domingo, 24 de abril de 2011

Júlio Pereira – Nordeste / Vira Cavaquinho (Diapasão, 1983)



sacar

01. Nordeste
02. Vira Cavaquinho

Júlio Pereira
Carlos Zíngaro
José Marreiros
João Seixas
Amélia Muge

arranjos, direcção musical, produção – Júlio Pereira

O Júlio Pereira tem-me pago bem para lhe resgatar os discos não reeditados em CD, e hoje vai este single gravado, julgo eu, na mesma altura do álbum Braguesa (já podes pôr o cheque no correio, Júlio). A época era de sucesso juliopereirino, depois do êxito do Cavaquinho e da sequela, o tal Braguesa, álbuns didáticos e bem planeados, em que os ditos instrumentos são virtuosamente esgrimidos pelo nosso hirsuto multi-instrumentista. Guardo-lhes bastante reservas, porque me parecem chatos pra burro, mas essa é outra história. Este single, e é disso que se trata aqui, revela duas facetas do Júlio: essa, a ligeiramente aborrecida, no mais que previsível Vira Cavaquinho, e a surpreendente, inventiva e pulirante, no óptimo Nordeste. E é aí, no lado A deste single, que apetece ficar: no inconfundível violino do Carlos Zíngaro, nas percussões que abrem o tema, no arranjo perfeito do mestre Júlio, e na voz fresquíssima da Amélia Muge, que aqui (ou no último tema do Braguesa, não sei qual saiu primeiro) se estreia a cantar em disco e, como se isso não bastasse, posa com grande charme para a fotografia da contracapa. Belas botas, Amélia!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

V.A. – À Sombra de Deus (Câmara Municipal de Braga, 1989)



sacar

01. Rongwrong – Estranho Prazer
02. Pai Melga – Protesto do Diabo
03. Orfeu Rebelde – Através dos Tempos
04. Os Gnomos – Destino
05. Bateau Lavoir – Até um Dia
06. Baile de Baden-Baden – Chuva de Verão
07. Rua do Gin – Rebeca
08. Mão Morta – 1º de Novembro

idealização e organização – Adolfo Luxúria Canibal, Berto Borges
produção – M. Leite (01.); Pai Melga (02.); Orfeu Rebelde (03.); Os Gnomos, Bula (04.); Bateau Lavoir (05.); Baile de Baden-Baden (06.); Rua do Gin, Bula (07); Mão Morta, Bula (08.)

Vinte e dois anos passados sobre os acontecimentos, é difícil conceber hoje a vaga sensação de exotismo que era ouvir falar na capital de uma vigorosa cena de música moderna em Braga. Braga, toda a gente o sabia, era um sítio lá para cima cheio de padres e incenso, em que a juventude de bochechas rosadas e cérebros iletrados pouco mais fazia do que guiar carros de bois. E, contudo, os Mão Morta deitavam abaixo o RRV de cada vez que lá passavam, os Rongwrong e os Bateau Lavoir rodavam com insistência na Rádio Universidade Tejo, e dizia-se que ainda mais bandas havia lá para o Minho a fazer barulho como deve ser. Era coisa nunca vista, e o fenómeno tinha de ficar registado de alguma forma. O Adolfo Luxúria Canibal e o Berto Borges (baterista dos Rongwrong) aproveitaram o hype e tentaram convencer a Câmara a pagar e editar um disco com aquela malta, coisa que, nos idos de 1989, era bem mais difícil de fazer do que agora. Correu bem, pelos vistos, porque ainda houve volume dois e volume três de À Sombra de Deus, editados em CD já nos anos '90 e '00.
O disco começa em alta, com os Rongwrong a musicarem e interpretarem uma letra luxuriocanibalesca, numa canção que fica poucos furos abaixo de Sombra Veloz. Depois a coisa descamba, com dose tripla de urbano-depressão adolescente e mal amanhada (“encontrei uma mansão sombria onde jazia um corpo mutilado”, etc.), que se prolonga até ao final do lado A. Virando o disco, a festa volta a animar. Os Bateau Lavoir casam o cinzentismo oitentista com uma secção de metais à la Radar Kadafi, e produzem uma óptima canção que até resiste a um vocalista pouco inspirado. Os Baile de Baden-Baden bombardeiam-nos com camadas de guitarras em distorção numa saudável aventura sónico-janada, e os Rua do Gin dão-nos provavelmente o melhor tema do disco e de certeza o mais surpreendente – até porque ninguém ouvira falar neles até então. A caixa de ritmos semi-industrial, o vocalista a rebentar as cordas vocais, as voltas imprevistas das guitarras, tudo bem feito. E acaba-se, evidentemente, com Mão Morta (a única banda incluída em todos os 3 volumes da compilação), numa versão bem poderosa, ainda que percutida electronicamente, do clássico 1º de Novembro.