucas semanas, um sujeito de óculos escuros e barbas (provavelmente falsas) mo entregar a meio da noite. Na capa e contracapa, nenhuma informação de jeito para além de que os temas foram gravados cinco anos antes da estreia do filme. Sobre a identidade dos músicos intervenientes, nem uma pista. A única pessoa a falar no assunto é a Né Ladeiras que, em entrevista ao Fernando Magalhães, se lembra de ter gravado com o Fausto dois temas para esta banda sonora: o que ocupa o lado B e ainda “Os Mandamentos do Vinho”. Desconheço se este último chegou a ser editado, mas versões posteriores de ambos surgem em “Atrás dos Tempos Vêm Tempos”, embora desprovidas do contributo ladeiral.
No lado A, Invasão não é propriamente fascinante: um tambor percutido marcialmente, um coro que faz oooh-ooooh e umas cordas sintetizadas sumidas em fundo. É o segundo lado que faz o disco valer a pena. Acompanhada apenas de braguesa e castanholas, a canção é daquelas coisas que o Fausto faz melhor que ninguém, submetendo os ritmos tradicionais portugueses a um enigmático processo que os projecta numa outra esfera a que, à falta de melhor termo, se convencionou chamar (a partir de agora) a dimensão faustiana. Com a Né Ladeiras nos coros, então, o resultado final ainda é mais ofuscante. O som é que não é grande coisa, mas não vale a pena reclamarem muito porque que o disco não está bem gravado. E, sim, é mesmo em mono.