terça-feira, 15 de dezembro de 2009

V.A. - Cantigas de Ida e Volta (Orfeu, 1975)



sacar

01. Macacos
02. Papagaio
03. Balada das Vinte Meninas
04. Consulta
05. O Nariz
06. Cavalinho, Cavalinho
07. Ladaínha da Aranha
08. Canção de Embalar Bonecas Pobres
09. Pulos
10. Dança da Rosa
11. Cantilena
12. O Ovo
13. Grilos e Grilões

Sérgio Godinho – voz (01., 05., 10., 12., 13.), kazoo, xilofone
Fausto – voz (02., 04., 06., 09., 11., 13.), guitarra, kazoo, metalofone
Vitorino – voz (03., 04., 07., 11., 13.)
Sheila – voz (08., 13.), dulcimer
Janita Salomé – voz
Carlos Salomé – voz
Jorge Constante Pereira – piano, flauta de bisel, xilofone, metalofone
Paulo Godinho – baixo
Filipe Zau – percussão
Raul – timbalinhos
Eduardo Maia – assobios

Música, arranjos, direcção musical – Jorge Constante Pereira

Letras – Sidónio Muralha (01., 02., 13.), Matilde Rosa Araújo (03., 06., 07., 08., 10.), Maria Alberta Meneres (04., 05., 09., 11.), Sérgio Godinho (12.)

“Aranha, anha, tão muda e mole”, canta Vitorino naquele que é um dos grandes versos perdidos da música popular portuguesa. Cantigas de Ida e Volta já tinha valido a pena se fosse só a “Ladaínha da Aranha”, mas a verdade é que por lá também andam o Fausto, o Sérgio Godinho e a fofa da Sheila a cantar sobre um nariz de giz, um urso polar que não sabe pular, uma galinha que pôs um ovo na cabeça, vinte meninas de cabeça preta e outras histórias edificantes. Podemos imaginar a paródia que foi gravar este disco um ano após a Revolução, uma resma de canções que, em menos de meia hora, casa o nonsense do imaginário infantil com a pedagogia naif-marxista, educando desde o berço nas questões da luta de classes. O disco, já se percebe, não é de tão fácil digestão quanto a música infantil que se compõe e grava actualmente – poesia a sério para miúdos, de Matilde Rosa Araújo e Maria Alberta Meneres, alguns arranjos que não destoariam dos Osso Exótico, naquele disco ali uns posts abaixo, e a Sheila a cantar (julgo que pela primeira vez em disco) e a tirar o sono a muitas criancinhas.
O grande mérito desta aventura é do seu homem do leme, Jorge Constante Pereira, que nas décadas seguintes ganhou um merecido lugar no imaginário mítico nacional mercê de novas colaborações com Sérgio Godinho, principalmente em A Árvore dos Patafúrdios e Os Amigos de Gaspar. E, se a actual geração de trintões cultiva uma obsessão perturbadora e quase doentia com as músicas da sua meninice ao ponto de motivar reedições em CD dos genéricos dos desenhos animados de antanho, o trabalho de Jorge Constante Pereira bem que podia ser mais bem tratado e divulgado. Mas, claro, não ao ponto de reeditar Cantigas de Ida e Volta e de me obrigar a retirar este post dos Discos Com Sono.

5 comentários:

Eduardo F. disse...

Boa iniciativa, este disco. Incrível como ficou completamente esquecida a sua menção na biografia "Retrovisor", do Sérgio...

Quanto a ser a primeira aparição da Sheila (vulgo Shila), ela já tinha feito vozes nos dois primeiros (pelo menos) álbuns do então companheiro.

Abraço.

Discos Com Sono disse...

Obrigado pelo esclarecimento, Eduardo. Talvez seja então a primeira vez que ela canta a solo e em português.

Abraço.

Tiago disse...

Obrigado!

Já agora, a A Árvore dos Patafúrdios teve edição em disco?

Abraço.

António disse...

Que fixe. Eu por acaso tenho este vinil, e foi procurando por mais coisas do Jorge Constante Pereira que vim descobrir o teu blog e acabei por sacar vários discos. Também tenho alguns discos com sono, a ver se um dia destes os passo para mp3 e te mando para postares também. Assim de cabeça, estou a lembrar-me do single do Zeca Afonso "Maria" / "Ó Vila de Olhão", editado em 1964. :)

Miguel disse...

Li um artigo e, como gostei, fui lendo mais. Tornei-me seguidor e lá vim parar aqui. Tudo isto em meia hora.

Não terei muito a dizer em relação a este disco. Recentemente ouvi-o com o meu filho de 8 anos e, para minha surpresa, ele ficou viciado. Apanho-o, por vezes, a cantar "Pulos", "Macacos" ou "Cantilena". Sempre que aparece o narrador de "Grilos e Grilões" solta uma incontrolável gargalhada. A partir de um momento recusou "Canção de Embalar Bonecas Pobres", pelo que o lado A terminava sempre mais cedo. Realmente é cantada de uma forma muito melancólica, quase como um convite ao suicídio. :)

Parabéns pelos textos. Tentarei ler mais alguns num futuro próximo.