quinta-feira, 28 de maio de 2009

Anabela Duarte – Subtilmente (Ed. Autor, 1991)



sacar

01. Subtilmente
02. Asiaouasi
03. Ela, Ela

Anabela Duarte – voz, programações, sintetizadores
Rodrigo Amado – sax soprano (01.), sax alto (03.)
Luísa Gonçalves – piano (01., 03.)
Charlie Brown – baixo (01.)
Pedro Pita Groz – pratos (01.)
Ká-Mané – percussões (01.)

Produção – Anabela Duarte

Quando Anabela Duarte gravou este EP, no início dos anos 90, já a saga da canção pop aventureira e experimentalóide que marcou o final dos 80’s estava a dar os últimos suspiros. Mas Anabela ainda não tinha percebido, e insistiu mais algum tempo antes de se virar durante largos anos para o canto lírico, a declamação de poesia e outras áreas menos cantaroláveis. Este disco e o CD ao vivo “Delito” (gravado na mesma altura mas editado vários anos mais tarde pela Ananana) são os registos que ficaram desse breve período.
Apesar da contribuição de alguns músicos convidados, são os sintetizadores laurieandersanianos tocados pela própria Anabela que sobressaem na parte instrumental, e que ligam nestas três canções as influências muito díspares dos projectos por onde a cantora tinha passado até à altura: lá estão os Ocaso Épico, principalmente na toada pseudo-oriental de “Asiaouasi”, lá está o disco de fados que ela tinha gravado em 1988 no tema “Subtilmente”, lá estão os Mler Ife Dada, que Anabela tinha abandonado pouco tempo antes mas que se infiltram aqui quase de uma ponta à outra do disco. Aliás, dizem as más línguas que este disco é a Anabela a tentar fazer uns MlerIfe fora dos MlerIfe. Pela mesma altura, também Nuno Rebelo tentava adiar o inevitável: com a sua banda de pés para a cova, chamou Sofia Amendoeira para fazer as vezes de Anabela, mas não conseguiu mais que adiar alguns meses o anunciado enterro.
Mas esqueçam-se as birras de comadres e oiça-se este disco: apesar de uma produção mal amanhada e de algumas opções menos felizes (aquelas segundas vozes no Asiouasi, pelamordedeus), são três temas muito bem esgalhados que lembram uma outra maneira de fazer canções pop, mais livre e com mais tomates do que a maioria das propostas independentes que hoje nos servem. E pronto, embora o choradinho revivalista dos anos 80 não seja apanágio deste blog, às vezes não há como resistir.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Tina and The Top Ten – Everslick (Moneyland, 1993)



sacar

01. Everslick
02. The Meeting Parts
03. One Cold Cut

Dr. Top
Johnny “Scratch” Money
Plastic Mimi
Captain M.D.
Falcon D.
+
Rafael Toral – guitarra (01.), piano (02.)

Produção – Rafael Toral

Ainda hoje não é claro quanto dos Tina and The Top Ten era um genuíno exercício de fascínio e emulação da juventude sónica estado-unidense e quanto daquela banda era um comentário cultural irónico herdeiro dos delírios Homeostéticos e afins. É provável que o próprio fundador, o artista plástico João Paulo Feliciano, não saiba responder ao certo, mas afinal sempre foi esse esbatimento de fronteiras entre alta e baixa cultura que teve piada nesta gente. Parece que o Feliciano andava por alturas da fundação da banda a conspirar com os Ases da Paleta (Pedro Portugal, Manuel João Vieira e Fernando Brito, todos ex-homeostéticos) e o conceito de “very first all portuguese fake american rock and roll band” deve-lhe ter parecido uma tradução adequada para o rock do que o grupo fazia nas telas, para além de uma boa oportunidade para rasgar na guitarra e berrar ao microfone.
Este single surge quatro anos após a formação dos TTT, já depois de vários músicos terem entrado e saído, de ter surgido a Moneyland Record$ para editar a produção musical da banda e dos amigos, e de Feliciano ter começado a trabalhar com Rafael Toral, com quem formaria os No Noise Reduction e passararia um curto e atribulado período nos Pop dell’Arte. A música não se pode dizer que surpreenda – é aquilo que os Tina and The Top Ten sempre fizeram, com maior ou menos convicção, e desta vez o sucesso é garantido: parecem americanos, sim senhor. O lado A é bem puxadito, com os berros da Mimi (também Ena Pá 2000, também artista plástica – isto está tudo ligado) a acompanharem os do Feliciano e toda a banda a encarnar na perfeição os corpos astrais dos Sonic Youth. Virando o disco, parecem um pouco menos americanos e um pouco mais ingleses, uma espécie de T. Rex com as guitarras mal afinadas. A coisa termina a abrir com meio minuto de “One Cold Cut”.
Com a aproximação do novo milénio terminaria também assim, um bocado sem jeito, a “cena sónica” iniciada pelos TTT e que teve o seu epicentro nas Caldas da Raínha – um capítulo curioso, ainda que algo inconsequente, da história da música portuguesa nesses malfadados anos 90.