quinta-feira, 15 de maio de 2014

Orquestra Girassol – Walkin’ / Stolen Moments (Edição de Autor, 1978)

sacar

01. Walkin’
02. Stolen Moments

Tomás Pimentel – trompete
Laurent Filipe – trompete
Gabriel Évora – trompete
José Serro – trombone
Helder Ferreira – trombone
Luis Caldeira – sax alto, flauta
Carlos Bechegas – sax alto
Manuel Garcia – sax tenor, sax soprano
Mário Gramaço – sax tenor
Ana Paula – voz
Armindo Neves – guitarra
Urbano Oliveira – bateria
José Eduardo – contrabaixo

arranjos e direcção de orquestra – José Eduardo


Sim, eu sei que não percebo quase nada de jazz, mas basta passar os olhos pela lista de músicos que tocavam na Orquestra Girassol para perceber que isto não é um disco qualquer: tem Tomás Pimentel, que comandou as secções de metais de todos os discos nacionais de jeito que têm secção de metais; tem Laurent Filipe, trompetista já com pra cima de dez álbuns, ainda que demasiado delicodoces para o meu gosto; tem Carlos Bechegas, que mais tarde trocaria o sax pela flauta e partiria à aventura pela improvisão livre mais esquisita; e a mandar naquela gente toda tem o José Eduardo, da Zé Eduardo Unit, grande pedagogo do jazz e mestre supremo das big bands em Portugal. Aposto que os outros elementos também são tipos importantes, mas não conheço e não me apetece googlar para fingir que conheço.
Se é verdade que “Malpertuis”, de Rão Kyao, foi o primeiro disco de jazz de um músico português editado em Portugal, este single da Orquestra Girassol esteve também entre os pioneiros da edição jazzística, embora já apanhe a Orquestra Girassol, fundada por José Eduardo em 1976, quase no fim da sua breve carreira (terminaria em Setembro de 1978) e a editora Tecla – onde o disco deveria ter saído – também com os pés para a cova, de tal forma que, à ultima da hora, se teve de optar por uma edição de autor. Não vou dizer grande coisa sobre a música porque, a bem dizer, se pouco percebo de jazz ainda menos percebo de big bands (até confesso que acho as big bands um bocado caretas e que prefiro o jazz do xinfrim e da maluqueira).
Posto isto, o que impressiona no single da Orquestra Girassol é, para além da reunião de talentos precoces, o voluntarismo do contrabaixista José Eduardo e do baterista Urbano Oliveira, que trataram de quase tudo, desde a direcção musical à mistura, e a aventura inédita de gravar uma big band em estúdio num país onde ninguém sabia ao certo como se gravava uma big band (ou qualquer formação de jazz) em estúdio. Para além disso, e apesar do impulso recente dado pela criação da escola do Hot Club e da meia dúzia de anos que já levava o Cascais Jazz, verter o jazz para disco em Portugal (mesmo dois standards bem conhecidos como Walkin' e Stolen Moments) era, por assim dizer, um investimento a fundo perdido. Mas neste caso o melhor é dar a palavra a quem sabe da poda e ler o excelente artigo sobre a Orquestra Girassol escrito para o blog Jazz no País do Improviso.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Ocaso Épico – Muito Obrigado (Dansa do Som, 1988)

sacar (ripado das masters originais por Pedro Barrento)

01. Tinto If
02. O Camelo
03. Cafécucerto
04. Da Beira Baixa à Extrema-Dura

05. Adamastor
06. Desoriental
07. Cortar ou Cortar-se

Farinha Master – voz, flauta, sintetizadores, guitarra, percussão electrónica, apitos, vocoder
Pedro Barrento – programação (máquina de ritmo e sequenciador)
Ricardo Machado – ferrinhos, percussões, chapas

Rui Mofreita – sintetizador, voz
Zé Nabo – baixo, coros
Alberto Garcia – bateria, timbalões, pratos 

Rui Fingers – guitarra
Ricardo Camacho – piano
José Carrapato – coros

produção – Zé Nabo

O ripanço de Muito Obrigado já circula há tanto tempo na internet que desde o início do blog me contenho perante a tentação de postar este único álbum dos Ocaso Épico. Mas os anos passam e, enquanto outros discos saltam do vinil para o CD, Muito Obrigado resiste ainda (e sempre?) à reedição, ao ponto de se tornar – talvez a par do LP do Corpo Diplomático – a mais notável lacuna no panorama digital do rock (é como quem diz) feito em Portugal. Confesso que também não me tem entusiasmado a ideia de escrever alguma coisa sobre os Ocaso Épico. Como fazer justiça a um músico – os Ocaso Épico eram, em boa verdade, Farinha Master – que se agigantou tão monstruosamente sobre tudo o que o rodeava enquanto foi vivo?
Acho que a dificuldade de falar sobre os Ocaso Épico, e a razão pela qual o muito que foi dito sobre eles ainda parece acertar um pouco “ao lado”, prende-se com o facto de não terem propriamente integrado esse movimento estético / musical efeverscente (o da chamada “música moderna portuguesa”, c.1986 – 1992) onde o costumam situar, mas antes de se terem constituído como um comentário a essa movimento, como se o Farinha olhasse por cima – e “de lado” - essa irrupção de criatividade desregrada e o surgimento de uma cultura urbana que, em muitos aspectos, era realmente inédita em Portugal. Só que, para mal dos seus pecados, o comentário do Farinha assentou numa intuição que lhe valeu bastantes inimizades junto dos protagonistas dessa movida, embora acerte em cheio no alvo: Tal como ele repetiu inúmeras vezes, “Portugal ainda é um país eminentemente rural” e a nova cultura urbana que emergia nessa altura era, afinal, uma expressão de novo riquismo e de urbanidade saloia feita por miúdos cujos pais tinham chegado da província há pouco mais de vinte anos. Enquanto a maior parte da malta se agrupava em tribos urbanas, cruzava referências musicais nos pregões do Blitz e se deixava fascinar com os alternativas e as vanguardas, o Farinha sorria sardonicamente e garantia que a solução não estava no Bairro Alto mas na macrobiótica e no misticismo oriental.
Claro que isto não se diz assim a seco, principalmente a miudagem que está entusiasmada com o que faz e que, em muitos casos, é realmente talentosa, mas o Farinha disse-o com todas as letras, e o Lado A de Muito Obrigado pergunta mesmo com insistência se vale a pena vir da Beira Baixa para a Estremadura, tentar ser gente da cidade quando se foi educado por gente do campo e se transporta todos os vícios de uma cripto-ruralidade mal resolvida (entre eles a subserviência que inspira o título e a capa do disco). No lado B, o recurso ocasional a sintetizadores planantes não serve para nos sossegar mas antes para garantir que não é pelo misticismo nacionalista que obtemos alguma espécie de redenção (“não há nem haverá o Quinto Império, nenhum mistério”), e que do nosso passado “épico” só guardámos os adamastores que nos mantêm congelados no mesmo sítio. “Cortar ou Cortar-se”, o último tema do disco, encontra o Farinha sem vontade de “esperar por quem deita o tempo a perder”, sugerindo meditação e realinhamento dos chacras como forma de libertação, mas deixa quem não tem propensão para a mística oriental a ver navios.
Não é de certeza à pala dos Ocaso Épico que Portugal vai aprender a sair dos ciclos intermináveis de marasmo e de “crises”, mas a visão do Farinha sobre este país continua – e hoje em dia com perturbadora intensidade – a iluminar os aspetos mais inconfessáveis da nossa paralizante saloice e a apontar alguns caminhos para quem quiser “ver o sol nascer noutro lugar”.

sábado, 15 de março de 2014

Alunos de Música da Cooperativa Ludus - Conversas com Versos (Roda, 19??)

sacar

01. Consulta
02. Pulos
03. Cantilena
04. O Nariz

só a cantar: Helena e Alexandra
a cantar e a tocar: Maria da Graça, Margarida, Inês, Paula, Susana, Maria João
só a tocar: Miguel, Manuel, José Manuel, Fernando Davide

instrumentos: matracas, tamborete, pandeireta, triângulo, pratos, sistro, jogo de sinos soprano, jogo de sinos contralto, metalofone soprano, metalofone contralto, xilofone soprano, xilofone contralto, xilofone baixo, dois timbales, flauta de bisel e guitarra

letras: Maria Alberta Menéres
música e direcção musical: Jorge Constante Pereira

No final dos anos '50, à medida que se avolumavam as dúvidas sobre as virtudes pedagógicas da Mocidade Portuguesa e instituições afins para o são desenvolvimento das criancinhas, um crescente número de pedagogos, escritores e professores começou a explorar as potencialidades da Educação Pela Arte - um movimento internacional que já desde a década de '40 entusiasmava os países ligeiramente mais civilizados da Europa. Em Portugal, foi Calvet de Magalhães o grande impulsionador, ajudando a fundar a Associação Portuguesa de Educação pela Arte ainda em 1956 (com Almada Negreiros, João dos Santos, João de Freitas Branco, etc.) e defendendo infatigavelmente essa causa ao longo das décadas seguintes.
Depois da Fundação Calouste Gulbenkian ter entrado no barco com a criação do Centro de Investigação Pedagógica, Calvet de Magalhães e uma série de educadores, artistas e escritores cria em 1967 a Cooperativa Ludus - Círculo de Realizações para a Infância e a Juventude. À frente das várias secções da Ludus estava gente importante - Glicínia Quartin no Teatro, António Torrado no Cinema e Mário Castrim nos Audiovisuais, por exemplo - mas o que nos interessa para este disco é que, no Núcleo do Norte, quem mandava era Jorge Constante Pereira. Na cidade do Porto, Constante Pereira tinha aprendido música na escola Parnaso (outro projecto educativo arrojado) onde conhecera outro aluno, José Mário Branco, com quem formou a sua primeira banda, os Faithful Boys. Assim, enquanto que os restantes núcleos da Ludus privilegiavam a literatura infantil e a expressão plástica, Constante Pereira pôs, como seria de esperar, as crianças a fazer música. Selecionou quatro poemas do livro que Maria Alberta Menéres tinha acabado de editar (também chamado "Conversas Com Versos"), compôs músicas e fez arranjos para aqueles instrumentos que - por razões que os pedagogos saberão melhor - as crianças estão condenadas a tocar: xilofones, flautas de bisel, pandeiretas, ferrinhos e restante arsenal. O resultado final é decididamente música para crianças, tocada por crianças, mas fica bem claro que quem orientou o processo criativo o fez de forma muito séria. Bem mais lúdico do que as experiências gélidas da disciplina inglesa recentemente documentadas em Classroom Projects, mas ainda longe da abordagem frique e hiper-emocional do famoso The Langley Schools Music Project, a música dos alunos da Ludus parece ter sido concebida e ensaiada com rigor mas, ao mesmo tempo, preservando um espaço para a esponaneidade e informalidade na sua execução. Não é uma sonoridade que toque as fronteiras do exótico, mas aqui e além há umas ousadias mais surpreendentes e, acima de tudo, a escolha dos instrumentos, a austeridade de alguns arranjos e as próprias condições de gravação contribuem para criar um ambiente algo creepy que paira sobre estes quatro temas.
A experiência da Ludus duraria pouco tempo, finando-se, salvo erro, cinco anos depois de começar (o que coloca este disco não datado algures entre 1968 e 1972). Mas os frutos perdurariam: Susana Ralha, aluna da Ludus, fundaria o Bando dos Gambozinos, onde Constante Pereira também teria um papel fundamental e com o qual José Mário Branco também colaborou; Sérgio Godinho estabeleceria uma parceria duradoura com Constante Pereira, nos Amigos do Gaspar, A Árvore dos Patafúrdios, e outros projectos; os mesmos poemas de Maria Alberta Menéres seriam outra vez musicados por Constante Pereira nas Cantigas de Ida e Volta. E quem souber de mais colaborações entre esta gente que o diga, por favor, que é para eu ir completando os meus ficheiros.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Sérgio Godinho – Tema musical do filme “Nós Por Cá Todos Bem” (Diapasão, 1977)


01. Nós Por Cá Todos Bem
02. Coro das Criadas de Servir 

Sérgio Godinho – voz, guitarra, percussão
Zita Duarte – voz (02.)

Hélder Reis – acordeão (01.)
Madalena Leal – coros
Shila – coros

Um ano e meio depois da última postagem, convém ver o que se reeditou entretanto em CD, para não ser processado (um abraço a quem denunciou o post do “Defeitos Especiais”, já agora). Já saiu o CD de “raridades” do Sérgio Godinho? Não, pois não? Então lá vai disto. Na segunda metade dos anos 70, Sérgio Godinho parece ter tomado o gosto às bandas sonoras. Depois de ter composto para Os Demónios de Alcácer Quibir (José Fonseca e Costa) e A Confederação (Luis Galvão Teles) em 1976, contribui com dois temas para a terceira longa metragem de Fernando Lopes, que arrasara com as duas primeiras, Belarmino (1964) e Uma Abelha na Chuva (1971). Entretanto, Lopes tivera o seu interregno revolucionário (quem os não teve?) em que se juntou, por exemplo, ao coletivo que fez As Armas e o Povo. Mas este novo filme, Nós Por Cá Todos Bem, não agradou à crítica nem ao público, que acharam indigesta a linguagem híbrida, entre o documentário, a ficção e a exegese pessoal, com que o realizador explora o quotidiano da aldeia onde nasceu.
Os dois temas compostos para o filme também habitam universos bem diferentes entre si: no primeiro lado, uma canção que, com mais algum trabalho, ocuparia a secção de honra do cancioneiro godinhesco, com o cantor a percorrer em modo de melancolia neo-realista as desgraças da vida rural no Portugal dos anos 70. Virando o disco, é a atriz Zita Duarte que canta (e ocasionalmente declama) um texto de Alexandre O’Neill sobre um arranjo mais espevitado mas melodicamente menos feliz do que o da canção-título (e onde parecem tocar músicos não creditados no disco). O amigo tubo até nos permite ouvir estas canções com as imagens a que foram destinadas, no genérico inicial e numa algo datada (para não ser mau) cena musical – incluindo coreografia algures entre o ballet clássico e a dança jazz. Se alguém souber de outras bandas sonoras do Sérgio Godinho não reeditadas em CD (Kilas o Mau da Fita teve reedição), é favor avisar na caixa dos comentários.

Almanaque – Desfiando Cantigas (EMI, 1984)


















01. Chamarrita (Açores)
02. Cantiga do Entrudo (Beira Baixa)
03. Quadrilha (Douro Litoral)
04. Senhora da Saúde (Beira Alta)
05. Menino Jesus (Algarve)
06. Maia (Minho)
07. Rula-rula (Douro Litoral)
08. Chula (Douro Litoral)
09. Senhora da Rosa (Beira Baixa)
10. Reis (Minho)
11. Cantiga das Casadas (Beira Baixa)
12. Cesaltina (Alentejo)
13. Maruquinhas (Minho)
14. Alvorada (Trás-os-Montes)


Alcino Pacheco (canas), Ana Costa, António Lopes (bombo, caixa), António Prata (violão, bandolim), Celestino Clemente, Cristina Marques, Ester Correia, Fernando Gomes, Isabel Amaral, Isabel Bernardo, João Cavadinhas (violão), João Lima (violão, bombo), José Alberto Sardinha, Luísa Nora, Luísa Prates, Nuno Valente, Olinda Sardinha, Orlanda Baptista, Rita Mendes da Silva (bandolim, banjola, cavaquinho, guitarra portuguesa), Rui Costa, Sérgio Contreiras, Vítor Reino (viola braguesa, harmónio, concertina, flauta de cana, pandeireta), Wanda Sá
+
Miguel Coelho (violino), Paulo Marinho (gaita de foles)

Produção – Almanaque
Arranjos musicais – Vitor Reino
Direcção musical – Vitor Reino e José Alberto Sardinha

Alongar-me por mais de dois parágrafos em discos como este sem possuir um certo grau de erudição é estar mesmo a pedir para ser massacrado pelos musicólogos e etno-especialistas. Por isso, sinto-me tentado a referir os interessados para o texto que o Fernando Magalhães escreveu há uns bons anos, quando “Desfiando Cantigas” foi incluído no livro “Os Melhores Álbuns da Música Popular Portuguesa 1960-1997”, safando-me com isso de procurar termos técnicos na net ou de fazer um crash course em etnomusicologia. Mas não vai dar para não dizer nada, até porque o enigma que é para mim a figura de José Alberto Sardinha – naquela sua mescla de erudição purista, espírito missionário e megalomania a raiar o delírio – não me deixa estar assim tão quieto. O grupo por ele fundado, Almanaque, surge, como se sabe, como reacção contra a bastardização da música tradicional protagonizada pela sua folclorização, e pelo prolongamento dessa “folclorite” pela música ligeira – algo que já vinha bem detrás, quando o Estado Novo, depois de contribuir para o aniquilamento de grande parte da música cantada, tocada e dançada pelo país fora (principalmente a profana), quis cristalizar os seus resquícios em ranchos que a reduziam à versão bilhete postal. Mas, por outro lado, o Almanaque assume-se também como contraponto à apropriação que, principalmente a partir da Brigada Vitor Jara, alguns grupos fizeram da música de raiz popular, fabricando novos arranjos para temas tradicionais e contaminando as suas versões com outras linguagens (o jazz, a música improvisada, as músicas “étnicas” de outras paragens).
A proposta de Sardinha é uma espécie de terceira via: os músicos por ele reunidos no Almanaque pegam nas gravações de campo (gravadas, precisamente, no campo) e procuram reproduzi-las o mais fielmente possível em contexto urbano. À partida, esta abordagem purista parece ter poucas pernas para andar, denunciando mesmo um certo paternalismo para com os rurais, que seriam – tudo leva a crer – bons compositores mas maus executantes: “fabriquemos então aqui em estúdio um simulacro do que recolhemos no terreno, mas agora bem tocado”. Para além disso, a preocupação com as raízes genuínas da música tradicional, com os seus elementos mais autênticos e não contaminados, cai muito mal numa altura em que essa contaminação é celebrada e o próprio conceito de autenticidade é posto em causa. Com semelhantes pressupostos, parece um milagre, afinal, que neste disco (e no anterior) do Almanaque, a música surja tão viva. Longe de uma réplica estéril, ainda que polida e bem gravada, do original, Desfiando Cantigas acaba por ser a prova de que o trabalho de aperfeiçoamento e depuração dos originais “em bruto”, da procura das suas componentes mais autênticas e profundas, seja lá isso o que for, não pode deixar de ser também um trabalho criativo que – mesmo involuntariamente – resulta numa música tão nova quanto a dos grupos “híbridos” que Sardinha procurava contrariar.

sábado, 14 de abril de 2012

José Mário Branco – O Ladrão do Pão (Diapasão, 1979)




sacar

01. Fuga do Mar
02. Quatro Caminhos
03. Ó Ladrão
04. Ritmo Taberna
05. Reminescência I
06. Reminescência II
07. Reminescência III
08. A Madrugada
09. Acorda Padeirinho
10. Final

música – José Mário Branco
letra – Alexandre O’Neill

Quando este blog decide partilhar bandas sonoras, a coisa costuma correr bem. A banda sonora é uma coisa quase pensada para os Discos Com Sono, é aquele disco que, depois de reeditada toda a obra “normal” de um compositor, continua eternamente na gaveta. Para nosso contentamento, a segunda metade dos anos 70 e a primeira dos 80 foi época de produção entusiasta de cinema agora refundidíssimo, bem tingido de pedagogia pós-revolucionária, evoluindo progressivamente para o ressabiamento e o desencanto. É o caso, segundo parece, deste “O Ladrão do Pão”, filme de Noémia Delgado sobre o qual não consegui encontrar outra informação para além de que é inspirado no poema do mesmo nome de Alexandre O’Neill (que era – oh surpresa – marido da própria Noémia).
Independentemente dos eventuais méritos do filme, a escolha da banda sonora parece ter sido certeira. José Mário Branco saíra há pouco do GAC e atravessava agora o deserto de furiosa ressaca pós-PREC que exorcisaria pouco depois na digressão e disco Ser Solidário, e principalmente no famigerado FMI. Para mitigar o ressentimento, dedicou-se neste período à composição de bandas sonoras para filmes (para além deste, grava também a música para A Confederação e Gente do Norte).
Infelizmente, a identidade dos músicos que gravaram O Ladrão do Pão é incógnita e alguns temas registam desempenhos estranhamente inaptos para o que ZMB nos habitou. Para além disso, e tal como acontecia em A Confederação – na verdade, na maioria das bandas sonoras – várias faixas do disco partilham uma estrutura comum. Feitas as contas, é como se o autor tivesse composto dois temas que depois se desdobram em diversas variações, umas cantadas, adaptando o poema de O’Neill, outras instrumentais; umas mais longas, próximas do formato canção, outras meros apontamentos sonoros de poucos segundos. Se bem que contenha alguns fillers – Ritmo Taberna ou Reminescências, por ex – que pouca pertinência têm fora do contexto do filme, o disco justifica-se por inteiro nas canções que o abrem e fecham, e que julgo nunca terem sido regravadas posteriormente: o clima austero e grave de Fuga do Mar e Quatro Caminhos, e o encerramento festivo com Acorda Padeirinho e Final, esta última, ao que parece, cortada nos últimos segundos por se esgotar o tempo disponível no vinil. É que os 10 temas de O Ladrão do Pão foram registados num single, e espremem ao limite a capacidade de um sete polegadas. É sacar sem medos, caros clientes, que vale muito a pena.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Plexus – Paraíso Amanhã (RCA, 1969)



sacar

01. Paraíso Amanhã
02. Uba Budo
03. Waiting
04. Plexus I

Luis Pedro Fonseca – piano, flauta, voz, bateria
Jorge Valente – percussão, voz, efeitos especiais
José Alberto Teixeira Lopes – guitarra acústica, voz, guitarra de 12 cordas
Carlos Zíngaro – violino, violino eléctrico
Celso de Carvalho – violoncelo, violoncelo eléctrico, baixo

supervisão e direcção musical – José Cid e António Moniz Pereira

Se uma das raízes da Banda do Casaco vem da famigerada Filarmónica Fraude, a outra está aqui, neste Plexus, fundado em finais dos anos ’60 por uns ainda imberbes Carlos Zíngaro e Celso de Carvalho. Contando com a presença constante destes dois músicos, a banda foi recebendo e expelindo muitos outros ao longo dos anos. A música, ainda que oscilando por vários géneros conforme os músicos em ação, manteve-se sempre marginal e heterodoxa em relação a quase tudo o que se fazia aqui na parvónia.
Este EP, gravado em 69 e a única coisa editado pelo Plexus, apanha a banda ainda em registo pop, embora mesclada de influências jazzísticas e até de apontamentos de música concreta. Alguns truques ingénuos de estúdio, instrumentos utilizados de forma menos respeitosa (momentos em que o Zíngaro já toca o violino daquela maneira inconfundível), sons pouco convencionais que irrompem de tempos a tempos indicam um gosto pela experimentação que, nos anos 60, era pouco recomendável para qualquer músico que quisesse tocar ou gravar por estas bandas. Mas a “supervisão” de José Cid e Moniz Pereira, cujo objetivo provável era pôr os meninos na ordem, foi até certo ponto foi bem-sucedida. “Waiting” é definitivamente cantarolável, e todo o resto do disco dá para ir batendo o pé no chão. O cruzamento de influências beatlianas e talvez zappianas – coisas que os mais afortunados traziam do estrangeiro – resulta em quatro temas aventurosos mas que, ainda assim, respeitam a integridade neuronal da juventude familiarizada com o pop psicadélico da altura.
Depois do disco, a formação vai-se alterando com a entrada e saída de uma catrefada de gente - Carlos Bechegas, Nelson Portelinha, Paulo Gil, David Gausden, Carlos Alberto Augusto, Rui Neves, Miguel Campina – e a banda alista-se definitivamente nas fileiras da música improvisada e do jazz menos ortodoxo, abandonando as canções. Desse período não ficaram discos gravados, só restam os belíssimos cartazes do Zíngaro a anunciar concertos que ficariam espetaculares nas paredes da minha sala – fiz anos em Março, quem me quiser oferecer um é favor contactar nos comentários.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Ana e Suas Irmãs – Nono Andar (Transmédia, 1988)



sacar

01. Nono Andar (uma Ana)
02. Nono Andar (um instrumental)
03. Nono Andar (outro instrumental)
04. Nono Andar (outra Ana)

música, letra e produção – Nuno Rodrigues

Foram precisos quase quatro anos para este blog se aventurar pelo Festival da Canção, o que me parece um esforço de resistência bastante meritório. E, se não fosse o meu fascínio irracional por cantores anónimos e mascarados, provavelmente este disco nunca viria cá parar. É que, nos idos de 1988, Nuno Rodrigues (ex-Banda do Casaco convertido em compositor para tudo o que era cançonetista ligeiro) teve a inusitada ideia de concorrer ao Festival com uma cantora de mascarilha, de biografia fantasiosa e descaradamente inventada, cuja identidade continua hoje em dia desconhecida (provavelmente porque ninguém está minimamente ralado com isso). A estratégia não foi suficientemente estapafúrdia para ganhar o primeiro lugar, mas resultou neste disco que multiplica o tema original por quatro e nos dá uma boa razão para o tocar – a “outra Ana” que canta a último versão de Nono Andar, e que é a Né Ladeiras. É certo que, se não fosse a Nezinha, não havia muito por onde redimir esta canção mediana. Mas também não há como negar o apelo daquele aroma adocicado, com um ligeiro travo a decomposição, que continua a emanar de certo nacional-cançonetismo dos anos 80. O projecto Ana e Suas Irmãs tentou espremer o que restava desse filão, provavelmente tarde demais; hoje em dia, o máximo a que se pode candidatar é a guilty pleasure daqueles que, quando tudo o resto falha, sabem que podem encontrar consolo no bafiento e nebuloso útero oitentista.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Corpo Diplomático – Música Moderna (Nova, 1979)



sacar

01. Lisboa (Quem Quer Comprar um Ferrari)
02. Televisão
03. Kayatronic
04. Férias
05. Clandestinidade
06. Maria
07. Bombista
08. Amor de Guichet

Falso Alarme [Paulo Pedro Gonçalves] – guitarra, voz
Carlos Maria [Carlos Maria Trindade] – órgão, voz
Choque Eléctrico [Rui Freire] – sintetizador, voz
Dedos Aires [Pedro Ayres Magalhães] – baixo, voz
Flash Gordon [Emanuel Ramalho] – bateria, percussão, voz
Ultravioleta [Carlos Gonçalves] – voz principal

produção – João Henrique e António Sérgio

Clássico entre os clássicos dos discos presos ao vinil, o LP dos Corpo Diplomático continua a fazer correr tinta aos analistas da história rock nacional e a emagrecer os bolsos dos coleccionadores que se esmifram por um exemplar. Não queria usar o irritante adjectivo “meteórico” (até porque me lembra meteorismo, e não me quero lembrar de meteorismo quando oiço os Corpo Diplomático) mas que outra coisa dizer de uma banda que durou pouco mais de um ano, editou um single e um LP, deu dois ou três concertos, e continua a soar como mais nenhuma?
Os Corpo Diplomático surgem em 1979, logo depois de Paulo Pedro Gonçalves e Pedro Ayres Magalhães enterrarem os Faíscas – dizem os compêndios que foi a primeira banda punk portuguesa – e reconverterem a energia crua do punk em electricidade espasmódica new-wave. E o facto é que, actualmente, quem fala sobre Corpo Diplomático quase não tem outro assunto senão sublinhar que mais new wave não podiam ser. Ora, se é verdade que a carapuça lhes serve, há um mar de distância entre este new wave e o de outras bandas que, poucos anos depois, foram assim rotuladas (Táxi, por exemplo) quando seguiram à risca a cartilha dos Blondie ou os riffs mais óbvios dos Talking Heads. Os Corpo Diplomático podiam sê-lo, mas o seu new wave só encontra reflexo no dos Pere Ubu ou dos Devo dos primórdios, ou seja, nas bandas new wave que ainda não sabiam que o eram e que, por isso, encontravam nesse limbo um espaço de liberdade. Se o tempo do rock corresse com alguma lógica, ao álbum do Corpo Diplomático não se teria seguido o boom do rock português, mas a cena da Música Moderna Portuguesa da segunda metade dos ‘80s, que seguiu o mesmo impulso criativo alimentado a claustrofobia e ressentimento.
Não era por acaso que Kayatronic – o mais alienígena e inquietante tema de “Música Moderna” – passava com insistência nos programas de música portuguesa da Rádio Universidade Tejo, entre maquetas dos Melleril de Nembutal e os primeiros discos dos Pop dell’ Arte – era uma invocação dos antepassados mortos, uma tentativa de absorver a gosma cósmica da subversão que uma meia dúzia de tipos com nomes ridículos pusera a circular no éter uma década antes.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Fausto – Guerra do Mirandum (Diapasão, 1984)




sacar

01. Invasão
02. Eu Casei com a Bonita

gravado em 1979 nos estúdios Musicorde (01.) e A.T. (02.)
captação de som de Rui Remígio (01.) e Moreno Pinto (02.)

Coisa das mais misteriosas a passar aqui pelo blog, este single do Fausto não aparece em nenhuma discografia que eu conheça, nem dele tinha ouvido falar até, há poucas semanas, um sujeito de óculos escuros e barbas (provavelmente falsas) mo entregar a meio da noite. Na capa e contracapa, nenhuma informação de jeito para além de que os temas foram gravados cinco anos antes da estreia do filme. Sobre a identidade dos músicos intervenientes, nem uma pista. A única pessoa a falar no assunto é a Né Ladeiras que, em entrevista ao Fernando Magalhães, se lembra de ter gravado com o Fausto dois temas para esta banda sonora: o que ocupa o lado B e ainda “Os Mandamentos do Vinho”. Desconheço se este último chegou a ser editado, mas versões posteriores de ambos surgem em “Atrás dos Tempos Vêm Tempos”, embora desprovidas do contributo ladeiral.
No lado A, Invasão não é propriamente fascinante: um tambor percutido marcialmente, um coro que faz oooh-ooooh e umas cordas sintetizadas sumidas em fundo. É o segundo lado que faz o disco valer a pena. Acompanhada apenas de braguesa e castanholas, a canção é daquelas coisas que o Fausto faz melhor que ninguém, submetendo os ritmos tradicionais portugueses a um enigmático processo que os projecta numa outra esfera a que, à falta de melhor termo, se convencionou chamar (a partir de agora) a dimensão faustiana. Com a Né Ladeiras nos coros, então, o resultado final ainda é mais ofuscante. O som é que não é grande coisa, mas não vale a pena reclamarem muito porque que o disco não está bem gravado. E, sim, é mesmo em mono.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Los Humillados / Rua do Gin / The Barbie Lovers / H.I.S.T. (Grabaciones Góticas / Facadas na Noite, 1990)



sacar

01. Los Humillados – Tormenta Sobre la Piel
02. Rua do Gin – A Casa em Frente
03. The Barbie Lovers – Ultimatum
04. H.I.S.T. - His Nightmare

LOS HUMILLADOS
Artur Rios – voz, teclados, harmónica, guitarra
Ester Subirana – teclados
Javier Carnicer – letra

RUA DO GIN
Tó – voz
Paulo Trindade – guitarra, ritmos
Marinheiro – baixo
Casa das Máquinas – ritmos

THE BARBIE LOVERS
Big Ken – sintetizadores, fita magnética, computador
Kenny B – sintetizadores, fita magnética

H.I.S.T.
Eurico Coelho – voz, ritmos, programas
Abel Raposo – baixo, guitarra
Miguel João – programas, ritmos

Em 1990, o vinil chega para a Facadas na Noite como o prenúncio do fim. A editora bracarense, que até então se dedicara exclusivamente a divulgação da música electrónica/industrial no suporte cassete, alia-se à Grabaciones Góticas, de Barcelona, para produzir um EP com quatro bandas. As bobinas com as gravações das bandas portuguesas são enviadas para Espanha mas perdem-se no caminho (ou são roubadas, dependendo de quem conta a história) e o single acaba por sair com gravações de recurso tiradas de uma cassete manhosa, soando manhosamente a uma maquete gravada na garagem. A odisseia acabaria por ter consequências funestas para a Facadas na Noite, que terminaria pouco depois, e provocaria telenovelescos atritos entre a movida alternativa de Braga.
Suspeito, no entanto, que a qualidade sonora não resgataria este disco para a posteridade, mesmo se as gravações tivessem chegado incólumes ao seu destino. A contribuição dos Rua do Gin (já sem o vocalista Paulo Sombra que cantou/berrou em “Rebeca”) é um evidente downgrade em relação ao tema gravado um ano antes para o À Sombra de Deus; os H.I.S.T., banda que sempre me pareceu chata, continuam na senda da chatice, com as suas programações sem tusa e os seus ritmos martelados; os Los Humillados cantarolam lenta e goticamente sobre as coisas que atormentam as suas góticas almas; só os Barbie Lovers mostram uma ligeiríssima pujança, sobrepondo vocalizações monstruosas a uma base sonora que, aqui e ali, tem algum interesse. Resumindo, um fim inglório para uma editora pioneira que, na cena industrial portuguesa dos anos ‘90, serviria de inspiração para outras aventuras editoriais em cassete por esse país fora (mas nenhuma com um nome tão cool quanto Facadas na Noite).

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Shila – Meu Amor Pequenino (Polygram, 1981)




sacar

01. Conto do “Rei da Noite”
02. Meu Amor Pequenino
03. A Canção do País da Vontade

Shila – voz
Mário Viegas – voz
Sérgio Godinho – voz
João Paulo – piano, órgão
Zé Carrapa – viola, cavaquinho
Zé Martins – bateria, percussão, vibrafone
Luis Duarte – baixo
Luis Caldeira – sopros
Tomás Pimentel – sopros

produção – Shila
direcção musical – Luis Caldeira

A krida Shila deixa-nos aqui com um sabor amargo na boca: ela canta bem, ela escreve as músicas todas, ela até produz o disco, mas não há nada a fazer – é a última coisa que a Shilinha editará até ao presente momento (Shilinha, se estiveres a ler isto, nunca é tarde para voltar). A despedida, no entanto, é em grande. Sob o pretexto de musicar poemas e histórias de António Botto, a Shila produz uma espécie de single conceptual em que o poeta percorre os três temas, quer como autor dos textos quer como sua inspiração. O Conto do Rei da Noite, a abrir, começa como uma história narrada pela Shila, o Sérgio Godinho e o Mário Viegas e descamba rapidamente num reggae marado movido a trompetes e saxofones. No segundo tema, que dá nome ao disco, a bela composição da Shila consegue abafar a pífia letra do Filipe La Féria (que também desenha a pífia capa), e depois o single acaba em grande festa, com a Shila ainda animada com o destino deste país “da vontade” e com a transformação “a dar-se” (em 1981? ó Shila, não me parece...). Os músicos também são do camandro, até tem o João Paulo (Esteves da Silva) que começava aqui a dar os primeiros passos fora do jazz e da música erudita, seguindo logo depois para o Sérgio Godinho, Fausto, etc. Continuo a não compreender como é que sobrevivemos nos últimos 31 anos sem um disco da Shila. Se calhar, é por causa disso que as coisas não andam bem. As petições online parece que estão na berra, proponho uma para exigir novo disco da Shila. Com o Cavaco demitido e um novo disco da Shila púnhamos este país de novo a andar.

Shila – O Burro e o Grão / Papagaio (Diapasão, 1979)




sacar

01. O Burro e o Grão
02. Papagaio

Shila – voz
Júlio Pereira – viola, coros
Rui Reis – piano
Luis Duarte – baixo
Carlinhos Tumbadora – percussão
Sérgio Godinho – coros
Eugénio Melo e Castro – coros

arranjos e direcção musical – Sérgio Godinho

Este single da Shilinha é descendente directo daquele álbum que está lá em baixo, Cantigas de Ida e Volta. Até repete uma canção (Papagaio) que era cantada pelo Fausto no dito LP. Para os shilófilos mais atentos, nota-se que, à medida que os anos avançam, a moça canta cada vez melhor – aquela voz tremeliques com que, 4 anos antes, interpretava a Canção Para Embalar Bonecas Pobres, agora já está bem mais segura e afinada – só sobra a pronúncia. Das canções também não se pode ter razão de queixa. A direcção musical do marido Sérgio assegura que tudo corre sobre rodas, com arranjos semelhantes aos discos que o próprio fazia na altura. No lado A, O Burro e o Grão, tema original do esposo, pretende ensinar à juventude que “a nossa força é a nossa união”. Virando o disco, o Papagaio, de Sidónio Muralha e Jorge Constante Pereira, adverte a miudagem para o perigo de se confiar no dito bicho que, tal como muitas pessoas, “põe no mesmo pé coisas más e coisas boas”. Passados estes anos todos, parece óbvio que esta pedagogia cançonetista falhou miseravelmente nos seus propósitos. Nem a Shila, nem o José Barata Moura, nem o Carlos Alberto Moniz, conseguiram fazer das criancinhas que os ouviam adultos convertidos à democracia popular – a geração que ainda os lembra com uma lágrima no canto do olho sabe que é preciso comer a papa, mas pouco mais do que isso. E, bem vistas as coisas, terá sido grande ideia querer ensinar mais do que isso à miudagem quando os pais delas nem sequer aprenderam a pôr a papa na mesa?

Ode Filípica – Off... (Tesco, 1991)



sacar

01. Time to Hell
02. Língua Morta
03. Ritual of Purity

Pedro Granja
Carlos Matos

A sério que não queria postar um disco horrível depois de meio ano sem postar nada, mas já tinha isto aqui ripado, preparado, e agora vai ter de ser. Os Ode Filípica formaram-se em 1990 em Leiria e, tal como a maioria das bandas tardo-industriais desta época, demonstram bem que o género industrial, se bem que alicerçado em sãos princípios de subversão e sabotagem, demasiado facilmente se tornou um mostruário de poses bacocas e referências estereotipadas e previsíveis. O duo de Leiria sabe-a toda: vozes à mauzão a declamar textos pomposos sobre “suffering, pain and degradation”, bidões percutidos à martelada (what else?), sintetizadores planantes e misteriosos saídos dos filmes da Hammer, e toda a restante panóplia para assustar criancinhas. Tudo isto, diz a banda, gravado no contexto das sessões Ol Facipia Dei, aparentemente uma coboiada mongo-esotérica com sete homens e sete mulheres cujo objectivo é a procura de “sensações nobres”. Mas nada de sexo, dizem eles. Já que era para gravar uma banhada destas mais valia terem aproveitado, digo eu.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Osso Exótico - I (Multinational, 1990)



sacar

01. Osso Exótico
02. The New Stone Age
03. “ “
04. Lunar Circus Maximus

António Forte – percussão
David Maranha – guitarras, baixo, sintetizador, sampler, voz
Bernardo Devlin – voz, harmónica de vidro, sintetizador, sampler
André Maranha – sampler, mesa de mistura

produção e arranjos – Osso Exótico
conselhos e sistema de produção electrónica (?) – Vítor Rua

Dando seguimento à linha de orientação inaugurada no post anterior, os Discos Com Sono afastam-se ainda mais da luz e descem neste post ao inferno do cripto-industrial lusitano, com a primeira e misteriosa edição dos Osso Exótico. Para acentuar o lado subterrâneo de tudo isto, refira-se que o ripanço foi criminosamente roubado ao lovecraftiano blog The Thing on the Doorstep, que parece ter tido acesso a uma cópia deste disco fugidio.
Os Osso Exótico dos primórdios soarão atípicos aos fãs dos prolongados drones que a banda tem produzido nos últimos 15 anos. Mercê da porradaria metálica que António Forte dava nos bidões e da voz de mauzão de Bernardo Devlin, a coisa aproximava-se de uma versão mais contemplativa dos Neubauten ou dos Coil na época Scatology, comportando-se o colectivo ao vivo como uma banda quasi-rock, de guitarras em punho, baquetas na mão, microfone no tripé e outros maneirismos vergonhosamente ultrapassados para quem quer fazer música de vanguarda. Ainda assim, o disco aponta já noutras direcções e esforça-se por escapar ao previsível, abrindo com um instrumental que ocupa todo o lado A e por onde vai desfilando uma imensa panóplia de obscuras intervenções sonoras sobre um motivo em loop quase constante que lembra um comboio em andamento. Virando o disco, o registo muda para canção e o Devlin vocifera acerca da Nova Idade da Pedra ao ritmo de chicotadas e pancadaria metálica. Seguem-se quase dez minutos de guitarras em feedback sobre grilos em alegre cantoria, terminando com mais uma semi-canção que inclui Devlin aos berros + pancadaria em bidões + feedback & distorção.
Mas, se os clichés industriais da voz endemoninhada, percussão metálica e guitarras aos guinchos estão bem presentes, a verdade é que a banda tem o discernimento para fugir ao mau gosto reinante em 99% dos projectos tardo-industriais. A identidade ossoexótica, ainda que algo incipiente, mostra-se já ao mundo como uma unidade de música exploratória que escapa à catalogação fácil e que segue alegremente caminhos novos sem se preocupar demasiado com géneros ou rótulos.
Miguel Santos distribuiu eficazmente o disco pela Europa fora e os Osso Exótico tornam-se uma das primeiras bandas portuguesas com verdadeira (ainda que microscópica) projecção internacional. Dos poucos exemplares que por cá se venderam, nunca vi nenhum. Quem tenha e quiser vender é contactar-me nos comentários, pago o que quiserem até 10 euros.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Poke – Digitalmente Afectivo / Flip-Flop (Transmédia, 1984)



sacar

01. Digitalmente Afectivo
02. Flip-Flop

Ricardo – voz, vocoder, Roland electronic piano, JX-3P, Juno-6, Jupiter-8
Quico – Roland MC-4 microcomposer, Jupiter-8, Jupiter-6, Juno-6, JX-3P, TR-606 drum machine, TR-909 drum machine, Simmons+MC-4, SH-101, SH-2+MC-4, voz

produção –Quico e Nuno Rodrigues

A caixa de correio deste vosso blog tem sido invadida por centenas de emails protestando contra a toada mainstream dos últimos discos e exigindo material altamente refundido. Tentaremos corresponder analisando, em primeiro lugar, este singular fonograma dos Poke, banda que durou pouco mais de um ano e caiu entretanto no esquecimento.
Os Poke eram dois manos, Quico e Ricardo Serrano, que viviam no Porto e amavam a tecnologia de ponta. Para eles, o admirável mundo novo dos anos 80 erguia-se sobre duas pedras basilares: a música electrónica e o ZX Spectrum. Partindo da proximidade emocional que, nessa época, boa parte da juventude tinha com o ZX Spectrum, o lado A reflecte sobre a questão das relações afectivas entre homem e máquina, lamentando a pouco afectividade do computador. O lado B debruça-se sobre questões do foro íntimo dos manos Serrano que, sinceramente, não compreendo bem.
Aparte a dimensão filosófica, o disco surpreende pelo domínio da tecnologia digital e pela manipulação desenvolta de botões (é olhar para a quantidade de equipamento creditado a cada mano), surgindo como um sucedâneo da electrónica pós-funk de sumidades como Herbie Hankock (impossível não recordar Rockit ao ouvir aqueles vocoders) ou os Yellow Magic Orchestra.
Quico e Ricardo extinguiram os Poke pouco depois deste disco, e lançaram-se em colaborações múltiplas no meio portuense, desde os Ban aos Três Tristes Tigres e ao primeiro disco de Pedro Abrunhosa e os Bandemónio, deixando para trás aquele que é, provavelmente, o único disco português ao som do qual se pode dançar breakdance.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Anamar - Almanave (Polygram, 1987)



sacar

01. Canção do Mar
02. Sabe-se Lá
03. Céu da Gente
04. Ana Ai Maria
05. Homem
06. Animal
07. Maçadeiras
08. Tudo Dar

Anamar – voz
Emanuel Ramalho – bateria, percussões, programação rítmica, efeitos especiais
Nuno Rebelo – guitarras eléctrica e acústica
José Tó Aguiar – guitarra baixo
José Casanova – guitarra portuguesa (01.), guitarra acústica (03.)
Paulo Jorge – guitarra portuguesa (02.)
Ziegfried Zung – acordeão (01.)
Vasco Pimentel – sons naturais (08.)

produção
Emanuel Ramalho e Jorge Barata

Ainda hoje não sei ao certo o que é que, nos finais dos anos 80, era tão imperdoável na Anamar aos olhos da crítica bem pensante deste país: seria a postura de mulher fatal numa terra que idolatra virgens ofendidas? A lata de cantar no Coliseu logo depois de gravar o primeiro álbum? As vezes que recusara entrada no Frágil quando era lá porteira? A voz que não estava fadisticamente colocada e afinada nos meios-tons da praxe? Passados estes anos todos, uma coisa parece evidente. A campanha que moveram para acabar com a carreira da Anamar foi um dos pontos culminantes na história da filhadaputice luso-musical do século XX. E o mais desgraçadamente curioso é que as coisas não parecem ter mudado assim tanto. Hoje em dia, os críticos babam-se com a quadragésima nova amália que vem ganir fadunchos de olhos mortiços e tez deslavada, enquanto as gajas que quiseram dar à música a sua própria e singular reviravolta imploram para gravar um disco por década (não, não me estou a referir a Deolindas, Clãs, Gifts e outros trampuns).
Após esta amarga e rabugenta introdução (desculpem mas, escrevendo isto em dia de eleições, não havia como escapar), chega-se ao lado luminoso deste post: sete grandes malhas (descontando a pouco feliz versão do tradicional Maçadeiras), abrindo logo com dois fados devidamente adulterados e vertidos em formato pop, seguindo por composições da própria Anamar e dos restantes músicos que culminam no fantasmagórico Tudo Dar, tudo condimentado com os talentos de Emanuel Ramalho e Nuno Rebelo (que já trabalhara no excelente MX-S Amar por Amar, lançado um ano antes pela Ama Romanta). O produto final ilustra bem a faceta mais memorável da música pop que nessa altura se fazia por cá: caldeirada descomplexada de géneros díspares ou aparentemente contraditórios, com uma pitada bem medida de provocação para dar um refogado onde já não nos lembramos dos ingredientes iniciais mas resfolegamos de júbilo no caldo mutante que esse processo destilou. Está bem que ela canta sem saber cantar como deve ser, que tem o nariz mais empinado do que o costume, que esperneia e esbraceja mais do que estamos habituados; mas caramba, num país de tímidos como este, não será disso que andamos a precisar?

domingo, 24 de abril de 2011

Júlio Pereira – Nordeste / Vira Cavaquinho (Diapasão, 1983)



sacar

01. Nordeste
02. Vira Cavaquinho

Júlio Pereira
Carlos Zíngaro
José Marreiros
João Seixas
Amélia Muge

arranjos, direcção musical, produção – Júlio Pereira

O Júlio Pereira tem-me pago bem para lhe resgatar os discos não reeditados em CD, e hoje vai este single gravado, julgo eu, na mesma altura do álbum Braguesa (já podes pôr o cheque no correio, Júlio). A época era de sucesso juliopereirino, depois do êxito do Cavaquinho e da sequela, o tal Braguesa, álbuns didáticos e bem planeados, em que os ditos instrumentos são virtuosamente esgrimidos pelo nosso hirsuto multi-instrumentista. Guardo-lhes bastante reservas, porque me parecem chatos pra burro, mas essa é outra história. Este single, e é disso que se trata aqui, revela duas facetas do Júlio: essa, a ligeiramente aborrecida, no mais que previsível Vira Cavaquinho, e a surpreendente, inventiva e pulirante, no óptimo Nordeste. E é aí, no lado A deste single, que apetece ficar: no inconfundível violino do Carlos Zíngaro, nas percussões que abrem o tema, no arranjo perfeito do mestre Júlio, e na voz fresquíssima da Amélia Muge, que aqui (ou no último tema do Braguesa, não sei qual saiu primeiro) se estreia a cantar em disco e, como se isso não bastasse, posa com grande charme para a fotografia da contracapa. Belas botas, Amélia!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

V.A. – À Sombra de Deus (Câmara Municipal de Braga, 1989)



sacar

01. Rongwrong – Estranho Prazer
02. Pai Melga – Protesto do Diabo
03. Orfeu Rebelde – Através dos Tempos
04. Os Gnomos – Destino
05. Bateau Lavoir – Até um Dia
06. Baile de Baden-Baden – Chuva de Verão
07. Rua do Gin – Rebeca
08. Mão Morta – 1º de Novembro

idealização e organização – Adolfo Luxúria Canibal, Berto Borges
produção – M. Leite (01.); Pai Melga (02.); Orfeu Rebelde (03.); Os Gnomos, Bula (04.); Bateau Lavoir (05.); Baile de Baden-Baden (06.); Rua do Gin, Bula (07); Mão Morta, Bula (08.)

Vinte e dois anos passados sobre os acontecimentos, é difícil conceber hoje a vaga sensação de exotismo que era ouvir falar na capital de uma vigorosa cena de música moderna em Braga. Braga, toda a gente o sabia, era um sítio lá para cima cheio de padres e incenso, em que a juventude de bochechas rosadas e cérebros iletrados pouco mais fazia do que guiar carros de bois. E, contudo, os Mão Morta deitavam abaixo o RRV de cada vez que lá passavam, os Rongwrong e os Bateau Lavoir rodavam com insistência na Rádio Universidade Tejo, e dizia-se que ainda mais bandas havia lá para o Minho a fazer barulho como deve ser. Era coisa nunca vista, e o fenómeno tinha de ficar registado de alguma forma. O Adolfo Luxúria Canibal e o Berto Borges (baterista dos Rongwrong) aproveitaram o hype e tentaram convencer a Câmara a pagar e editar um disco com aquela malta, coisa que, nos idos de 1989, era bem mais difícil de fazer do que agora. Correu bem, pelos vistos, porque ainda houve volume dois e volume três de À Sombra de Deus, editados em CD já nos anos '90 e '00.
O disco começa em alta, com os Rongwrong a musicarem e interpretarem uma letra luxuriocanibalesca, numa canção que fica poucos furos abaixo de Sombra Veloz. Depois a coisa descamba, com dose tripla de urbano-depressão adolescente e mal amanhada (“encontrei uma mansão sombria onde jazia um corpo mutilado”, etc.), que se prolonga até ao final do lado A. Virando o disco, a festa volta a animar. Os Bateau Lavoir casam o cinzentismo oitentista com uma secção de metais à la Radar Kadafi, e produzem uma óptima canção que até resiste a um vocalista pouco inspirado. Os Baile de Baden-Baden bombardeiam-nos com camadas de guitarras em distorção numa saudável aventura sónico-janada, e os Rua do Gin dão-nos provavelmente o melhor tema do disco e de certeza o mais surpreendente – até porque ninguém ouvira falar neles até então. A caixa de ritmos semi-industrial, o vocalista a rebentar as cordas vocais, as voltas imprevistas das guitarras, tudo bem feito. E acaba-se, evidentemente, com Mão Morta (a única banda incluída em todos os 3 volumes da compilação), numa versão bem poderosa, ainda que percutida electronicamente, do clássico 1º de Novembro.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Luis Madureira – O Teu Amor Sou Eu (Fundação Atlântica, 1984)



sacar

01. O Teu Amor Sou Eu (solo)
02. O Teu Amor Sou Eu (dueto com Anamar)

Luis Madureira – voz
Anamar – voz (.02)
Pedro Ayres Magalhães – guitarras, programação de ritmos
António Emiliano – piano, sintetizador

produção – Pedro Ayres Magalhães

Eu sei o que vocês estão a pensar: A capa é horrível mas lá dentro deve estar um tesouro musical esquecido, uma obscura pérola agora resgatada das brumas do tempo, uma centelha de criatividade eighties que vamos samplar semi-ironicamente e incluir em meia dúzia de mixtapes. Pois era. Só que, para além da capa ser horrível, a música é chata pra burro, o meu exemplar do disco está todo avacalhado e o ripanço ficou uma merda. Se, mesmo assim, quiserem saber quem é o Luis Madureira, eu digo o que sei: É um senhor com larga e respeitada carreira no canto lírico, que nesta altura era professor de canto da Anamar (vá, parem lá com as piadas) e que, já nos anos 90, editou um CD com canções do Boris Vian. Neste disco, a malta da Fundação faz o que tem a fazer: o Miguel Esteves Cardoso adapta a letra para Português (a canção é um original de Irving Berlin), o Pedro Ayres produz e toca guitarra, e o António Emiliano tecla na pianola. A canção é tipo as coisas que o Manuel João canta nos Corações de Atum, mas sem ter piada. E pronto, queriam mais Fundação Atlântica, não era? Agora aguentem-se.