terça-feira, 22 de junho de 2010

Júlio Pereira – Mãos de Fada (Diapasão, 1979)



sacar

01. Abertura
02. Uma Chula P’ra Rosa e P’ra Gente
03. O Mundo na Mão de Mary
04. Os Cuidados de Laurindinha
05. Maria Negrita
06. Diz Teté, Se Viste Por Aí um Palhaço
07. A Xica e a Garotada
08. Paula Barraqueira
09. E a Zé Cantava na Ilha da Culatra
10. Mãos de Fada

Júlio Pereira – voz, guitarra acústica, bandolim, cavaquinho, concertina, bombo, reco-reco, xarango, baixo, banjo, chocalho, vibrafone
Maria Helena Davila – voz
Henri Tabot – guitarra acústica, ferrinhos, reco-reco, canas
Fernando Júdice – contrabaixo, baixo
Guilherme Inês – pandeiro, bateria, bongós, tumbadoras, caixinha de arroz, pinhas
Raúl Mendes – harmónica
Pedro Osório – piano eléctrico, acordeão
Rui Cardoso – saxofone, flauta, flauta transversal
Carlos Salomé – trancanholas
Naomi Anner – violino
Tomás Pimentel – trompete
António Lages – tuba
Moreno Pinto – ferrinhos
António Pinho – piano eléctrico
Zé Eduardo – contrabaixo
Elsa Bruxelas – flauta de bisel
Rão Kyao – flauta de cana, saxofone
Manuel Faria – acordeão

Arranjos e direcção musical – Júlio Pereira
Técnicos – Moreno Pinto, Jorge Mendes Barata
Misturas – Júlio Pereira, Jorge Mendes Barata

Depois do famigerado escândalo do post anterior, em que partilhei um disco já reeditado em CD, tento agora redimir-me com um fonograma já pedido por estas bandas, nunca reeditado em formato digital e nunca antes ripado (que eu saiba). É o último disco em que o Júlio Pereira acaricia os nossos ouvidos com a sua voz, antes de se decidir a sugar o tutano dos instrumentos tradicionais portugueses em discos que os espremem à vez (“Cavaquinho”, “Braguesa”, “O Meu Bandolim”) ou em grupo (“Os Sete Instrumentos”). No “Mãos de Fada”, esta panóplia instrumental já lá está, mas aqui ao serviço de canções sobre diversas mulheres que, calculo, cruzaram a vida do próprio Júlio. Os apetites do artista parecem ecléticos e cosmopolitas, tanto canta a Mary quanto a Maria Negrita, tanto enaltece a Paula Barraqueira quanto a Teté, a Mulher-Palhaço (esta última não percebo, mas pronto…).
Há aqui canções melhores do que no anterior Lisboémia, principalmente as que mais se inspiram em moldes tradicionais (“Uma Chula P´ra Rosa e P’ra Gente”, “Os Cuidados de Laurindinha”, “E a Zé Cantava na Ilha da Culatra”), mas torna-se difícil saltar e pulirar com elas perante o surrealismo involuntário de algumas letras: “Aqui vai mais uma chula que pula com a gente / Rapazes e raparigas não trouxeram pente”, “Anda por aí um palhaço / Diz lá onde é que o viste ó Maria diz / Talvez ó Manel num bagaço”, etc. Por outro lado, é precisamente esta veia lírica algo transviada que dá aos três primeiros discos do Júlio Pereira um certo charme e entusiasmo quase juvenil, uma toada lúdica que se perde nos trabalhos posteriores, em que domina o virtuosismo e a muito grave missão de resgatar as maltratadas tradições musicais do nosso povo. E é claro que a missão era grave e que ele a cumpriu de forma inexcedível, mas caramba, ó Júlio, parecias divertir-te mais quando também cantarolavas.