terça-feira, 15 de dezembro de 2009

V.A. - Cantigas de Ida e Volta (Orfeu, 1975)



sacar

01. Macacos
02. Papagaio
03. Balada das Vinte Meninas
04. Consulta
05. O Nariz
06. Cavalinho, Cavalinho
07. Ladaínha da Aranha
08. Canção de Embalar Bonecas Pobres
09. Pulos
10. Dança da Rosa
11. Cantilena
12. O Ovo
13. Grilos e Grilões

Sérgio Godinho – voz (01., 05., 10., 12., 13.), kazoo, xilofone
Fausto – voz (02., 04., 06., 09., 11., 13.), guitarra, kazoo, metalofone
Vitorino – voz (03., 04., 07., 11., 13.)
Sheila – voz (08., 13.), dulcimer
Janita Salomé – voz
Carlos Salomé – voz
Jorge Constante Pereira – piano, flauta de bisel, xilofone, metalofone
Paulo Godinho – baixo
Filipe Zau – percussão
Raul – timbalinhos
Eduardo Maia – assobios

Música, arranjos, direcção musical – Jorge Constante Pereira

Letras – Sidónio Muralha (01., 02., 13.), Matilde Rosa Araújo (03., 06., 07., 08., 10.), Maria Alberta Meneres (04., 05., 09., 11.), Sérgio Godinho (12.)

“Aranha, anha, tão muda e mole”, canta Vitorino naquele que é um dos grandes versos perdidos da música popular portuguesa. Cantigas de Ida e Volta já tinha valido a pena se fosse só a “Ladaínha da Aranha”, mas a verdade é que por lá também andam o Fausto, o Sérgio Godinho e a fofa da Sheila a cantar sobre um nariz de giz, um urso polar que não sabe pular, uma galinha que pôs um ovo na cabeça, vinte meninas de cabeça preta e outras histórias edificantes. Podemos imaginar a paródia que foi gravar este disco um ano após a Revolução, uma resma de canções que, em menos de meia hora, casa o nonsense do imaginário infantil com a pedagogia naif-marxista, educando desde o berço nas questões da luta de classes. O disco, já se percebe, não é de tão fácil digestão quanto a música infantil que se compõe e grava actualmente – poesia a sério para miúdos, de Matilde Rosa Araújo e Maria Alberta Meneres, alguns arranjos que não destoariam dos Osso Exótico, naquele disco ali uns posts abaixo, e a Sheila a cantar (julgo que pela primeira vez em disco) e a tirar o sono a muitas criancinhas.
O grande mérito desta aventura é do seu homem do leme, Jorge Constante Pereira, que nas décadas seguintes ganhou um merecido lugar no imaginário mítico nacional mercê de novas colaborações com Sérgio Godinho, principalmente em A Árvore dos Patafúrdios e Os Amigos de Gaspar. E, se a actual geração de trintões cultiva uma obsessão perturbadora e quase doentia com as músicas da sua meninice ao ponto de motivar reedições em CD dos genéricos dos desenhos animados de antanho, o trabalho de Jorge Constante Pereira bem que podia ser mais bem tratado e divulgado. Mas, claro, não ao ponto de reeditar Cantigas de Ida e Volta e de me obrigar a retirar este post dos Discos Com Sono.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Banda do Casaco - Contos da Barbearia (EMI, 1978)



sacar

01. Na Cadeira do Barbeiro
02. O Diabo da Velha
03. A Noite Passada em Caminha
04. O Enterro do Tostão
05. La Pastorica
06. Malfamagrifada
07. Zás! Pás! (O Casório do Trolha)
08. Retrato d’Homenzinho Pequenino com Frasco
09. Amo Tracinho Te
10. Godofredo Cheio de Medo

Mena Amaro – voz
Nuno Rodrigues – voz, guitarra acústica, bombarda, adufe, glockenspiel, cromo harp, castanholas, flauta de bisel
Celso de Carvalho – violoncelo, sitara
Tó Pinheiro da Silva – flauta
António Pinho – voz, adufe, bombo, paus de Miranda, castanholas, pandeireta, cistros, sinos
+
Armindo Neves – guitarra acústica, guitarra eléctrica
José Eduardo – baixo eléctrico, contrabaixo
Carlos Zíngaro – violino
Rui Reis – piano, órgão, cravo
Vitor Mamede – bateria
José Barrocas – flautim
Adácio Pestana – trompa
António Reis Gomes – trompete
Rita Rodrigues – voz (06.)
Glória Luz, Guida Veloso, Cristina Janeiro, Vitor Silva, Vitor Reino, Manuel dos Santos, José Moças – coros

Produção – António Pinho e Nuno Rodrigues

Vamos deixar uma coisa bem clara: Banda do Casaco não é prog. Certo? A Banda do Casaco é muitas coisas, é milhentas coisas, antes de ser prog. Por isso, malta do prog, deixem de dar balúrdios pelos discos da Banda do Casaco, deixam de inflaccionar estupidamente o mercado, deixem de chamar a isto prog-folk ou trad-prog ou seja-lá-o-que-for-prog, e permitam, se faz favor, que os preços destes discos voltem a ser suportáveis para gente normal. Ainda me faltam quatro, e gostava de os comprar antes de bater a bota.
Esclarecida esta questão, há que reconhecer que a Banda do Casaco se encostou perigosamente ao prog no “Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos”, e em momentos ocasionais de outros discos. Mas este “Contos da Barbearia”, que saiu no ano seguinte ao “Hoje Há Conquilhas”, mostra que a Banda continuou a seguir um caminho próprio e a resistir, ainda e sempre, aos invasores – fossem eles os músicos socialmente empenhados da época que acusavam a Banda de alienar as massas ou os azeiteiros miasmas progressivos que contaminaram do exterior tantas bandas portuguesas dos anos ’70. “Contos da Barbearia” é Banda do Casaco vintage, é o bom e velho caldo de música de raiz tradicional com jazz, rasgos de pop anglo-saxónico, apontamentos avant-garde, tudo condimentado com humor e sarcasmo q.b. Uma espécie de Mutantes dos climas temperados, mais cerebrais e menos esfuziantes que os tropicais, de sobretudo e bigode em vez de biquini e plumas. Na Barbearia, os arranjos recuperam uma sobriedade que se tinha perdido nas camadas megalómanas de instrumentos sobrepostos das Conquilhas, e o resultado final acaba por ser mais palatável. Metade de temas originais, outra metade de inspiração tradicional, e temos, em pouco mais de meia hora de música, um dos discos mais equilibrados da Banda do Casaco.
A seguir, a Banda tiraria uma sabática antes de surgir renovada em 1980 – um pouco menos tradicional, um pouco mais pop – e continuar a desbravar caminho até 1984. Se isto fosse no estrangeiro, já tínhamos uma caixinha com os 7 CDs de originais remasterizados, livrinho cheio de entrevistas e ensaios, um DVD de bónus e mais não sei quantas mariquices. Como felizmente estamos em Portugal, temos masters perdidas, reedições em CD esgotadas e até um disco que nunca saiu do vinil – mesmo perfeito para o Discos Com Sono.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Mler Ife Dada - Mler Ife Dada (Polygram, 1990)



sacar

01. Música do Homem que Anda
02. Erro de Cálculo
03. Choro do Vento e das Núvens
04. À Chuva

Sofia Amendoeira – voz
Bruno Pedroso – bateria
José António Aguiar – baixo
José Pedro Lorena – saxofone alto, clarinete baixo
Nuno Rebelo – guitarra eléctrica e clássica, voz, programação de ritmos e teclados, CD’s
+
Rafael Toral – fitas magnéticas, guitarra eléctrica (01, 04)

Produção – Nuno Rebelo

Dizia o Nuno Rebelo em entrevista não sei onde que este disco era um grito de “estamos vivos”, que era os Mler Ife Dada a erguerem o punho perante o mundo (quer dizer, perante a aldeia do pop experimentalóide português do final dos anos ’80) e a dizerem que ainda tinham um futuro brilhante. Dizia logo de seguida que se enganou e que, afinal, já estavam mortos. Mas limpemos as lágrimas e recuemos um pouco no tempo: Em 1989, Espírito Invisível, o segundo álbum dos Mler Ife Dada, já foi gravado em ambiente de ponta e mola, com os egos de Anabela Duarte e Nuno Rebelo a colidirem violentamente e a lutarem pelo espaço criativo que – não se percebe bem como – parecia ser escasso numa banda tão aventureira como os Mler Ife. Lançado o álbum, Anabela zanga-se de vez e sai da banda, gravando pouco depois, ainda num registo mlerífico, o máxi-single Subtilmente (para sacar ali uns posts abaixo).
Mas Nuno Rebelo recusa-se a deitar a toalha ao chão e recruta uma menina saída do conservatório chamada Sofia Amendoeira. Integrada a menina, vai então de gravar este disco, um empreendimento que podia ter sido bem mais esforçado – é que se trata apenas dos quatro temas mais cantaroláveis de Espirito Invisível, precisamente com as mesmas pistas instrumentais, só que com a Sofia a cantar. A Sofia até canta bem, mas não alegra. A voz é mais grave, um pouco menos expressiva, tem assim os bracinhos caídos, não salta tanto quanto a Anabela, a roupa não é tão gira. Vistas bem as coisas, não dá. A banda finda-se, para tristeza de muitos (eu próprio chorei), e deixa como último registo este disco, o mais desnecessário dos Mler Ife Dada, o mais desnecessário dos Discos Com Sono, mas ainda assim interessante para a meia dúzia de tarados que se dedicam a documentar estas coisas.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Street Kids - So Far For So Long (Vadeca, 1983)



sacar

01. So Far For So Long (I)
02. So Far For So Long (II)

Eduardo Sobral – guitarra ritmo
Emanuel Ramalho – bateria, percussões, maracas, salpicos de piano
Luis Ventura – voz
Nuno Rebelo – baixo, guitarras diversas, pratos de choque, voz
+
Nuno Canavarro – strings, piano

Produção – Emanuel Ramalho e Nuno Rebelo

Desconheço as circunstâncias que reuniram nesta banda tantos músicos que mais tarde se tornariam conhecidos, mas a verdade é que os Street Kids foram uma espécie de jardim infantil da música portuguesa dos anos 80. Versões minúsculas do Nuno Rebelo antes de fundar os Mler Ife Dada, do Emanuel Ramalho antes de tocar nos Delfins e Rádio Macau, do Nuno Canavarro antes de fazer Música para 70 Serpentes, do Luis Ventura antes de cantar nos Lobo Meigo. Todos juntos a brincar ao boom do rock português.
Fundados em 1979, os Street Kids lançaram 3 singles, um MX-S – este So Far For So Long – e um LP, aproveitando a benevolência editorial que, naquele época, não se fazia rogada em lançar para o mercado qualquer banda que soubesse tocar mais ou menos e tivesse umas canções de encher o ouvido (o tema Propagando ainda gozou de relativo sucesso). Como se depreende, torço o nariz à maior parte dos discos dos Street Kids, um pop meio new wavezado, às vezes a dar para o punk-light, que não acrescenta muito ao que então se fazia.
Este disco, contudo, apanha a banda a tentar abrir caminho noutras direcções, numa altura em que o tal boom do rock português já tinha dado o que tinha a dar. Suponho que a culpa terá sido do Nuno Rebelo – compositor e co-produtor do disco – que deve ter começado a ouvir coisas mais ousadas e a tentar puxar a banda para outros territórios. O formato canção é aqui um mero suporte para divagações instrumentais onde cabe uma secção rítmica irrequieta e imaginativa, umas guitarras frippianas de vez em quando e uma boa dose de truques de estúdio que dão às duas versões do tema-título uma aura experimental q.b.. Nem todas as partes interessadas terão gostado da brincadeira, pelos vistos, porque a banda acabou pouco depois e cada um foi à sua vida. Para mim, ainda é o disco dos Street Kids que melhor resistiu a estes últimos 26 anos.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

V.A. – A Confederação (Diapasão, 1978)



sacar

01. Dedicatória
02. Sete Rios de Multidão
03. Destruição
04. Pão Pr’a Toda a Gente
05. Estado de Sítio
06. Ai Meu Trigo Lindo
07. Ai de Mim
08. Povo Fardado
09. Hino da Confederação
10. Hino da Confederação (Vocal)
11. Operários e Camponeses
12. Cinema Mudo
13. Soldados de Abril
14. Valsa Talvez
15. A Luta Continua
17. Unidade Popular

Autoria:
José Mário Branco (01, 02, 04, 06, 11, 13, 14, 16)
Jorge Cortês e José Mário Branco (08, 15)
Sérgio Godinho e Fausto (09, 10)
Rui Reis (12)

Vozes:
José Mário Branco (02, 04, 06, 11, 13, 16)
Rui Vaz (02, 04, 11, 13, 16)
Jorge Dias (05)
Margarida Carpinteiro (07)
Jorge Cortês (08, 15)
Luisa Alcobia (10)

Músicos:
Luis Pedro Faro
Carlos Guerreiro
Rui Vaz
Zé Pedro
Artur Moreira
José Luis Simões
Rui Reis
Guilherme Inês

O género da distopia futurista tem, infelizmente, muito poucos representantes no cinema português, mas dizem que este filme – A Confederação – é um deles. Dizem também que o marxismo inflamado dos autores lhe dá um tom pedagógico que dificilmente se aguenta até aos créditos finais. De qualquer forma, segundo dizem (já se percebeu que não vi), trata de um Portugal em que o 25 de Abril foi seguido de um contra-golpe da reacção, resultando num regime totalitário em que o povo (incluindo a Margarida Carpinteiro) tenta dar a volta à coisa. E o Artur Semedo parece fazer de mau, o que só pode ser bom.
Quanto à banda sonora, o Fausto e o Sérgio Godinho aparecem na capa do disco mas afinal compõem apenas uma canção, e nem sequer a cantam. É o José Mário Branco que, na prática, se encarrega de musicar o filme e, para isso, vai buscar alguns amigos do G.A.C. e compõe uma canção que aqui surge em várias versões e que, mais tarde, vai dar origem a “Eu Vi Este Povo a Lutar”, no álbum Ser Solidário (um dos momentos altos do concerto na Culturgest, já agora).
Já se sabe que um dos males das bandas sonoras é aquele tema que “acompanha” o filme, e que depois, quando compramos o disco, não temos pachorra para aturar 20 vezes seguidas com arranjos ligeiramente diferentes. Mas aqui não. É que a malha é tão boa que não nos importamos de a ouvir com tambores, sem tambores, com tambores e pífaros, com pífaros e tambores, ou simplesmente à capella. São seis óptimas versões de “Eu Vi o Meu Povo a Lutar” (nenhuma ainda com esse título e todas com letras e arranjos diferentes), mais uma valsa engraçada também do ZMB, mais duas versões da tal cançoneta do Fausto e do Sérgio Godinho, mais uma improvisação ao piano, mais a Margarida Carpinteiro a cantar muito desafinada. Que outra coisa se pode pedir de uma banda sonora?

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Anabela Duarte – Subtilmente (Ed. Autor, 1991)



sacar

01. Subtilmente
02. Asiaouasi
03. Ela, Ela

Anabela Duarte – voz, programações, sintetizadores
Rodrigo Amado – sax soprano (01.), sax alto (03.)
Luísa Gonçalves – piano (01., 03.)
Charlie Brown – baixo (01.)
Pedro Pita Groz – pratos (01.)
Ká-Mané – percussões (01.)

Produção – Anabela Duarte

Quando Anabela Duarte gravou este EP, no início dos anos 90, já a saga da canção pop aventureira e experimentalóide que marcou o final dos 80’s estava a dar os últimos suspiros. Mas Anabela ainda não tinha percebido, e insistiu mais algum tempo antes de se virar durante largos anos para o canto lírico, a declamação de poesia e outras áreas menos cantaroláveis. Este disco e o CD ao vivo “Delito” (gravado na mesma altura mas editado vários anos mais tarde pela Ananana) são os registos que ficaram desse breve período.
Apesar da contribuição de alguns músicos convidados, são os sintetizadores laurieandersanianos tocados pela própria Anabela que sobressaem na parte instrumental, e que ligam nestas três canções as influências muito díspares dos projectos por onde a cantora tinha passado até à altura: lá estão os Ocaso Épico, principalmente na toada pseudo-oriental de “Asiaouasi”, lá está o disco de fados que ela tinha gravado em 1988 no tema “Subtilmente”, lá estão os Mler Ife Dada, que Anabela tinha abandonado pouco tempo antes mas que se infiltram aqui quase de uma ponta à outra do disco. Aliás, dizem as más línguas que este disco é a Anabela a tentar fazer uns MlerIfe fora dos MlerIfe. Pela mesma altura, também Nuno Rebelo tentava adiar o inevitável: com a sua banda de pés para a cova, chamou Sofia Amendoeira para fazer as vezes de Anabela, mas não conseguiu mais que adiar alguns meses o anunciado enterro.
Mas esqueçam-se as birras de comadres e oiça-se este disco: apesar de uma produção mal amanhada e de algumas opções menos felizes (aquelas segundas vozes no Asiouasi, pelamordedeus), são três temas muito bem esgalhados que lembram uma outra maneira de fazer canções pop, mais livre e com mais tomates do que a maioria das propostas independentes que hoje nos servem. E pronto, embora o choradinho revivalista dos anos 80 não seja apanágio deste blog, às vezes não há como resistir.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Tina and The Top Ten – Everslick (Moneyland, 1993)



sacar

01. Everslick
02. The Meeting Parts
03. One Cold Cut

Dr. Top
Johnny “Scratch” Money
Plastic Mimi
Captain M.D.
Falcon D.
+
Rafael Toral – guitarra (01.), piano (02.)

Produção – Rafael Toral

Ainda hoje não é claro quanto dos Tina and The Top Ten era um genuíno exercício de fascínio e emulação da juventude sónica estado-unidense e quanto daquela banda era um comentário cultural irónico herdeiro dos delírios Homeostéticos e afins. É provável que o próprio fundador, o artista plástico João Paulo Feliciano, não saiba responder ao certo, mas afinal sempre foi esse esbatimento de fronteiras entre alta e baixa cultura que teve piada nesta gente. Parece que o Feliciano andava por alturas da fundação da banda a conspirar com os Ases da Paleta (Pedro Portugal, Manuel João Vieira e Fernando Brito, todos ex-homeostéticos) e o conceito de “very first all portuguese fake american rock and roll band” deve-lhe ter parecido uma tradução adequada para o rock do que o grupo fazia nas telas, para além de uma boa oportunidade para rasgar na guitarra e berrar ao microfone.
Este single surge quatro anos após a formação dos TTT, já depois de vários músicos terem entrado e saído, de ter surgido a Moneyland Record$ para editar a produção musical da banda e dos amigos, e de Feliciano ter começado a trabalhar com Rafael Toral, com quem formaria os No Noise Reduction e passararia um curto e atribulado período nos Pop dell’Arte. A música não se pode dizer que surpreenda – é aquilo que os Tina and The Top Ten sempre fizeram, com maior ou menos convicção, e desta vez o sucesso é garantido: parecem americanos, sim senhor. O lado A é bem puxadito, com os berros da Mimi (também Ena Pá 2000, também artista plástica – isto está tudo ligado) a acompanharem os do Feliciano e toda a banda a encarnar na perfeição os corpos astrais dos Sonic Youth. Virando o disco, parecem um pouco menos americanos e um pouco mais ingleses, uma espécie de T. Rex com as guitarras mal afinadas. A coisa termina a abrir com meio minuto de “One Cold Cut”.
Com a aproximação do novo milénio terminaria também assim, um bocado sem jeito, a “cena sónica” iniciada pelos TTT e que teve o seu epicentro nas Caldas da Raínha – um capítulo curioso, ainda que algo inconsequente, da história da música portuguesa nesses malfadados anos 90.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Júlio Pereira – Lisboémia (EMI, 1978)



sacar

01. Cabo-Ruivo
02. Alvalade
03. Pr. Chile / Intendente
04. Alfama
05. Rossio
06. Cais do Sodré
07. Bairro Alto
08. Av.da Liberdade
09. Saldanha / Entre-Campos
10. Sete Rios / Belém
11. Lisboémia

Vozes:
narrador – Júlio Pereira
personagens – José Mário Branco, António Portannett, Eugénia Melo e Castro, Mário Viegas, Jaime Queimado, Duarte Mendes, Shila, Ricardo Pais, Lia Gama, Eugénia Bettencourt, José Manuel Osório
coros – G.A.C., Rui Oliveira Vaz, Shila, Jaime Machado, Eugénia Melo e Castro

Músicos:
Júlio Pereira – violas (acústica, espanhola, 6 e 12 cordas) bouzouki, reco-reco, voz, banjo, moog, porta-moedas, pandeireta, guizos, piano, harpa de lata, castanhola
Paulo Godinho – baixo
Jaime Queimado – bombo, caixinha de madeira
João Seixas – maracas, bombo, congas, bongós, pandeireta, adufe
Guilherme Scarpa Inês – madeiras, bombo, tarola, pandeireta, bateria, ferrinhos
Isabel Costenla – castanholas
António Lages – tuba
Isidro Mestre – clarinete
Laureano Martins – flautim
José Luis Simões – trombone
Mário de Jesus – trompete
Hélder Reis – acordeão
Rui Reis – piano eléctrico, moog, piano
Pedro Caldeira Cabral – guitarra
Raul Mendes – harmónica
José Machado – violino
José de Carvalho – vibra-slap
Rui Cardoso – flauta, saxofone
Fernando Júdice – contrabaixo
Fernando Calazans, António Anjos, Manuel Gomes, Ilídio Gomes, Floriana Oliveira, Leonor Moreira, Kevin Vauham, Rogério Gomes – violinos
Teresa Portugal, João Murcho – violoncelos

direcção de produção – Júlio Pereira
capa e ilustrações – Carlos Zíngaro

Parece que o Júlio Pereira já não se revê nos primeiros discos que gravou em nome próprio, este e o “Fernandinho Vai ao Vinho”, e por isso não deixou a boa gente do Do Tempo do Vinil reeditá-los em CD. Enfim, não será por isso que não o vamos ouvir. “Lisboémia” é uma espécie de roteiro da indigência reinante na capital durante os anos 70, uma cidade onde aparentemente não se fazia grande coisa para além de beber nas tascas, ir ao Parque Mayer e às putas, consumir droga e andar à porrada de vez em quando. É o que se chama os bons velhos tempos. Ou nem tanto, porque parece que toda aquela gente não tinha um chavo e a ressaca de revolução não lhes estava a fazer bem à cabeça nem à vidinha. Uma bad trip lixada, e a tal boémia surge então como antídoto para os amanhãs que cantam idos pelo cano abaixo. Será que percebi a ideia, Júlio? Diz qualquer coisa.
Há neste disco uma multidão de gente: actores para dar voz aos personagens castiços, músicos em barda, o G.A.C. a fazer coros, o Zíngaro a fazer a capa e as magníficas ilustrações no interior (saudades das ilustrações do Zíngaro). Há fadunchos, marchas, ecos da música tradicional, a guitarra do Pedro Caldeira Cabral, tudo a servir retratos da borga em vários bairros lisboetas. E há o próprio Júlio Pereira a cantar, coisa que nunca mais fez desde então – até há quem diga que o disco não é reeditado porque ele não gosta de se ouvir. Ou é isso ou são aquelas imitações de ciganos, gays e pretos, que hoje soariam muito politicamente incorrectas.
Já agora, os canais esquerdo e direito pareciam-me desequilibrados e estive a mexer naquilo. Desconfio que fiz disparate, porque agora soa-me esquisito. Digam da vossa justiça – se estiver muito mal faço um ripanço novo. Ah, e obrigado ao amigo Rui pelo empréstimo do Lisboémia e de mais alguns que aqui apareceram.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

V.A. – O Barco e o Sonho | Balada do Atlântico | Xailes Negros (Polygram, 1989)



sacar parte 1
sacar parte 2

01. O Bailado da Garça (José Medeiros)
02. Espelho d'Água (José Medeiros)
03. Nos Teus Olhos... um Fado (Luis Bettencourt/Rimanço)
04. Canção de Pedro F. (Paulo Andrade)
05. Os Piratas (Álamo Oliveira & Luis Bettencourt/Empty Space)
06. Chamateia (António Melo Sousa & Luis Bettencourt/Rimanço)
07. Barqueiro Velho (João Miguel)
08. Ilhas de Bruma (Manuel Medeiros Ferreira)
09. Leviatã (Luis Bettencourt/Empty Space)
10. Dores(Luis Bettencourt/Rimanço)
11. Estrela Cadente (José Medeiros)
12. Tango à la Minuta (José Medeiros)
13. Comércio de Angra (Álamo Oliveira & Anibal Raposo)
14. Cantiga da Terra (José Medeiros)
15. Gilda do Baixio (José Medeiros & Fernando Reis Júnior)
16. Maré e Natividade (Anibal Raposo)
17. Lamento (Fernando Reis Júnior & João Miguel)
18. Canção do Medo (José Medeiros)
19. O Aventureiro (Paulo Andrade)
20. Devagar (Luis Bettencourt/Rimanço)
21. Atalhos do Mar (José Medeiros)
22. Torre de Babel (José Medeiros)
23. Amores Imperfeitos (José Medeiros & Fernando Reis Júnior)
24. América (Álamo Oliveira & Paulo Andrade)
25. Meu Bem (tradicional)


Susana Coelho – voz
Piedade Rego Costa – voz
José Ferreira – voz
Carlos Medeiros – voz
Luisa Alves – voz
Vera Quintanilha – voz
Paulo Martinho – voz
Minela - voz
Aníbal Raposo – voz, viola acústica
Luis Bettencourt (Empty Space) – viola da terra, baixo, percussão, teclas, voz, viola 12 cordas, guitarra eléctrica, viola acústica
Lurdes Santos – violoncelo
Álvaro Melo – acordeão, voz, sintetizador, viola acústica
José Medeiros – piano, sintetizador, voz, percussão, viola acústica
Emanuel Ramalho – bateria
João Nuno Represas – percussão
Sérgio Mestre – flauta, percussão, sax alto
Gil Alves – flauta
Paulo Andrade – percussão, cavaquinho, viola acústica, voz
Henrique Ben-David – percussão
João Miguel – viola acústica, percussão
Luis Bettencourt (Rimanço) – viola acústica, voz
Francisco Ribeiro – violoncelo
Moniz Correia – guitarra portuguesa
Hermenegildo Galante – clarinete
Vitor Rodrigues – violino
Rabanal – bateria
Ricardo Dias – sintetizador

técnicos de som: José Fortes, Rui Novais, Jorge Barata, Luis Flor e F. Abrantes
(gravado no Angel Studio em Julho/Setembro de 1986, Abril de 1987 e Setembro de 1988)

Nos tempos em que se era obrigado a ver a RTP se se queria ver televisão, Zeca Medeiros submeteu a população portuguesa a várias séries e telefilmes transmitidos em horário nobre que, hoje em dia, não lembrariam ao diabo. Muita gente passou horas a olhar para planos com mais de 30 segundos, a ouvir falar num sotaque estranho e quase incompreensível, a olhar para paisagens lindíssimas dum sítio longínquo que se dizia ser Portugal, a acompanhar séries cujos últimos episódios não consistiam numa sequência interminável de casamentos.
Naqueles tempos pré-televisão-em-movimento, o Zeca Medeiros tratava os filmes que fazia nas palminhas, como se fossem a coisa mais importante do mundo, e essa dedicação transbordou para as suas bandas sonoras. Claro que ele já andava pelas coisas da música há algum tempo, tinha integrado os Construção e os Rosa dos Ventos, que editaram álbuns no início dos anos 80, e depois seguiu pela carreira a solo que melhor lhe conhecemos.
Sabendo recitar de trás para a frente os nomes de todos os compositores e intérpretes açoreanos, deve-lhe ter sido fácil convidar os melhores para estas três bandas sonoras, aqui reunidas e editadas num duplo LP, e ainda ir buscar mais uns quantos ao continente. Fica a ideia que nesta altura também devia haver dinheiro para excentricidades… O próprio Zeca e Luis Bettencourt dividem entre si a composição do maior número de temas.
O resultado é uma mescla de estilos que umas vezes ronda a música tradicional açoreana, outras o fado, outras a balada e outras ainda a canção perigosamente “ligeira”, em especial nos temas dos genéricos, com a voz jazzy da menina a provocar alguns ergueres de sobrolho. Mas a gente perdoa umas letras mais lamechas aqui e ali, uns arranjos mais foleiros de vez em quando, tal como perdoávamos os filtros violeta no céu dos Açores em Xailes Negros, porque sabemos que, no caso do Zeca Medeiros, aquilo vem mesmo tudo lá do fundo do peito.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Pedro Ayres Magalhães – O Ocidente Infernal / Adeus Torre de Belém (EMI-Valentim de Carvalho, 1985)



sacar

01. O Ocidente Infernal
02. Adeus Torre de Belém

Todos os instrumentos, arranjos e produção: Pedro Ayres Magalhães

Ainda há pouco tempo comentava no blog do Almirante Ramos que me falta a pachorra para o Pedro Ayres Magalhães (grande referência do Almirante e de todo o gang Amor Fúria), e que a melhor coisa que o badocha fez foi o disco do Corpo Diplomático. Agora fui ouvir este objecto, o maxi-single instrumental que ele gravou nos idos de oitenta e tal, e tenho de dar o braço a torcer. Nunca o Pedro Ayres meteu tanta distorção numa guitarra como naquele primeiro tema, O Ocidente Infernal, a menos que o tenha feito neste disco de Madredeus & a Banda Gósmica, o que me parece improvável (mas pronto, ainda não ouvi).
Sim, O Ocidente Infernal é um belo tema, e não tem grande paralelo no resto da obra do homem, que parece aqui querer tocar o que não queria ou não podia nas suas outras bandas. A referência mais óbvia será talvez o compincha Vinny Reily, que gravara pouco tempo atrás para a Fundação Atlântica do próprio Pedro Ayres e que o deve ter inspirado a gravar camadas sobre camadas de guitarras ao som de uma caixa de ritmos. No segundo lado (Adeus Torre de Belém) os pedais distorcentes já não se encontram, mas há gravações urbano-etnográficas de máquinas no Barreiro, local onde Pedro Ayres foi captar som prudentemente disfarçado de operário, sendo certa e sabida o afeição que a esquerdalha barreirense devotava aos Heróis do Mar.
É este disco, julgo eu, o canto do cisne da Fundação Atlântica, aqui já sem margem de manobra para editar o que quer que fosse, limitando-se a contra-capa a esclarecer que se trata de “uma produção da Fundação Atlântica para a EMI-Valentim de Carvalho”. De realçar, ainda na contracapa, a inclusão de uma foto de Pedro Ayres a fumar, na desaparecida tradição das contracapas com fotos de músicos a fumar, em que a mais célebre será provavelmente a de Blackground, do Duo Ouro Negro.