quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Mler Ife Dada - Mler Ife Dada (Polygram, 1990)



sacar

01. Música do Homem que Anda
02. Erro de Cálculo
03. Choro do Vento e das Núvens
04. À Chuva

Sofia Amendoeira – voz
Bruno Pedroso – bateria
José António Aguiar – baixo
José Pedro Lorena – saxofone alto, clarinete baixo
Nuno Rebelo – guitarra eléctrica e clássica, voz, programação de ritmos e teclados, CD’s
+
Rafael Toral – fitas magnéticas, guitarra eléctrica (01, 04)

Produção – Nuno Rebelo

Dizia o Nuno Rebelo em entrevista não sei onde que este disco era um grito de “estamos vivos”, que era os Mler Ife Dada a erguerem o punho perante o mundo (quer dizer, perante a aldeia do pop experimentalóide português do final dos anos ’80) e a dizerem que ainda tinham um futuro brilhante. Dizia logo de seguida que se enganou e que, afinal, já estavam mortos. Mas limpemos as lágrimas e recuemos um pouco no tempo: Em 1989, Espírito Invisível, o segundo álbum dos Mler Ife Dada, já foi gravado em ambiente de ponta e mola, com os egos de Anabela Duarte e Nuno Rebelo a colidirem violentamente e a lutarem pelo espaço criativo que – não se percebe bem como – parecia ser escasso numa banda tão aventureira como os Mler Ife. Lançado o álbum, Anabela zanga-se de vez e sai da banda, gravando pouco depois, ainda num registo mlerífico, o máxi-single Subtilmente (para sacar ali uns posts abaixo).
Mas Nuno Rebelo recusa-se a deitar a toalha ao chão e recruta uma menina saída do conservatório chamada Sofia Amendoeira. Integrada a menina, vai então de gravar este disco, um empreendimento que podia ter sido bem mais esforçado – é que se trata apenas dos quatro temas mais cantaroláveis de Espirito Invisível, precisamente com as mesmas pistas instrumentais, só que com a Sofia a cantar. A Sofia até canta bem, mas não alegra. A voz é mais grave, um pouco menos expressiva, tem assim os bracinhos caídos, não salta tanto quanto a Anabela, a roupa não é tão gira. Vistas bem as coisas, não dá. A banda finda-se, para tristeza de muitos (eu próprio chorei), e deixa como último registo este disco, o mais desnecessário dos Mler Ife Dada, o mais desnecessário dos Discos Com Sono, mas ainda assim interessante para a meia dúzia de tarados que se dedicam a documentar estas coisas.

quarta-feira, 26 de Agosto de 2009

Street Kids - So Far For So Long (Vadeca, 1983)



sacar

01. So Far For So Long (I)
02. So Far For So Long (II)

Eduardo Sobral – guitarra ritmo
Emanuel Ramalho – bateria, percussões, maracas, salpicos de piano
Luis Ventura – voz
Nuno Rebelo – baixo, guitarras diversas, pratos de choque, voz
+
Nuno Canavarro – strings, piano

Produção – Emanuel Ramalho e Nuno Rebelo

Desconheço as circunstâncias que reuniram nesta banda tantos músicos que mais tarde se tornariam conhecidos, mas a verdade é que os Street Kids foram uma espécie de jardim infantil da música portuguesa dos anos 80. Versões minúsculas do Nuno Rebelo antes de fundar os Mler Ife Dada, do Emanuel Ramalho antes de tocar nos Delfins e Rádio Macau, do Nuno Canavarro antes de fazer Música para 70 Serpentes, do Luis Ventura antes de cantar nos Lobo Meigo. Todos juntos a brincar ao boom do rock português, ali no início dos anos 80.
Fundados em 1979, os Street Kids lançaram 3 singles, um MX-S – este So Far For So Long – e um LP, aproveitando a benevolência editorial que, naquele época, não se fazia rogada em lançar para o mercado qualquer banda que soubesse tocar mais ou menos e tivesse umas canções de encher o ouvido (o tema Propagando ainda gozou de relativo sucesso). Como se depreende, torço o nariz à maior parte dos discos dos Street Kids, um pop meio new wavezado, às vezes a dar para o punk-light, que não acrescenta muito ao que então se fazia.
Este disco, contudo, apanha a banda a tentar abrir caminho noutras direcções, numa altura em que o tal boom do rock português já tinha dado o que tinha a dar. Suponho que a culpa terá sido do Nuno Rebelo – compositor e co-produtor do disco – que deve ter começado a ouvir coisas mais ousadas e a tentar puxar a banda para outros territórios. O formato canção é aqui um mero suporte para divagações instrumentais onde cabe uma secção rítmica irrequita e imaginativa, umas guitarras frippianas de vez em quando e uma boa dose de truques de estúdio que dão às duas versões do tema-título uma aura experimental q.b.. Nem todas as partes interessadas terão gostado da brincadeira, pelos vistos, porque a banda acabou pouco depois e cada um foi à sua vida. Para mim, ainda é o disco dos Street Kids que melhor resistiu a estes últimos 26 anos.

sexta-feira, 24 de Julho de 2009

V.A. – A Confederação (Diapasão, 1978)



sacar

01. Dedicatória
02. Sete Rios de Multidão
03. Destruição
04. Pão Pr’a Toda a Gente
05. Estado de Sítio
06. Ai Meu Trigo Lindo
07. Ai de Mim
08. Povo Fardado
09. Hino da Confederação
10. Hino da Confederação (Vocal)
11. Operários e Camponeses
12. Cinema Mudo
13. Soldados de Abril
14. Valsa Talvez
15. A Luta Continua
17. Unidade Popular

Autoria:
José Mário Branco (01, 02, 04, 06, 11, 13, 14, 16)
Jorge Cortês e José Mário Branco (08, 15)
Sérgio Godinho e Fausto (09, 10)
Rui Reis (12)

Vozes:
José Mário Branco (02, 04, 06, 11, 13, 16)
Rui Vaz (02, 04, 11, 13, 16)
Jorge Dias (05)
Margarida Carpinteiro (07)
Jorge Cortês (08, 15)
Luisa Alcobia (10)

Músicos:
Luis Pedro Faro
Carlos Guerreiro
Rui Vaz
Zé Pedro
Artur Moreira
José Luis Simões
Rui Reis
Guilherme Inês

O género da distopia futurista tem, infelizmente, muito poucos representantes no cinema português, mas dizem que este filme – A Confederação – é um deles. Dizem também que o marxismo inflamado dos autores lhe dá um tom pedagógico que dificilmente se aguenta até aos créditos finais. De qualquer forma, segundo dizem (já se percebeu que não vi), trata de um Portugal em que o 25 de Abril foi seguido de um contra-golpe da reacção, resultando num regime totalitário em que o povo (incluindo a Margarida Carpinteiro) tenta dar a volta à coisa. E o Artur Semedo parece fazer de mau, o que só pode ser bom.
Quanto à banda sonora, o Fausto e o Sérgio Godinho aparecem na capa do disco mas afinal compõem apenas uma canção, e nem sequer a cantam. É o José Mário Branco que, na prática, se encarrega de musicar o filme e, para isso, vai buscar alguns amigos do G.A.C. e compõe uma canção que aqui surge em várias versões e que, mais tarde, vai dar origem a “Eu Vi Este Povo a Lutar”, no álbum Ser Solidário (um dos momentos altos do concerto na Culturgest, já agora).
Já se sabe que um dos males das bandas sonoras é aquele tema que “acompanha” o filme, e que depois, quando compramos o disco, não temos pachorra para aturar 20 vezes seguidas com arranjos ligeiramente diferentes. Mas aqui não. É que a malha é tão boa que não nos importamos de a ouvir com tambores, sem tambores, com tambores e pífaros, com pífaros e tambores, ou simplesmente à capella. São seis óptimas versões de “Eu Vi o Meu Povo a Lutar” (nenhuma ainda com esse título e todas com letras e arranjos diferentes), mais uma valsa engraçada também do ZMB, mais duas versões da tal cançoneta do Fausto e do Sérgio Godinho, mais uma improvisação ao piano, mais a Margarida Carpinteiro a cantar muito desafinada. Que outra coisa se pode pedir de uma banda sonora?

quinta-feira, 28 de Maio de 2009

Anabela Duarte – Subtilmente (Ed. Autor, 1991)



sacar

01. Subtilmente
02. Asiaouasi
03. Ela, Ela

Anabela Duarte – voz, programações, sintetizadores
Rodrigo Amado – sax soprano (01.), sax alto (03.)
Luísa Gonçalves – piano (01., 03.)
Charlie Brown – baixo (01.)
Pedro Pita Groz – pratos (01.)
Ká-Mané – percussões (01.)

Produção – Anabela Duarte

Quando Anabela Duarte gravou este EP, no início dos anos 90, já a saga da canção pop aventureira e experimentalóide que marcou o final dos 80’s estava a dar os últimos suspiros. Mas Anabela ainda não tinha percebido, e insistiu mais algum tempo antes de se virar durante largos anos para o canto lírico, a declamação de poesia e outras áreas menos cantaroláveis. Este disco e o CD ao vivo “Delito” (gravado na mesma altura mas editado vários anos mais tarde pela Ananana) são os registos que ficaram desse breve período.
Apesar da contribuição de alguns músicos convidados, são os sintetizadores laurieandersanianos tocados pela própria Anabela que sobressaem na parte instrumental, e que ligam nestas três canções as influências muito díspares dos projectos por onde a cantora tinha passado até à altura: lá estão os Ocaso Épico, principalmente na toada pseudo-oriental de “Asiaouasi”, lá está o disco de fados que ela tinha gravado em 1988 no tema “Subtilmente”, lá estão os Mler Ife Dada, que Anabela tinha abandonado pouco tempo antes mas que se infiltram aqui quase de uma ponta à outra do disco. Aliás, dizem as más línguas que este disco é a Anabela a tentar fazer uns MlerIfe fora dos MlerIfe. Pela mesma altura, também Nuno Rebelo tentava adiar o inevitável: com a sua banda de pés para a cova, chamou Sofia Amendoeira para fazer as vezes de Anabela, mas não conseguiu mais que adiar alguns meses o anunciado enterro.
Mas esqueçam-se as birras de comadres e oiça-se este disco: apesar de uma produção mal amanhada e de algumas opções menos felizes (aquelas segundas vozes no Asiouasi, pelamordedeus), são três temas muito bem esgalhados que lembram uma outra maneira de fazer canções pop, mais livre e com mais tomates do que a maioria das propostas independentes que hoje nos servem. E pronto, embora o choradinho revivalista dos anos 80 não seja apanágio deste blog, às vezes não há como resistir.

quinta-feira, 7 de Maio de 2009

Tina and The Top Ten – Everslick (Moneyland, 1993)



sacar

01. Everslick
02. The Meeting Parts
03. One Cold Cut

Dr. Top
Johnny “Scratch” Money
Plastic Mimi
Captain M.D.
Falcon D.
+
Rafael Toral – guitarra (01.), piano (02.)

Produção – Rafael Toral

Ainda hoje não é claro quanto dos Tina and The Top Ten era um genuíno exercício de fascínio e emulação da juventude sónica estado-unidense e quanto daquela banda era um comentário cultural irónico herdeiro dos delírios Homeostéticos e afins. É provável que o próprio fundador, o artista plástico João Paulo Feliciano, não saiba responder ao certo, mas afinal sempre foi esse esbatimento de fronteiras entre alta e baixa cultura que teve piada nesta gente. Parece que o Feliciano andava por alturas da fundação da banda a conspirar com os Ases da Paleta (Pedro Portugal, Manuel João Vieira e Fernando Brito, todos ex-homeostéticos) e o conceito de “very first all portuguese fake american rock and roll band” deve-lhe ter parecido uma tradução adequada para o rock do que o grupo fazia nas telas, para além de uma boa oportunidade para rasgar na guitarra e berrar ao microfone.
Este single surge quatro anos após a formação dos TTT, já depois de vários músicos terem entrado e saído, de ter surgido a Moneyland Record$ para editar a produção musical da banda e dos amigos, e de Feliciano ter começado a trabalhar com Rafael Toral, com quem formaria os No Noise Reduction e passararia um curto e atribulado período nos Pop dell’Arte. A música não se pode dizer que surpreenda – é aquilo que os Tina and The Top Ten sempre fizeram, com maior ou menos convicção, e desta vez o sucesso é garantido: parecem americanos, sim senhor. O lado A é bem puxadito, com os berros da Mimi (também Ena Pá 2000, também artista plástica – isto está tudo ligado) a acompanharem os do Feliciano e toda a banda a encarnar na perfeição os corpos astrais dos Sonic Youth. Virando o disco, parecem um pouco menos americanos e um pouco mais ingleses, uma espécie de T. Rex com as guitarras mal afinadas. A coisa termina a abrir com meio minuto de “One Cold Cut”.
Com a aproximação do novo milénio terminaria também assim, um bocado sem jeito, a “cena sónica” iniciada pelos TTT e que teve o seu epicentro nas Caldas da Raínha – um capítulo curioso, ainda que algo inconsequente, da história da música portuguesa nesses malfadados anos 90.

quarta-feira, 1 de Abril de 2009

Júlio Pereira – Lisboémia (EMI, 1978)



sacar

01. Cabo-Ruivo
02. Alvalade
03. Pr. Chile / Intendente
04. Alfama
05. Rossio
06. Cais do Sodré
07. Bairro Alto
08. Av.da Liberdade
09. Saldanha / Entre-Campos
10. Sete Rios / Belém
11. Lisboémia

Vozes:
narrador – Júlio Pereira
personagens – José Mário Branco, António Portannett, Eugénia Melo e Castro, Mário Viegas, Jaime Queimado, Duarte Mendes, Shila, Ricardo Pais, Lia Gama, Eugénia Bettencourt, José Manuel Osório
coros – G.A.C., Rui Oliveira Vaz, Shila, Jaime Machado, Eugénia Melo e Castro

Músicos:
Júlio Pereira – violas (acústica, espanhola, 6 e 12 cordas) bouzouki, reco-reco, voz, banjo, moog, porta-moedas, pandeireta, guizos, piano, harpa de lata, castanhola
Paulo Godinho – baixo
Jaime Queimado – bombo, caixinha de madeira
João Seixas – maracas, bombo, congas, bongós, pandeireta, adufe
Guilherme Scarpa Inês – madeiras, bombo, tarola, pandeireta, bateria, ferrinhos
Isabel Costenla – castanholas
António Lages – tuba
Isidro Mestre – clarinete
Laureano Martins – flautim
José Luis Simões – trombone
Mário de Jesus – trompete
Hélder Reis – acordeão
Rui Reis – piano eléctrico, moog, piano
Pedro Caldeira Cabral – guitarra
Raul Mendes – harmónica
José Machado – violino
José de Carvalho – vibra-slap
Rui Cardoso – flauta, saxofone
Fernando Júdice – contrabaixo
Fernando Calazans, António Anjos, Manuel Gomes, Ilídio Gomes, Floriana Oliveira, Leonor Moreira, Kevin Vauham, Rogério Gomes – violinos
Teresa Portugal, João Murcho – violoncelos

direcção de produção – Júlio Pereira
capa e ilustrações – Carlos Zíngaro

Parece que o Júlio Pereira já não se revê nos primeiros discos que gravou em nome próprio, este e o “Fernandinho Vai ao Vinho”, e por isso não deixou a boa gente do Do Tempo do Vinil reeditá-los em CD. Enfim, não será por isso que não o vamos ouvir. “Lisboémia” é uma espécie de roteiro da indigência reinante na capital durante os anos 70, uma cidade onde aparentemente não se fazia grande coisa para além de beber nas tascas, ir ao Parque Mayer e às putas, consumir droga e andar à porrada de vez em quando. É o que se chama os bons velhos tempos. Ou nem tanto, porque parece que toda aquela gente não tinha um chavo e a ressaca de revolução não lhes estava a fazer bem à cabeça nem à vidinha. Uma bad trip lixada, e a tal boémia surge então como antídoto para os amanhãs que cantam idos pelo cano abaixo. Será que percebi a ideia, Júlio? Diz qualquer coisa.
Há neste disco uma multidão de gente: actores para dar voz aos personagens castiços, músicos em barda, o G.A.C. a fazer coros, o Zíngaro a fazer a capa e as magníficas ilustrações no interior (saudades das ilustrações do Zíngaro). Há fadunchos, marchas, ecos da música tradicional, a guitarra do Pedro Caldeira Cabral, tudo a servir retratos da borga em vários bairros lisboetas. E há o próprio Júlio Pereira a cantar, coisa que nunca mais fez desde então – até há quem diga que o disco não é reeditado porque ele não gosta de se ouvir. Ou é isso ou são aquelas imitações de ciganos, gays e pretos, que hoje soariam muito politicamente incorrectas.
Já agora, os canais esquerdo e direito pareciam-me desequilibrados e estive a mexer naquilo. Desconfio que fiz disparate, porque agora soa-me esquisito. Digam da vossa justiça – se estiver muito mal faço um ripanço novo. Ah, e obrigado ao amigo Rui pelo empréstimo do Lisboémia e de mais alguns que aqui apareceram.

quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

V.A. – O Barco e o Sonho | Balada do Atlântico | Xailes Negros (Polygram, 1989)



sacar parte 1
sacar parte 2

01. O Bailado da Garça (José Medeiros)
02. Espelho d'Água (José Medeiros)
03. Nos Teus Olhos... um Fado (Luis Bettencourt/Rimanço)
04. Canção de Pedro F. (Paulo Andrade)
05. Os Piratas (Álamo Oliveira & Luis Bettencourt/Empty Space)
06. Chamateia (António Melo Sousa & Luis Bettencourt/Rimanço)
07. Barqueiro Velho (João Miguel)
08. Ilhas de Bruma (Manuel Medeiros Ferreira)
09. Leviatã (Luis Bettencourt/Empty Space)
10. Dores(Luis Bettencourt/Rimanço)
11. Estrela Cadente (José Medeiros)
12. Tango à la Minuta (José Medeiros)
13. Comércio de Angra (Álamo Oliveira & Anibal Raposo)
14. Cantiga da Terra (José Medeiros)
15. Gilda do Baixio (José Medeiros & Fernando Reis Júnior)
16. Maré e Natividade (Anibal Raposo)
17. Lamento (Fernando Reis Júnior & João Miguel)
18. Canção do Medo (José Medeiros)
19. O Aventureiro (Paulo Andrade)
20. Devagar (Luis Bettencourt/Rimanço)
21. Atalhos do Mar (José Medeiros)
22. Torre de Babel (José Medeiros)
23. Amores Imperfeitos (José Medeiros & Fernando Reis Júnior)
24. América (Álamo Oliveira & Paulo Andrade)
25. Meu Bem (tradicional)


Susana Coelho – voz
Piedade Rego Costa – voz
José Ferreira – voz
Carlos Medeiros – voz
Luisa Alves – voz
Vera Quintanilha – voz
Paulo Martinho – voz
Minela - voz
Aníbal Raposo – voz, viola acústica
Luis Bettencourt (Empty Space) – viola da terra, baixo, percussão, teclas, voz, viola 12 cordas, guitarra eléctrica, viola acústica
Lurdes Santos – violoncelo
Álvaro Melo – acordeão, voz, sintetizador, viola acústica
José Medeiros – piano, sintetizador, voz, percussão, viola acústica
Emanuel Ramalho – bateria
João Nuno Represas – percussão
Sérgio Mestre – flauta, percussão, sax alto
Gil Alves – flauta
Paulo Andrade – percussão, cavaquinho, viola acústica, voz
Henrique Ben-David – percussão
João Miguel – viola acústica, percussão
Luis Bettencourt (Rimanço) – viola acústica, voz
Francisco Ribeiro – violoncelo
Moniz Correia – guitarra portuguesa
Hermenegildo Galante – clarinete
Vitor Rodrigues – violino
Rabanal – bateria
Ricardo Dias – sintetizador

técnicos de som: José Fortes, Rui Novais, Jorge Barata, Luis Flor e F. Abrantes
(gravado no Angel Studio em Julho/Setembro de 1986, Abril de 1987 e Setembro de 1988)

Nos tempos em que se era obrigado a ver a RTP se se queria ver televisão, Zeca Medeiros submeteu a população portuguesa a várias séries e telefilmes transmitidos em horário nobre que, hoje em dia, não lembrariam ao diabo. Muita gente passou horas a olhar para planos com mais de 30 segundos, a ouvir falar num sotaque estranho e quase incompreensível, a olhar para paisagens lindíssimas dum sítio longínquo que se dizia ser Portugal, a acompanhar séries cujos últimos episódios não consistiam numa sequência interminável de casamentos.
Naqueles tempos pré-televisão-em-movimento, o Zeca Medeiros tratava os filmes que fazia nas palminhas, como se fossem a coisa mais importante do mundo, e essa dedicação transbordou para as suas bandas sonoras. Claro que ele já andava pelas coisas da música há algum tempo, tinha integrado os Construção e os Rosa dos Ventos, que editaram álbuns no início dos anos 80, e depois seguiu pela carreira a solo que melhor lhe conhecemos.
Sabendo recitar de trás para a frente os nomes de todos os compositores e intérpretes açoreanos, deve-lhe ter sido fácil convidar os melhores para estas três bandas sonoras, aqui reunidas e editadas num duplo LP, e ainda ir buscar mais uns quantos ao continente. Fica a ideia que nesta altura também devia haver dinheiro para excentricidades… O próprio Zeca e Luis Bettencourt dividem entre si a composição do maior número de temas.
O resultado é uma mescla de estilos que umas vezes ronda a música tradicional açoreana, outras o fado, outras a balada e outras ainda a canção perigosamente “ligeira”, em especial nos temas dos genéricos, com a voz jazzy da menina a provocar alguns ergueres de sobrolho. Mas a gente perdoa umas letras mais lamechas aqui e ali, uns arranjos mais foleiros de vez em quando, tal como perdoávamos os filtros violeta no céu dos Açores em Xailes Negros, porque sabemos que, no caso do Zeca Medeiros, aquilo vem mesmo tudo lá do fundo do peito.

quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009

Pedro Ayres Magalhães – O Ocidente Infernal / Adeus Torre de Belém (EMI-Valentim de Carvalho, 1985)



sacar

01. O Ocidente Infernal
02. Adeus Torre de Belém

Todos os instrumentos, arranjos e produção: Pedro Ayres Magalhães

Ainda há pouco tempo comentava no blog do Almirante Ramos que me falta a pachorra para o Pedro Ayres Magalhães (grande referência do Almirante e de todo o gang Amor Fúria), e que a melhor coisa que o badocha fez foi o disco do Corpo Diplomático. Agora fui ouvir este objecto, o maxi-single instrumental que ele gravou nos idos de oitenta e tal, e tenho de dar o braço a torcer. Nunca o Pedro Ayres meteu tanta distorção numa guitarra como naquele primeiro tema, O Ocidente Infernal, a menos que o tenha feito neste disco de Madredeus & a Banda Gósmica, o que me parece improvável (mas pronto, ainda não ouvi).
Sim, O Ocidente Infernal é um belo tema, e não tem grande paralelo no resto da obra do homem, que parece aqui querer tocar o que não queria ou não podia nas suas outras bandas. A referência mais óbvia será talvez o compincha Vinny Reily, que gravara pouco tempo atrás para a Fundação Atlântica do próprio Pedro Ayres e que o deve ter inspirado a gravar camadas sobre camadas de guitarras ao som de uma caixa de ritmos. No segundo lado (Adeus Torre de Belém) os pedais distorcentes já não se encontram, mas há gravações urbano-etnográficas de máquinas no Barreiro, local onde Pedro Ayres foi captar som prudentemente disfarçado de operário, sendo certa e sabida o afeição que a esquerdalha barreirense devotava aos Heróis do Mar.
É este disco, julgo eu, o canto do cisne da Fundação Atlântica, aqui já sem margem de manobra para editar o que quer que fosse, limitando-se a contra-capa a esclarecer que se trata de “uma produção da Fundação Atlântica para a EMI-Valentim de Carvalho”. De realçar, ainda na contracapa, a inclusão de uma foto de Pedro Ayres a fumar, na desaparecida tradição das contracapas com fotos de músicos a fumar, em que a mais célebre será provavelmente a de Blackground, do Duo Ouro Negro.

terça-feira, 16 de Dezembro de 2008

Carlos Maria Trindade – Princesa / Em Campo Aberto (Vimúsica, 1982)



sacar

01. Princesa
02. Em Campo Aberto

Produção – Manuel Cardoso e Carlos Maria Trindade

Peço desculpa pela falta de informação adicional, mas este disco de Carlos Maria Trindade, a primeira aventura a solo de um Herói do Mar, é um poço de mistérios. Nem uma ficha técnica na contracapa, nem uma folhinha no interior. Nada. Cuscando pela net, percebe-se alguma coisa: Carlos Maria Trindade fez este single e ainda um élepê, que se ia chamar Tédio e ser editado por esta editora, a Vimúsica. Diz o precioso site Anos80 que a editora representava a Factory em Portugal, que a Factory lhe causou diversos “problemas” e que o chefe da Vimúsica acabou por se escapulir para o Canadá, pondo fim ao negócio discográfico. Em consequência, diz o site, o élepê do pobre Carlos Maria foi DESTRUÍDO!, o que me parece um pouco dramático: talvez tenha ficado só por editar, ou num armazém sem ser distribuído. O pobre Carlos Maria, contudo, conseguiu antes disso editar este single em que, depreende-se, toca coisas electrónicas e canta (!!!). Digo depreende-se porque não há informação do disco ter contado com mais colaborações.
Quanto à música, é uma lança certeira nas modas neo-românticas e cold-electro-nãoseiquemais que vingavam em Inglaterra e fascinavam a juventude portuguesa da altura, chegando a lembrar uns Human League dos primórdios, mas menos amaricados. Há menos afectação camp e mais inspiração bucólico-épica devedora aos primeiros trabalhos dos Heróis do Mar. “Em Campo Aberto” assinala ainda o surgimento das electrónicas planantes na obra do pobre Carlos Maria, que bem mais tarde desceria com elas ao inferno da música new-age, para mal da saúde auditiva de todos nós. Mas não me vou alongar nas críticas nem xingar o disco, porque é um disco decente. Saquem, que é giro.

segunda-feira, 17 de Novembro de 2008

GNR - Defeitos Especiais (EMI, 1984)



sacar

01. Desnorteado
02. I Don’t Feel Funky (Anymore)
03. Piloto Automático
04. Absurdina
05. A Última Vaga
06. Muçulmania
07. Mau Pastor
08. Pershingópolis
09. Quebra-Gelo
10. Maré Baixa

Rui Reininho
Alexandre Soares
Toli
Jorge Romão

Produção – Pedro Vasconcelos e GNR

As razões por detrás da não reedição de discos são sempre obscuras neste país – desde a recusa dos artistas em reeditar trabalhos em que “já não se reconhecem” até às salganhadas legais em torno de direitos de autor, passando pela clássica “perda/destruição de masters”, há justificações para todos os gostos. No caso de “Defeitos Especiais”, o Reininho dizia com muito pouca convicção que “essas fitas desapareceram”, mas o mais provável é que não faça ideia do que se passa. Enquanto isso, Defeitos Especiais continua no poletão da frente dos discos ainda presos ao vinil. E é pena, porque foi aqui que os GNR começaram a ser os GNR.
Depois dos primeiros singles à la “boom do rock português”, depois da entrada de Rui Reininho, da irrupção da alma electro-acústica de Jorge Lima Barreto no seio de uma banda ingenuamente pop, depois da ameaça latente de chatice em Avarias, depois da viagem de Vitor Rua a Nova Iorque e das maravilhas que por aí ouviu, a coisa começa a dar para o torto: Miguel Megre vai-se embora, Alexandre Soares também abandona (temporiamente) a banda, e Vitor Rua compreende que a companhia dos GNR não era a ideal para se fazer música chata, fundando os Telectu com Lima Barreto para cumprir tais propósitos.
Defeitos Especiais é gravado por uma banda reconstruída há pouco tempo – Alexandre Soares regressa, Jorge Romão deixa os Bananas para se juntar a uma banda com um nome mais cool – mas que já sabe, finalmente, o que quer fazer: misturar sem complexos as referências que lhe der na gana, experimentar o que lhe apetecer, escrever sem grande respeito pelo songwritting tradicional, mas sempre numa linguagem pop, na produção de canções oblíquas mas cantaroláveis. Entre valsas sobre pastores devassos (Mau Pastor), devaneios orientalizantes (Muçulmania), e aventuras na cold-wave e na electrónica (A Última Vaga), os GNR celebram o enterro do rock simples e directo do início dos anos 80 e criam alegremente a sua própria terra de ninguém.

domingo, 26 de Outubro de 2008

RIP ZShare

Parece que o ZShare não anda a funcionar como deve ser, por isso mudei todos os links para o MediaFire. Qualquer problema, usem os comentários como caixa de reclamações.

Alexandre Soares – Um Projecto Global (Polygram, 1988)



sacar

01. Luzes de Hotel
02. Hibernar
03. (Que) Ricos Dias
04. Fora de Casa
05. Respirar
06. Chambo
07. Uma Coisa
08. Meus Amigos
09. Vozes
10. Recordo-me?

Alexandre Soares – todos os instrumentos
+
Quico – programação da percussão (02., 03., 04., 07.), teclas (03., 08.)

Produção – Alexandre Soares

Quando, em 1986, Alexandre Soares saiu dos GNR, aqueles que o consideravam a centelha de génio por detrás da banda dedicaram-se à mais desavergonhada profecia: os GNR cairiam de imediato na mediocridade e Alexandre Soares daria início a uma fulgurante carreira a solo, pondo em prática a sua brilhante inventividade e produzindo obras, como se costuma dizer, “à frente do seu tempo”. Nem uma nem outra resultaram propriamente certas. Por um lado, Videomaria, o primeiro disco da banda sem Alexandre Soares, honrava o que os GNR tinham sido até então, com três canções, no mínimo, bastante decentes. Por outro, o LP de Soares “Um Projecto Global” não deixou a marca fulgurante que se esperava na pop nacional.
Não é que seja um mau disco, nem que o domínio das várias formas de tocar guitarra e de manipular o estúdio deixem de impressionar, mas o que sobra em virtuosismo e tecnologia falta em instinto cançonetista. Aquilo que este disco não tem são, realmente, as grandes canções. Aparte este ligeiro contratempo, temos de dar o braço a torcer ao apuro técnico de dez músicas gravadas em casa, em que Soares toca praticamente todos os instrumentos, compõe as músicas e quase todas as letras (Luzes de Hotel é de Pedro Aires Magalhães) e canta com aquela voz que, não sendo brilhante, é a única que tem. Um Projecto Global deixa-nos a ideia que Alexandre Soares podia ser uma das forças criativas por detrás dos GNR, mas que falta qualquer coisa para ser um músico pop auto-suficiente – lição que Soares parece ter levado à letra, dedicando-se desde então a produzir música para teatro e cinema, e não mais se aventurando nas cantigas. Talvez esteja na altura de fazer mais uma tentativa.

terça-feira, 26 de Agosto de 2008

Osso Exótico - II (Carbo, 1991)



sacar

01. The Mistery of Hours
02.
03.
04.
05. Season
06. World, Oblivion
07. The Mistery of Hours
08. Depósito de
09. Depósito de
10. Depósito de
11. Depósito de
12. Word, Hour
13. Season
14. Humus Hail
15.

David Maranha – voz, violino, guitarra acústica, marimba africana, bateria, rototons, marimba israelita, violoncelo, bolas chinesas, pandeireta, água, acordeão, ukelele, harmónica, madeira, bombo, kalimba, maraca
Patrícia Machás – voz, bandolim, pandeireta, acordeão, marimba israelita
Bernardo Devlin – voz, flauta chinesa, harmónica de vidro, marimba israelita
André Maranha – garrafas afinadas (sopradas), guitarra de 12 cordas (tocada com arco), voz, acordeão, violino
Oliver Vogt – clarinete baixo, saxofones tenor e alto, marimba israelita, voz, acordeão
+
Sei Miguel – trompete de bolso (03.)
Fala Mariam – trombone (03.)
Xana Couceiro – voz (05.)
Alfredo – (15.)

Gravação e mistura – David Maranha

O xinfrim de percussão que abre este segundo LP dos Osso Exótico parece indicar que “II” seguiria os passos do seu antecessor, um disco que vagueava pelos territórios do pop industrial (se é que alguma vez houve disso em Portugal) carregado de experimentalismo e de uma boa dose de electricidade. Mas é sol de pouca dura, porque poucos segundos depois ficamos a saber que os meninos dos Osso Exótico estão a ficar crescidos: neste disco, recorrem exclusivamente a instrumentos acústicos, a uma maior economia de meios em cada tema, explorando com cuidado certos timbres e texturas e criando um ambiente geral mais discreto e intimista.
Bernardo Devlin continua a cantar, ora lembrando uma Linda Blair endemoninhada, ora assemelhando-se a um João Peste com qualquer coisa atravessada na garganta (de notar que nenhuma destas comparações é necessariamente negativa), tornando-se no principal elo de ligação com o disco anterior e no principal ponto de ruptura com a obra posterior da banda (Devlin deixaria os Osso Exótico após o terceiro disco). Este é também o disco que assinala a entrada de Patrícia Machás nos Osso Exótico, onde permanece até hoje juntamente com os irmãos Maranha.
“II” acaba por ser essencialmente um disco de transição, em que começamos a vislumbrar os caminhos que os Osso Exótico seguiriam no futuro, e a perceber que seria necessária muito atenção e paciência para apreciar a sua obra posterior, atenção e paciência que (dizem) acaba por ser largamente recompensada. É também, julgo eu, o disco com tiragem mais limitada, numa edição numerada de 350 exemplares. Daqui em diante, a edição em CD e a maior facilidade de distribuição no estrangeiro fez com que os Osso Exótico fossem das primeiras bandas portuguesas a ser reconhecida internacionalmente – uma espécie de Madredeus do drone lusitano, por assim dizer.

terça-feira, 19 de Agosto de 2008

K4 Quadrado Azul - K4 Quadrado Azul (Ed. Autor, 1990)



sacar

1. Paramessalina
2. Quinhentista
3. Falência do Amor
4. Babilónia

Fernando Faustino - voz e coros
João Miguel - guitarra, voz em 2., coros e sampler
Pedro Eloy - piano, sintetizador, coros e sampler
Luís Ferreira - guitarra eléctrica, guitarra de 11 cordas e coros
Hernãni Costeira - baixo eléctrico e coros
Rui Dâmaso - bateria e percussões electrónicas

Capa - João Garcia Miguel
Som - Zé Carrapa
Mistura - Cajó e Carrapa
Produção - K4 / Can I Eat Your Cheese

Houve ali um período de dois ou três anos, a partir de ‘89 ou ‘90, em que os K4 Quadrado Azul foram a melhor banda de rock portuguesa e muito provavelmente do mundo inteiro. Aqueles concertos com as guitarras a derreterem-se todas em distorção e riffs ácidos do melhor que há, as vozes a sobreporem-se à vez, berradas de impulso, o volume quase a rebentar os tímpanos e o ar vagamente paranóico e seguramente janado do vocalista Faustino, criavam uma sensação entre a tontura e o arrebatamento, bem sugerida num dos toscos mas deliciosos telediscos que a equipa do Pop-Off criou para a banda: um dos elementos dos K4 a debater-se numa espiral que o parecia arrastar aos poucos para os recantos mais obscuros dos seus próprios neurónios fritos.
Os K4 formaram-se a partir dos restos dos Aix La Chapelle em 1986, salvo erro, e passaram os primeiros anos a tocar mais de mansinho, sem rasgar muito nas guitarras e baseando-se mais em vozes e coros, debitando toneladas de referências literárias por verso. Foi assim que ganharam o concurso Novos Valores da Cultura em 1988, um dinheirinho que lhes deu para pagar metade da gravação e edição deste disco.
Dois anos mais tarde, lá surgiu ele, em edição de autor, só com quatro músicas, e já depois da banda ter começado a rockar como deve ser. Mas a verdade é que o disco, para além de ser curto, parece que foi gravado de manhãzinha antes da banda tomar café, e dá uma parca ideia do que eram os K4 ao vivo. Embora dê vontade de tocar em 45 rotações, para ver se a coisa fica mais parecida, não há como tirar o mérito ao grande tema que é “Falência do Amor”, a faixa onde os K4 conseguem concretizar melhor a sua pujança mastodôntica. “Quinhentista” também tem piada, mas é mais típica da fase anterior da banda, com as vozes em primeiro plano, e não comunga propriamente do espírito do roquenrol.
Pela mesma altura editam ainda um par de temas na colectânea Feedback, grandes temas que eram, Jardineiro e Tudo É Meu, mas a qualidade do som era muito bera e, na realidade, tratava-se apenas de uma demo passada para o vinil.
E finaram-se ingloriamente uns dois anos depois, ou coisa que o valha, nunca chegando a concretizar a prometida gravação de um LP e passando assim ao lado de um dos grandes discos da música a abrir feitos por estas bandas. É assim a vida.

sexta-feira, 13 de Junho de 2008

Rui Júnior – O Ó Que Som Tem? (Diapasão, 1983)



sacar

1. Recolhimento
2. Transição / Samba / Assim Sim
3. Incerteza
4. Capoeiro (A Minha Angústia)
5. Mobby Dick (Dominique)
6. Intro / Malhoa
7. Marimbando (A manada que passa à minha porta, e o meu adufe)
8. Frase Feliz
9. Eira
10. Carolina Vem À Varanda

Rui Júnior
Rui Vaz
José Martins
José Salgueiro
Fernando Molina
João Nuno
+
Janita Salomé, Tó Sequeira, Carlos Loureiro, Tânia, Dá, Mina

(demasiados instrumentos para especificar quem toca o quê…)

Produtor delegado – Rui Júnior
Captação de som e misturas – José Fortes

O primeiro disco do grupo de percussão liderado por Rui Júnior transporta-nos para um tempo que quase nos custa a acreditar. Um tempo em que uma editora relativamente grande arriscava um disco sem canções, quase só com instrumentos de percussão, sem temas que pudessem dar singles nem sequer ser cantarolados, e onde a banda não contava com gajas boas – eram só gajos, aliás, uns barrigudos, outros de bigode, e nenhum com sex-appeal suficiente para o teledisco (embora oiça dizer que há por aí umas fãs do José Salgueiro…). Haveria nessa altura um mercado para a música experimental de percussão com raízes tradicionais, ou a Diapasão fez o disparate de editar um disco só porque era bom?...
Enfim, choraminguices à parte, O Ó Que Som Tem? não é, hoje em dia, um disco de audição fácil, desafiando o comum preconceito de que a percussão não é para ser ouvida com ouvidos de ouvir mas antes para elicitar estados de euforia e abanar a carola. De facto, as reviravoltas que Rui Júnior dá a temas tradicionais portugueses (com umas brasileirices pelo meio) poucas vezes nos levam ao headbanging. O que pedem é atenção à forma como as marimbas se cruzam com os adufes em “Marimbando”, disponibilidade para apreciar os arranjos intrincados de “Intro / Malhoa” e mesmo alguma pachorra para os vários minutos de solo de berimbau em “Capoeiro”. Para não dizer que é um disco muito cerebral, “Carolina Vem À Varanda” ainda dá para saltitar.
Após o primeiro álbum, os elementos do grupo dispersam-se por inúmeros projectos e O Ó Que Som Tem? fica 12 anos sem gravar. Rui Vaz fundaria mais tarde os Gaiteiros de Lisboa, José Salgueiro continuaria a sua carreira de superestrela percutiva (Trovante, Sérgio Godinho, Zeca Afonso, José Mário Branco, Gaiteiros de Lisboa, Quarteto João Paulo, Tim Tim Por Tim Tum,…), e Fernando Molina acompanharia Rui Júnior – até hoje – em vários grupos. O excelente “Ó Tambor” só surgiria em 1996, seguido dois anos depois pelo menos feliz “O Mundo Não Quer Acabar”. Rui Júnior, entretanto, arranca com o “Tocá Rufar” e põe a miudagem de meio Portugal a fazer precisamente isso – parece que já são mais de oito mil. Não fosse ele um bocado comuna e o Cavaco já lhe tinha dado uma medalha…

domingo, 25 de Maio de 2008

Ban - Santa (EMI - Valentim de Carvalho, 1986)



sacar

1. Santa
2. Portugal
3. Ultramar

Paulo Artur Faro – bateria, percussões
João Ferraz – guitarras
Zézé Maria – guitarras
Francisco Monteiro – baixo
João Loureiro – vozes
+
Tomás Pimentel – trompetes (1.)
Nuno Rebelo – guitarra subtil (1.), estalos, palmas, gritos (2.)
Ricardo Camacho – sintetizadores (1.)
Amândio Bastos – estalos e palmas (2.)
Paula Sousa – piano (1. e. 2.), sintetizadores (3.), voz (1. e 3.)

Capa – António Olaio
Produção – Ricardo Camacho

Embora o sucesso só surgisse dois anos mais tarde com o LP "Surrealizar", “Santa” é já o terceiro disco dos Ban. Depois de lançar o primeiro single em 1983 sob a promissora designação “Os Bananas”, a banda de João Loureiro encurtou incompreensivelmente o seu nome e editou o MX-S “Alma Dorida” em 1984 e, dois anos mais tarde, este “Santa”. “Alma Dorida” era todo gabardines, shoegazing e reflexões sofridas sobre “a polis cinzenta de chuva fria”, mas “Santa” encontra a banda já um pouco mais animada, assumidamente pop, quase a convidar a um pezinho de dança. Até trompetes tem, meu Deus. O interesse vai todo para a parte instrumental e para o cuidado nos arranjos e nas contribuições dos músicos convidados – Nuno Rebelo, Tomás Pimentel, Ricardo Camacho, Paula Sousa – que acabam por transformar alguns temas aparentemente banais em coisas dignas de serem ouvidas. O papel do jovem Loureiro acaba por ser pequeno – um máximo de quatro versos mal cantados em cada música e umas letras bacocas – e deixa bem claro que a sua vocação era o seguir os passos do papá e não propriamente ser cantor. É no entanto de notar que nesta altura o rapaz tinha um ar mais apresentável e não ostentava barriga e papada, o que prova que a música é menos patogénica do que o dirigismo desportivo. Resumindo, “Santa” não é uma obra imprescindível, mas tem piada como exemplo da transição da fase mid-80’s, dominada pelo cinzentismo de inspiração britânica, para a criatividade transbordante late-80’s, da chamada música moderna portuguesa. Tivessem os Ban arriscado mais e talvez não fossem hoje só recordados quando se quer gozar com o Boavista.

segunda-feira, 21 de Abril de 2008

V.A. – Vidya (Potlatch, 1991)



sacar

19 temas sem título:

01. Vitor Rua
02. Vitor Rua
03. Telectu + Elliot Sharp
04. Saheb Sarbib
05. Telectu
06. Telectu + Carlos Zíngaro
07. Vitor Rua + Nuno Rebelo
08. Miguel Azguime
09. Vitor Rua + Paulo Eno
10. Vitor Rua + Miguel Megre + Rui Azul + Nuno Rebelo
11. Vitor Rua + João Peste
12. Vitor Rua + Sei Miguel + Luis Desirat + Rodrigo Amado + Fala Mariam +
Osso Exótico + Nuno Rebelo
13. Vitor Rua + Nuno Rebelo + Rafael Toral + Bruno Rascão + João Paulo Feliciano
14. Vitor Rua + TóZé Ferreira
15. Vitor Rua + Nuno Rebelo
16. Luis Desirat
17. Vitor Rua + Duplex Longa
18. D. W. Art
19. Vitor Rua

Telectu = Vitor Rua + Jorge Lima Barreto
Osso Exótico = David Maranha + Bernardo Devlin
Duplex Longa = Carlos Raimundo + Mário Jorge Resende
D. W. Art = António Duarte + Mané

Produção e Direcção Musical – Vitor Rua

Salvo erro, só pus os olhos neste disco na altura em que ele saiu e em que o comprei. Numa década e meia de peregrinação pelas lojas de segunda mão, nunca mais o vi nem de longe. A obscuridade acentua-se se tivermos em conta que foi o único lançamento da editora Potlatch (que, acho eu, era propriedade do Miguel Santos, agora em Londres ao serviço da Gulbenkian) e que ainda ninguém se parece ter dado ao trabalho de o digitalizar e partilhar criminalmente. Vidya foi um projecto de Vitor Rua que, ao longo de uns meses, foi gravando contribuições de músicos amigos e conhecidos, acrescentando as suas próprias e misturando tudo num caldo final em que os temas se sucedem sem títulos nem pausas entre as faixas. Em termos musicais, o resultado é bastante desigual, mas o principal interesse de Vidya talvez seja o facto de funcionar quase como um catálogo dos principais nomes do underground musical do início dos anos 90. Era uma época algo descaracterizada, em que a vaga da “música moderna portuguesa” estava a dar os últimos estertores e a pujança experimental passava, pouco a pouco, do domínio da pop para o da improvisação, electrónicas e quejandos. Mesmo João Peste, que contribui uns lamentos espectrais para uma das melhores faixas do disco (11.), abdica aqui do formato canção. Entre os outros temas que valem a pena, há Carlos Zingaro com Vitor Rua (6.), Vitor Rua com Osso Exótico, Sei Miguel e mais uns tantos (12.), Nuno Rebelo com Vitor Rua (15) e Miguel Megre, Nuno Rebelo, Rui Azul e – surpreendentemente – Vitor Rua (10.) numa versão chanfrada de Strangers in the Night.

domingo, 6 de Abril de 2008

Anamar – Baile Final / Lágrimas (Fundação Atlântica, 1983)



sacar

1. Baile Final
2. Lágrimas

Direcção Musical e Produção – Pedro Aires Magalhães

Para rematar esta primeira remessa de discos com sono, fica o 7’’ que Anamar editou em 1983 pela Fundação Atlântica, disco, aliás, que é destes três o que menos sono tem, porque já circula há algum tempo nas redes digitais de partilha criminosa de música. A história deste single é algo obscura: trata-se de duas canções retiradas daquele que teria sido o primeiro álbum de Anamar, “Cartas de Portugal”, um LP que nunca chegou a sair e que, segundo a própria Anamar, ficou “uma merda”. Não se sabe ao certo se nunca viu a luz do dia pelo seu elevado índice de merdice ou por qualquer outra razão, mas estas duas amostras dão-nos talvez uma ideia do que poderia ter sido esse “Cartas de Portugal”. É, no fundo, um produto típico da Fundação Atlântica, com Miguel Esteves Cardoso, Pedro Ayres Magalhães e Ricardo Camacho a tentarem criar, como era seu hábito, um ambiente que, por um lado, evocasse uma certa portugalidade e, por outro, não deixasse de apelar a referências musicais anglo-saxónicas (principalmente ao nível da produção). A voz de Anamar não dista muito daquela que podemos ouvir no MX-S editado quatro anos mais tarde pela Ama Romanta, escorrendo pelas canções naquela toada melíflua e desajeitada que, enfim, não deixa de ter o seu charme. Numa apreciação geral, são duas canções que se ouvem bem, mas suspeito que a pachorra não aguentasse um álbum inteiro disto. Fizeste bem, Anamar, em deixá-lo na gaveta.

Janita Salomé – Olho de Fogo (Transmedia/Schiu!, 1987)



sacar

1. Os Amantes
2. Estrela Cadente
3. Poema
4. Azul Branco
5. Senhora do Almortão
6. Ao Passar Junto da Vide
7. O Zéfiro e a Chuva
8. Saias do Freixo em Gibraltar
9. Quando a Luz Fechou os Olhos
10. Cantata

João Lucas – piano, sintetizadores
José Peixoto – baixo, guitarra, percussão, sintetizadores
Irene Lima – violoncelo
Carlos Zíngaro – violino
José Mário Branco – percussão, sintetizadores
Janita Salomé – voz, taarija, adufe, bendir, darbuka
Vitorino - voz
Fernando Flores – contrabaixo
António Serafim – oboé
Tomás Pimentel – trompete, flugelhorn
José Carapeto – trompete
José Oliveira – trombone
José Martins – percussão, sintetizador
Paulo Curado – saxofone, flauta
Mónica Lapa – sapateado
Júlio Pereira – viola braguesa
Fernando Júdice – baixo
Acácio Pestana – trompa
A. Costa – trompa

De entre as pilhas de vinil português nunca reeditado, Olho de Fogo é com certeza um dos mais injustamente esquecidos, ao ponto de dar vontade de procurar os responsáveis por tamanha inépcia e pregar-lhes um par de estalos na cara. Em conjunto com A Cantar ao Sol e Lavrar em Teu Peito, é um dos discos em que Janita melhor explora o cruzamento entre a música alentejana e a do Norte de África, tornando-o numa espécie de tratado sonoro sobre a influência berbere no Alentejo. E, se bem que a tese esteja longe de ser consensual (ver, por exemplo, aqui)
, Janita é bastante eloquente a enunciá-la. Há que ouvir a versão fantasmagórica da Senhora do Almortão, com arranjos de Constança Capdeville, as Saias do Freixo em Gibraltar acompanhadas pelo sapateado de Mónica Lapa, o piano de João Lucas que acompanha Os Amantes, ou a combinação de sintetizadores e percussão berbere em Ao Passar Junto da Vide, para perceber que Janita Salomé estava aqui nos píncaros da criatividade, sem medo de misturar e explorar o que lhe desse na gana, sabendo que a música de raiz tradicional pode continuar a ter as raízes na tradição sem que os ramos se deixem de multiplicar em imprevistas direcções. No fundo, e independentemente das pretensões didácticas que Janita pudesse ter nestes discos do Alentejo árabe, o que fica não é o veredicto etnomusicológico sobre as origens da música alentejana, mas o prazer de ouvir um dos melhores discos feitos em Portugal..

Sei Miguel – Breaker (Ama Romanta, 1988)



sacar

1. Breaker
2. Thirsty?
3. The Mirror
4. Key Blues About Buildings
5. Non-Entity
6. I Never Talk to You
7. Blue Rose
8. Gate

Luis Desirat – bateria
José Ribeiro – baixo eléctrico
Bruno Rascão – guitarra eléctrica
Manuel Veiga – yamaha dx-21
Rodrigo Amado – saxofone alto
Fala Mariam – trombone de varas
Sei Miguel – trompete de bolso

Tal como os restantes discos de Sei Miguel, Breaker foi gravado ao vivo, neste caso no Teatro do Século, Ritz Club e Hot Club em finais de 1987 e inícios de 1988. À falta de registos dos Moeda Noise, a banda com que Sei Miguel começou a fazer música esquisita em Portugal, é por este disco que podemos começar a ouvir o seu percurso. Para mim, que nunca percebi o Sei Miguel, é difícil dizer algo inteligente acerca de Breaker – já seria difícil mesmo se o percebesse. O que salta à vista é que se trata de um disco menos austero que os actuais, com mais chinfrim e muito menos silêncio. A música parece mais amigável – deve ser a bateria do Luis Desirat que marca um ritmo constante (!) em vários temas – enquanto que os trabalhos da última década, pelo menos, exigem que escutemos a música com bastante atenção – o que, com tanta coisa gira a dar na televisão, é quase impraticável. Há também um Manuel Veiga que não sei quem é mas cujo sintetizador cai bem – uns tremolos quase constantes ao longo dos vários temas, a dar-lhes um ar meio fantasmagórico – uma sempre presente Fala Mariam e um Rodrigo Amado naquele que, salvo erro, foi o seu único registo com Sei Miguel. Comparando com os discos pós-Portuguese Man of War, em Breaker tudo parece correr mais solto, mais despreocupado, ainda sem aquela atenção ao pormenor e à precisão que caracterizam as obras posteriores. É um bocado como comparar o sóbrio Sei Miguel da actualidade com o Sei Miguel que salta e dança no videoclip do Querelle, dando o desconto do óbvio exagero.

Uma Nota Sobre o Ruído

A tarefa de digitalizar vinil confronta-nos quase sempre com um dilema: filtrar o ruído e abafar inevitavelmente a música (o que acontece mesmo com o filtro no mínimo) ou não lhe meter filtro e deixar a música como está, mesmo com a relativamente irritante batata frita. Também por aqui se pôs essa questão. Foi um processo doloroso, pautado por lágrimas e noites mal dormidas, que só terminou ao receber um mail de um amigo que salientava o seguinte: “a qualidade do próprio ruído de fundo piora drásticamente com o filtro, e não há nada pior do que um ruído de fundo surdo”. Evidentemente que só havia uma coisa a fazer: os discos que aqui surgirão não têm qualquer filtro anti-ruído, e a batata frita surge neles em toda a sua glória.

Primeiro Dia


Orai pelo pobre vinil preso no limbo dos discos descatalogados, ignorados pelo formato digital, a criar pó nas prateleiras dos coleccionadores. Que a sua música se liberte desse lugar de sombras e ascenda ao conhecimento dos nossos ouvidos. Assim seja.