terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Carlos Maria Trindade – Princesa / Em Campo Aberto (Vimúsica, 1982)



sacar

01. Princesa
02. Em Campo Aberto

Produção – Manuel Cardoso e Carlos Maria Trindade

Peço desculpa pela falta de informação adicional, mas este disco de Carlos Maria Trindade, a primeira aventura a solo de um Herói do Mar, é um poço de mistérios. Nem uma ficha técnica na contracapa, nem uma folhinha no interior. Nada. Cuscando pela net, percebe-se alguma coisa: Carlos Maria Trindade fez este single e ainda um élepê, que se ia chamar Tédio e ser editado por esta editora, a Vimúsica. Diz o precioso site Anos80 que a editora representava a Factory em Portugal, que a Factory lhe causou diversos “problemas” e que o chefe da Vimúsica acabou por se escapulir para o Canadá, pondo fim ao negócio discográfico. Em consequência, diz o site, o élepê do pobre Carlos Maria foi DESTRUÍDO!, o que me parece um pouco dramático: talvez tenha ficado só por editar, ou num armazém sem ser distribuído. O pobre Carlos Maria, contudo, conseguiu antes disso editar este single em que, depreende-se, toca coisas electrónicas e canta (!!!). Digo depreende-se porque não há informação do disco ter contado com mais colaborações.
Quanto à música, é uma lança certeira nas modas neo-românticas e cold-electro-nãoseiquemais que vingavam em Inglaterra e fascinavam a juventude portuguesa da altura, chegando a lembrar uns Human League dos primórdios, mas menos amaricados. Há menos afectação camp e mais inspiração bucólico-épica devedora aos primeiros trabalhos dos Heróis do Mar. “Em Campo Aberto” assinala ainda o surgimento das electrónicas planantes na obra do pobre Carlos Maria, que bem mais tarde desceria com elas ao inferno da música new-age, para mal da saúde auditiva de todos nós. Mas não me vou alongar nas críticas nem xingar o disco, porque é um disco decente. Saquem, que é giro.

domingo, 26 de outubro de 2008

RIP ZShare

Parece que o ZShare não anda a funcionar como deve ser, por isso mudei todos os links para o MediaFire. Qualquer problema, usem os comentários como caixa de reclamações.

Alexandre Soares – Um Projecto Global (Polygram, 1988)



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01. Luzes de Hotel
02. Hibernar
03. (Que) Ricos Dias
04. Fora de Casa
05. Respirar
06. Chambo
07. Uma Coisa
08. Meus Amigos
09. Vozes
10. Recordo-me?

Alexandre Soares – todos os instrumentos
+
Quico – programação da percussão (02., 03., 04., 07.), teclas (03., 08.)

Produção – Alexandre Soares

Quando, em 1986, Alexandre Soares saiu dos GNR, aqueles que o consideravam a centelha de génio por detrás da banda dedicaram-se à mais desavergonhada profecia: os GNR cairiam de imediato na mediocridade e Alexandre Soares daria início a uma fulgurante carreira a solo, pondo em prática a sua brilhante inventividade e produzindo obras, como se costuma dizer, “à frente do seu tempo”. Nem uma nem outra resultaram propriamente certas. Por um lado, Videomaria, o primeiro disco da banda sem Alexandre Soares, honrava o que os GNR tinham sido até então, com três canções, no mínimo, bastante decentes. Por outro, o LP de Soares “Um Projecto Global” não deixou a marca fulgurante que se esperava na pop nacional.
Não é que seja um mau disco, nem que o domínio das várias formas de tocar guitarra e de manipular o estúdio deixem de impressionar, mas o que sobra em virtuosismo e tecnologia falta em instinto cançonetista. Aquilo que este disco não tem são, realmente, as grandes canções. Aparte este ligeiro contratempo, temos de dar o braço a torcer ao apuro técnico de dez músicas gravadas em casa, em que Soares toca praticamente todos os instrumentos, compõe as músicas e quase todas as letras (Luzes de Hotel é de Pedro Aires Magalhães) e canta com aquela voz que, não sendo brilhante, é a única que tem. Um Projecto Global deixa-nos a ideia que Alexandre Soares podia ser uma das forças criativas por detrás dos GNR, mas que falta qualquer coisa para ser um músico pop auto-suficiente – lição que Soares parece ter levado à letra, dedicando-se desde então a produzir música para teatro e cinema, e não mais se aventurando nas cantigas. Talvez esteja na altura de fazer mais uma tentativa.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Osso Exótico - II (Carbo, 1991)



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01. The Mistery of Hours
02.
03.
04.
05. Season
06. World, Oblivion
07. The Mistery of Hours
08. Depósito de
09. Depósito de
10. Depósito de
11. Depósito de
12. Word, Hour
13. Season
14. Humus Hail
15.

David Maranha – voz, violino, guitarra acústica, marimba africana, bateria, rototons, marimba israelita, violoncelo, bolas chinesas, pandeireta, água, acordeão, ukelele, harmónica, madeira, bombo, kalimba, maraca
Patrícia Machás – voz, bandolim, pandeireta, acordeão, marimba israelita
Bernardo Devlin – voz, flauta chinesa, harmónica de vidro, marimba israelita
André Maranha – garrafas afinadas (sopradas), guitarra de 12 cordas (tocada com arco), voz, acordeão, violino
Oliver Vogt – clarinete baixo, saxofones tenor e alto, marimba israelita, voz, acordeão
+
Sei Miguel – trompete de bolso (03.)
Fala Mariam – trombone (03.)
Xana Couceiro – voz (05.)
Alfredo – (15.)

Gravação e mistura – David Maranha

O xinfrim de percussão que abre este segundo LP dos Osso Exótico parece indicar que “II” seguiria os passos do seu antecessor, um disco que vagueava pelos territórios do pop industrial (se é que alguma vez houve disso em Portugal) carregado de experimentalismo e de uma boa dose de electricidade. Mas é sol de pouca dura, porque poucos segundos depois ficamos a saber que os meninos dos Osso Exótico estão a ficar crescidos: neste disco, recorrem exclusivamente a instrumentos acústicos, a uma maior economia de meios em cada tema, explorando com cuidado certos timbres e texturas e criando um ambiente geral mais discreto e intimista.
Bernardo Devlin continua a cantar, ora lembrando uma Linda Blair endemoninhada, ora assemelhando-se a um João Peste com qualquer coisa atravessada na garganta (de notar que nenhuma destas comparações é necessariamente negativa), tornando-se no principal elo de ligação com o disco anterior e no principal ponto de ruptura com a obra posterior da banda (Devlin deixaria os Osso Exótico após o terceiro disco). Este é também o disco que assinala a entrada de Patrícia Machás nos Osso Exótico, onde permanece até hoje juntamente com os irmãos Maranha.
“II” acaba por ser essencialmente um disco de transição, em que começamos a vislumbrar os caminhos que os Osso Exótico seguiriam no futuro, e a perceber que seria necessária muito atenção e paciência para apreciar a sua obra posterior, atenção e paciência que (dizem) acaba por ser largamente recompensada. É também, julgo eu, o disco com tiragem mais limitada, numa edição numerada de 350 exemplares. Daqui em diante, a edição em CD e a maior facilidade de distribuição no estrangeiro fez com que os Osso Exótico fossem das primeiras bandas portuguesas a ser reconhecida internacionalmente – uma espécie de Madredeus do drone lusitano, por assim dizer.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

K4 Quadrado Azul - K4 Quadrado Azul (Ed. Autor, 1990)



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1. Paramessalina
2. Quinhentista
3. Falência do Amor
4. Babilónia

Fernando Faustino - voz e coros
João Miguel - guitarra, voz em 2., coros e sampler
Pedro Eloy - piano, sintetizador, coros e sampler
Luís Ferreira - guitarra eléctrica, guitarra de 11 cordas e coros
Hernãni Costeira - baixo eléctrico e coros
Rui Dâmaso - bateria e percussões electrónicas

Capa - João Garcia Miguel
Som - Zé Carrapa
Mistura - Cajó e Carrapa
Produção - K4 / Can I Eat Your Cheese

Houve ali um período de dois ou três anos, a partir de ‘89 ou ‘90, em que os K4 Quadrado Azul foram a melhor banda de rock portuguesa e muito provavelmente do mundo inteiro. Aqueles concertos com as guitarras a derreterem-se todas em distorção e riffs ácidos do melhor que há, as vozes a sobreporem-se à vez, berradas de impulso, o volume quase a rebentar os tímpanos e o ar vagamente paranóico e seguramente janado do vocalista Faustino, criavam uma sensação entre a tontura e o arrebatamento, bem sugerida num dos toscos mas deliciosos telediscos que a equipa do Pop-Off criou para a banda: um dos elementos dos K4 a debater-se numa espiral que o parecia arrastar aos poucos para os recantos mais obscuros dos seus próprios neurónios fritos.
Os K4 formaram-se a partir dos restos dos Aix La Chapelle em 1986, salvo erro, e passaram os primeiros anos a tocar mais de mansinho, sem rasgar muito nas guitarras e baseando-se mais em vozes e coros, debitando toneladas de referências literárias por verso. Foi assim que ganharam o concurso Novos Valores da Cultura em 1988, um dinheirinho que lhes deu para pagar metade da gravação e edição deste disco.
Dois anos mais tarde, lá surgiu ele, em edição de autor, só com quatro músicas, e já depois da banda ter começado a rockar como deve ser. Mas a verdade é que o disco, para além de ser curto, parece que foi gravado de manhãzinha antes da banda tomar café, e dá uma parca ideia do que eram os K4 ao vivo. Embora dê vontade de tocar em 45 rotações, para ver se a coisa fica mais parecida, não há como tirar o mérito ao grande tema que é “Falência do Amor”, a faixa onde os K4 conseguem concretizar melhor a sua pujança mastodôntica. “Quinhentista” também tem piada, mas é mais típica da fase anterior da banda, com as vozes em primeiro plano, e não comunga propriamente do espírito do roquenrol.
Pela mesma altura editam ainda um par de temas na colectânea Feedback, grandes temas que eram, Jardineiro e Tudo É Meu, mas a qualidade do som era muito bera e, na realidade, tratava-se apenas de uma demo passada para o vinil.
E finaram-se ingloriamente uns dois anos depois, ou coisa que o valha, nunca chegando a concretizar a prometida gravação de um LP e passando assim ao lado de um dos grandes discos da música a abrir feitos por estas bandas. É assim a vida.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Rui Júnior – O Ó Que Som Tem? (Diapasão, 1983)



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1. Recolhimento
2. Transição / Samba / Assim Sim
3. Incerteza
4. Capoeiro (A Minha Angústia)
5. Mobby Dick (Dominique)
6. Intro / Malhoa
7. Marimbando (A manada que passa à minha porta, e o meu adufe)
8. Frase Feliz
9. Eira
10. Carolina Vem À Varanda

Rui Júnior
Rui Vaz
José Martins
José Salgueiro
Fernando Molina
João Nuno
+
Janita Salomé, Tó Sequeira, Carlos Loureiro, Tânia, Dá, Mina

(demasiados instrumentos para especificar quem toca o quê…)

Produtor delegado – Rui Júnior
Captação de som e misturas – José Fortes

O primeiro disco do grupo de percussão liderado por Rui Júnior transporta-nos para um tempo que quase nos custa a acreditar. Um tempo em que uma editora relativamente grande arriscava um disco sem canções, quase só com instrumentos de percussão, sem temas que pudessem dar singles nem sequer ser cantarolados, e onde a banda não contava com gajas boas – eram só gajos, aliás, uns barrigudos, outros de bigode, e nenhum com sex-appeal suficiente para o teledisco (embora oiça dizer que há por aí umas fãs do José Salgueiro…). Haveria nessa altura um mercado para a música experimental de percussão com raízes tradicionais, ou a Diapasão fez o disparate de editar um disco só porque era bom?...
Enfim, choraminguices à parte, O Ó Que Som Tem? não é, hoje em dia, um disco de audição fácil, desafiando o comum preconceito de que a percussão não é para ser ouvida com ouvidos de ouvir mas antes para elicitar estados de euforia e abanar a carola. De facto, as reviravoltas que Rui Júnior dá a temas tradicionais portugueses (com umas brasileirices pelo meio) poucas vezes nos levam ao headbanging. O que pedem é atenção à forma como as marimbas se cruzam com os adufes em “Marimbando”, disponibilidade para apreciar os arranjos intrincados de “Intro / Malhoa” e mesmo alguma pachorra para os vários minutos de solo de berimbau em “Capoeiro”. Para não dizer que é um disco muito cerebral, “Carolina Vem À Varanda” ainda dá para saltitar.
Após o primeiro álbum, os elementos do grupo dispersam-se por inúmeros projectos e O Ó Que Som Tem? fica 12 anos sem gravar. Rui Vaz fundaria mais tarde os Gaiteiros de Lisboa, José Salgueiro continuaria a sua carreira de superestrela percutiva (Trovante, Sérgio Godinho, Zeca Afonso, José Mário Branco, Gaiteiros de Lisboa, Quarteto João Paulo, Tim Tim Por Tim Tum,…), e Fernando Molina acompanharia Rui Júnior – até hoje – em vários grupos. O excelente “Ó Tambor” só surgiria em 1996, seguido dois anos depois pelo menos feliz “O Mundo Não Quer Acabar”. Rui Júnior, entretanto, arranca com o “Tocá Rufar” e põe a miudagem de meio Portugal a fazer precisamente isso – parece que já são mais de oito mil. Não fosse ele um bocado comuna e o Cavaco já lhe tinha dado uma medalha…

domingo, 25 de maio de 2008

Ban - Santa (EMI - Valentim de Carvalho, 1986)



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1. Santa
2. Portugal
3. Ultramar

Paulo Artur Faro – bateria, percussões
João Ferraz – guitarras
Zézé Maria – guitarras
Francisco Monteiro – baixo
João Loureiro – vozes
+
Tomás Pimentel – trompetes (1.)
Nuno Rebelo – guitarra subtil (1.), estalos, palmas, gritos (2.)
Ricardo Camacho – sintetizadores (1.)
Amândio Bastos – estalos e palmas (2.)
Paula Sousa – piano (1. e. 2.), sintetizadores (3.), voz (1. e 3.)

Capa – António Olaio
Produção – Ricardo Camacho

Embora o sucesso só surgisse dois anos mais tarde com o LP "Surrealizar", “Santa” é já o terceiro disco dos Ban. Depois de lançar o primeiro single em 1983 sob a promissora designação “Os Bananas”, a banda de João Loureiro encurtou incompreensivelmente o seu nome e editou o MX-S “Alma Dorida” em 1984 e, dois anos mais tarde, este “Santa”. “Alma Dorida” era todo gabardines, shoegazing e reflexões sofridas sobre “a polis cinzenta de chuva fria”, mas “Santa” encontra a banda já um pouco mais animada, assumidamente pop, quase a convidar a um pezinho de dança. Até trompetes tem, meu Deus. O interesse vai todo para a parte instrumental e para o cuidado nos arranjos e nas contribuições dos músicos convidados – Nuno Rebelo, Tomás Pimentel, Ricardo Camacho, Paula Sousa – que acabam por transformar alguns temas aparentemente banais em coisas dignas de serem ouvidas. O papel do jovem Loureiro acaba por ser pequeno – um máximo de quatro versos mal cantados em cada música e umas letras bacocas – e deixa bem claro que a sua vocação era o seguir os passos do papá e não propriamente ser cantor. É no entanto de notar que nesta altura o rapaz tinha um ar mais apresentável e não ostentava barriga e papada, o que prova que a música é menos patogénica do que o dirigismo desportivo. Resumindo, “Santa” não é uma obra imprescindível, mas tem piada como exemplo da transição da fase mid-80’s, dominada pelo cinzentismo de inspiração britânica, para a criatividade transbordante late-80’s, da chamada música moderna portuguesa. Tivessem os Ban arriscado mais e talvez não fossem hoje só recordados quando se quer gozar com o Boavista.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

V.A. – Vidya (Potlatch, 1991)



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19 temas sem título:

01. Vitor Rua
02. Vitor Rua
03. Telectu + Elliot Sharp
04. Saheb Sarbib
05. Telectu
06. Telectu + Carlos Zíngaro
07. Vitor Rua + Nuno Rebelo
08. Miguel Azguime
09. Vitor Rua + Paulo Eno
10. Vitor Rua + Miguel Megre + Rui Azul + Nuno Rebelo
11. Vitor Rua + João Peste
12. Vitor Rua + Sei Miguel + Luis Desirat + Rodrigo Amado + Fala Mariam +
Osso Exótico + Nuno Rebelo
13. Vitor Rua + Nuno Rebelo + Rafael Toral + Bruno Rascão + João Paulo Feliciano
14. Vitor Rua + TóZé Ferreira
15. Vitor Rua + Nuno Rebelo
16. Luis Desirat
17. Vitor Rua + Duplex Longa
18. D. W. Art
19. Vitor Rua

Telectu = Vitor Rua + Jorge Lima Barreto
Osso Exótico = David Maranha + Bernardo Devlin
Duplex Longa = Carlos Raimundo + Mário Jorge Resende
D. W. Art = António Duarte + Mané

Produção e Direcção Musical – Vitor Rua

Salvo erro, só pus os olhos neste disco na altura em que ele saiu e em que o comprei. Numa década e meia de peregrinação pelas lojas de segunda mão, nunca mais o vi nem de longe. A obscuridade acentua-se se tivermos em conta que foi o único lançamento da editora Potlatch (que, acho eu, era propriedade do Miguel Santos, agora em Londres ao serviço da Gulbenkian) e que ainda ninguém se parece ter dado ao trabalho de o digitalizar e partilhar criminalmente. Vidya foi um projecto de Vitor Rua que, ao longo de uns meses, foi gravando contribuições de músicos amigos e conhecidos, acrescentando as suas próprias e misturando tudo num caldo final em que os temas se sucedem sem títulos nem pausas entre as faixas. Em termos musicais, o resultado é bastante desigual, mas o principal interesse de Vidya talvez seja o facto de funcionar quase como um catálogo dos principais nomes do underground musical do início dos anos 90. Era uma época algo descaracterizada, em que a vaga da “música moderna portuguesa” estava a dar os últimos estertores e a pujança experimental passava, pouco a pouco, do domínio da pop para o da improvisação, electrónicas e quejandos. Mesmo João Peste, que contribui uns lamentos espectrais para uma das melhores faixas do disco (11.), abdica aqui do formato canção. Entre os outros temas que valem a pena, há Carlos Zingaro com Vitor Rua (6.), Vitor Rua com Osso Exótico, Sei Miguel e mais uns tantos (12.), Nuno Rebelo com Vitor Rua (15) e Miguel Megre, Nuno Rebelo, Rui Azul e – surpreendentemente – Vitor Rua (10.) numa versão chanfrada de Strangers in the Night.

domingo, 6 de abril de 2008

Anamar – Baile Final / Lágrimas (Fundação Atlântica, 1983)



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1. Baile Final
2. Lágrimas

Direcção Musical e Produção – Pedro Aires Magalhães

Para rematar esta primeira remessa de discos com sono, fica o 7’’ que Anamar editou em 1983 pela Fundação Atlântica, disco, aliás, que é destes três o que menos sono tem, porque já circula há algum tempo nas redes digitais de partilha criminosa de música. A história deste single é algo obscura: trata-se de duas canções retiradas daquele que teria sido o primeiro álbum de Anamar, “Cartas de Portugal”, um LP que nunca chegou a sair e que, segundo a própria Anamar, ficou “uma merda”. Não se sabe ao certo se nunca viu a luz do dia pelo seu elevado índice de merdice ou por qualquer outra razão, mas estas duas amostras dão-nos talvez uma ideia do que poderia ter sido esse “Cartas de Portugal”. É, no fundo, um produto típico da Fundação Atlântica, com Miguel Esteves Cardoso, Pedro Ayres Magalhães e Ricardo Camacho a tentarem criar, como era seu hábito, um ambiente que, por um lado, evocasse uma certa portugalidade e, por outro, não deixasse de apelar a referências musicais anglo-saxónicas (principalmente ao nível da produção). A voz de Anamar não dista muito daquela que podemos ouvir no MX-S editado quatro anos mais tarde pela Ama Romanta, escorrendo pelas canções naquela toada melíflua e desajeitada que, enfim, não deixa de ter o seu charme. Numa apreciação geral, são duas canções que se ouvem bem, mas suspeito que a pachorra não aguentasse um álbum inteiro disto. Fizeste bem, Anamar, em deixá-lo na gaveta.

Janita Salomé – Olho de Fogo (Transmedia/Schiu!, 1987)



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1. Os Amantes
2. Estrela Cadente
3. Poema
4. Azul Branco
5. Senhora do Almortão
6. Ao Passar Junto da Vide
7. O Zéfiro e a Chuva
8. Saias do Freixo em Gibraltar
9. Quando a Luz Fechou os Olhos
10. Cantata

João Lucas – piano, sintetizadores
José Peixoto – baixo, guitarra, percussão, sintetizadores
Irene Lima – violoncelo
Carlos Zíngaro – violino
José Mário Branco – percussão, sintetizadores
Janita Salomé – voz, taarija, adufe, bendir, darbuka
Vitorino - voz
Fernando Flores – contrabaixo
António Serafim – oboé
Tomás Pimentel – trompete, flugelhorn
José Carapeto – trompete
José Oliveira – trombone
José Martins – percussão, sintetizador
Paulo Curado – saxofone, flauta
Mónica Lapa – sapateado
Júlio Pereira – viola braguesa
Fernando Júdice – baixo
Acácio Pestana – trompa
A. Costa – trompa

De entre as pilhas de vinil português nunca reeditado, Olho de Fogo é com certeza um dos mais injustamente esquecidos, ao ponto de dar vontade de procurar os responsáveis por tamanha inépcia e pregar-lhes um par de estalos na cara. Em conjunto com A Cantar ao Sol e Lavrar em Teu Peito, é um dos discos em que Janita melhor explora o cruzamento entre a música alentejana e a do Norte de África, tornando-o numa espécie de tratado sonoro sobre a influência berbere no Alentejo. E, se bem que a tese esteja longe de ser consensual (ver, por exemplo, aqui)
, Janita é bastante eloquente a enunciá-la. Há que ouvir a versão fantasmagórica da Senhora do Almortão, com arranjos de Constança Capdeville, as Saias do Freixo em Gibraltar acompanhadas pelo sapateado de Mónica Lapa, o piano de João Lucas que acompanha Os Amantes, ou a combinação de sintetizadores e percussão berbere em Ao Passar Junto da Vide, para perceber que Janita Salomé estava aqui nos píncaros da criatividade, sem medo de misturar e explorar o que lhe desse na gana, sabendo que a música de raiz tradicional pode continuar a ter as raízes na tradição sem que os ramos se deixem de multiplicar em imprevistas direcções. No fundo, e independentemente das pretensões didácticas que Janita pudesse ter nestes discos do Alentejo árabe, o que fica não é o veredicto etnomusicológico sobre as origens da música alentejana, mas o prazer de ouvir um dos melhores discos feitos em Portugal.

Sei Miguel – Breaker (Ama Romanta, 1988)



sacar

1. Breaker
2. Thirsty?
3. The Mirror
4. Key Blues About Buildings
5. Non-Entity
6. I Never Talk to You
7. Blue Rose
8. Gate

Luis Desirat – bateria
José Ribeiro – baixo eléctrico
Bruno Rascão – guitarra eléctrica
Manuel Veiga – yamaha dx-21
Rodrigo Amado – saxofone alto
Fala Mariam – trombone de varas
Sei Miguel – trompete de bolso

Tal como os restantes discos de Sei Miguel, Breaker foi gravado ao vivo, neste caso no Teatro do Século, Ritz Club e Hot Club em finais de 1987 e inícios de 1988. À falta de registos dos Moeda Noise, a banda com que Sei Miguel começou a fazer música esquisita em Portugal, é por este disco que podemos começar a ouvir o seu percurso. Para mim, que nunca percebi o Sei Miguel, é difícil dizer algo inteligente acerca de Breaker – já seria difícil mesmo se o percebesse. O que salta à vista é que se trata de um disco menos austero que os actuais, com mais chinfrim e muito menos silêncio. A música parece mais amigável – deve ser a bateria do Luis Desirat que marca um ritmo constante (!) em vários temas – enquanto que os trabalhos da última década, pelo menos, exigem que escutemos a música com bastante atenção – o que, com tanta coisa gira a dar na televisão, é quase impraticável. Há também um Manuel Veiga que não sei quem é mas cujo sintetizador cai bem – uns tremolos quase constantes ao longo dos vários temas, a dar-lhes um ar meio fantasmagórico – uma sempre presente Fala Mariam e um Rodrigo Amado naquele que, salvo erro, foi o seu único registo com Sei Miguel. Comparando com os discos pós-Portuguese Man of War, em Breaker tudo parece correr mais solto, mais despreocupado, ainda sem aquela atenção ao pormenor e à precisão que caracterizam as obras posteriores. É um bocado como comparar o sóbrio Sei Miguel da actualidade com o Sei Miguel que salta e dança no videoclip do Querelle, dando o desconto do óbvio exagero.

Uma Nota Sobre o Ruído

A tarefa de digitalizar vinil confronta-nos quase sempre com um dilema: filtrar o ruído e abafar inevitavelmente a música (o que acontece mesmo com o filtro no mínimo) ou não lhe meter filtro e deixar a música como está, mesmo com a relativamente irritante batata frita. Também por aqui se pôs essa questão. Foi um processo doloroso, pautado por lágrimas e noites mal dormidas, que só terminou ao receber um mail de um amigo que salientava o seguinte: “a qualidade do próprio ruído de fundo piora drásticamente com o filtro, e não há nada pior do que um ruído de fundo surdo”. Evidentemente que só havia uma coisa a fazer: os discos que aqui surgirão não têm qualquer filtro anti-ruído, e a batata frita surge neles em toda a sua glória.

Primeiro Dia


Orai pelo pobre vinil preso no limbo dos discos descatalogados, ignorados pelo formato digital, a criar pó nas prateleiras dos coleccionadores. Que a sua música se liberte desse lugar de sombras e ascenda ao conhecimento dos nossos ouvidos. Assim seja.