quarta-feira, 6 de abril de 2011

V.A. – À Sombra de Deus (Câmara Municipal de Braga, 1989)



sacar

01. Rongwrong – Estranho Prazer
02. Pai Melga – Protesto do Diabo
03. Orfeu Rebelde – Através dos Tempos
04. Os Gnomos – Destino
05. Bateau Lavoir – Até um Dia
06. Baile de Baden-Baden – Chuva de Verão
07. Rua do Gin – Rebeca
08. Mão Morta – 1º de Novembro

idealização e organização – Adolfo Luxúria Canibal, Berto Borges
produção – M. Leite (01.); Pai Melga (02.); Orfeu Rebelde (03.); Os Gnomos, Bula (04.); Bateau Lavoir (05.); Baile de Baden-Baden (06.); Rua do Gin, Bula (07); Mão Morta, Bula (08.)

Vinte e dois anos passados sobre os acontecimentos, é difícil conceber hoje a vaga sensação de exotismo que era ouvir falar na capital de uma vigorosa cena de música moderna em Braga. Braga, toda a gente o sabia, era um sítio lá para cima cheio de padres e incenso, em que a juventude de bochechas rosadas e cérebros iletrados pouco mais fazia do que guiar carros de bois. E, contudo, os Mão Morta deitavam abaixo o RRV de cada vez que lá passavam, os Rongwrong e os Bateau Lavoir rodavam com insistência na Rádio Universidade Tejo, e dizia-se que ainda mais bandas havia lá para o Minho a fazer barulho como deve ser. Era coisa nunca vista, e o fenómeno tinha de ficar registado de alguma forma. O Adolfo Luxúria Canibal e o Berto Borges (baterista dos Rongwrong) aproveitaram o hype e tentaram convencer a Câmara a pagar e editar um disco com aquela malta, coisa que, nos idos de 1989, era bem mais difícil de fazer do que agora. Correu bem, pelos vistos, porque ainda houve volume dois e volume três de À Sombra de Deus, editados em CD já nos anos '90 e '00.
O disco começa em alta, com os Rongwrong a musicarem e interpretarem uma letra luxuriocanibalesca, numa canção que fica poucos furos abaixo de Sombra Veloz. Depois a coisa descamba, com dose tripla de urbano-depressão adolescente e mal amanhada (“encontrei uma mansão sombria onde jazia um corpo mutilado”, etc.), que se prolonga até ao final do lado A. Virando o disco, a festa volta a animar. Os Bateau Lavoir casam o cinzentismo oitentista com uma secção de metais à la Radar Kadafi, e produzem uma óptima canção que até resiste a um vocalista pouco inspirado. Os Baile de Baden-Baden bombardeiam-nos com camadas de guitarras em distorção numa saudável aventura sónico-janada, e os Rua do Gin dão-nos provavelmente o melhor tema do disco e de certeza o mais surpreendente – até porque ninguém ouvira falar neles até então. A caixa de ritmos semi-industrial, o vocalista a rebentar as cordas vocais, as voltas imprevistas das guitarras, tudo bem feito. E acaba-se, evidentemente, com Mão Morta (a única banda incluída em todos os 3 volumes da compilação), numa versão bem poderosa, ainda que percutida electronicamente, do clássico 1º de Novembro.

12 comentários:

Pedro Homero disse...

Este eu também tenho! Sugiro que se saque, sim, e subscrevo a crítica apresentada. :)

Eduardo F. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eduardo F. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eduardo F. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eduardo F. disse...

De facto as faixas dos Rongwrong e Rua do Gin destacam-se mesmo.

Uns furos mais abaixo, a dos Mão Morta.

Quem pôde ir ao último concerto que eles deram no Theatro Circo guarda uma versão da 1º de Novembro que arrebenta com tudo.
O Adolfo a gritar feito louco aquela melodia parva... (parva, entenda-se: a maneira como a cantou, repetitivamente até se esgotar a caixa de ar e a nossa credulidade, ridicularizou por completo a ladainha que atravessa todo o tema).

Um exercício de desconstrução por repetição levado até ao extremo.

Foi fantástico.
:)

Anónimo disse...

Como não sei como entrar em contacto com o dono deste blogue, deixo aqui uma prendinha para ele e para todos os outros utilizadores deste muito útil site. Façam o favor de ouvir e partilhar.

http://www.sendspace.com/file/vfbevg

Discos Com Sono disse...

Muito obrigado por este single do José Afonso! Embora o lado A tenha surgido numa compilação em CD, , acho que o lado B nunca saiu mesmo do vinil. Um abraço.

Eduardo F. disse...

Presumo saber do que falam (não fui buscar).

As canções do EP Cantares de José Afonso
(
A1 Coro dos Caídos
A2 Canção do Mar
B1 Maria
B2 Ó Vila de Olhão
)

existem todas em CD.

As três primeiras numa compilação que reúne o Luíz Goes, o Carlos Paredes e o Zeca.

A última, (a mais recente a ser editada em cd) existe numa compilação do Público "Os Melhor da Música Portuguesa - Anos 50 e 60. 4x CD).

:)

Discos Com Sono disse...

Boa, Eduardo, estava convencido que a "Maria" não tinha saído em CD, mas não me dei ao trabalho de ir verificar. Obrigado pelos esclarecimentos :-)

Eduardo F. disse...

:)

Na verdade, aquela que faltava, Ó Vila de Olhão, é bem mais importante (musical e liricamente).

E é esta componente lírica que explica - quanto a mim, que acredito que há uma coerência entre as ideias e a praxis de um poder que preza e propala a estupidez e o obscurantismo - porque é que não foi incluída na compilação de 73 (a tal do Paredes e do Goez).

Anónimo disse...

Essa compilação do Paredes e Goez é um bocado foleira. Lembro-me que os "Verdes Anos" estão noutro tom e noutra velocidade, e não me parece ser uma gravação diferente da original. De qualquer maneira, aqui estão as músicas. E apesar do Eduardo achar a Vila de Olhão bem mais importante, e eu entendo porquê, não é música que me apeteça ouvir todos os dias, enquanto que a "Maria" é linda, uma das mais belas canções do Zeca, na minha opinião.

Eduardo F. disse...

:)