Domingo, 26 de Fevereiro de 2012

Corpo Diplomático – Música Moderna (Nova, 1979)



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01. Lisboa (Quem Quer Comprar um Ferrari)
02. Televisão
03. Kayatronic
04. Férias
05. Clandestinidade
06. Maria
07. Bombista
08. Amor de Guichet

Falso Alarme [Paulo Pedro Gonçalves] – guitarra, voz
Carlos Maria [Carlos Maria Trindade] – órgão, voz
Choque Eléctrico [Rui Freire] – sintetizador, voz
Dedos Aires [Pedro Ayres Magalhães] – baixo, voz
Flash Gordon [Emanuel Ramalho] – bateria, percussão, voz
Ultravioleta [Carlos Gonçalves] – voz principal

produção – João Henrique e António Sérgio

Clássico entre os clássicos dos discos presos ao vinil, o LP dos Corpo Diplomático continua a fazer correr tinta aos analistas da história rock nacional e a emagrecer os bolsos dos coleccionadores que se esmifram por um exemplar. Não queria usar o irritante adjectivo “meteórico” (até porque me lembra meteorismo, e não me quero lembrar de meteorismo quando oiço os Corpo Diplomático) mas que outra coisa dizer de uma banda que durou pouco mais de um ano, editou um single e um LP, deu dois ou três concertos, e continua a soar como mais nenhuma?
Os Corpo Diplomático surgem em 1979, logo depois de Paulo Pedro Gonçalves e Pedro Ayres Magalhães enterrarem os Faíscas – dizem os compêndios que foi a primeira banda punk portuguesa – e reconverterem a energia crua do punk em electricidade espasmódica new-wave. E o facto é que, actualmente, quem fala sobre Corpo Diplomático quase não tem outro assunto senão sublinhar que mais new wave não podiam ser. Ora, se é verdade que a carapuça lhes serve, há um mar de distância entre este new wave e o de outras bandas que, poucos anos depois, foram assim rotuladas (Táxi, por exemplo) quando seguiram à risca a cartilha dos Blondie ou os riffs mais óbvios dos Talking Heads. Os Corpo Diplomático podiam sê-lo, mas o seu new wave só encontra reflexo no dos Pere Ubu ou dos Devo dos primórdios, ou seja, nas bandas new wave que ainda não sabiam que o eram e que, por isso, encontravam nesse limbo um espaço de liberdade. Se o tempo do rock corresse com alguma lógica, ao álbum do Corpo Diplomático não se teria seguido o boom do rock português, mas a cena da Música Moderna Portuguesa da segunda metade dos ‘80s, que seguiu o mesmo impulso criativo alimentado a claustrofobia e ressentimento.
Não era por acaso que Kayatronic – o mais alienígena e inquietante tema de “Música Moderna” – passava com insistência nos programas de música portuguesa da Rádio Universidade Tejo, entre maquetas dos Melleril de Nembutal e os primeiros discos dos Pop dell’ Arte – era uma invocação dos antepassados mortos, uma tentativa de absorver a gosma cósmica da subversão que uma meia dúzia de tipos com nomes ridículos pusera a circular no éter uma década antes.

Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012

Fausto – Guerra do Mirandum (Diapasão, 1984)



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01. Invasão
02. Eu Casei com a Bonita

gravado em 1979 nos estúdios Musicorde (01.) e A.T. (02.)
captação de som de Rui Remígio (01.) e Moreno Pinto (02.)

Coisa das mais misteriosas a passar aqui pelo blog, este single do Fausto não aparece em nenhuma discografia que eu conheça, nem dele tinha ouvido falar até, há poucas semanas, um sujeito de óculos escuros e barbas (provavelmente falsas) mo entregar a meio da noite. Na capa e contracapa, nenhuma informação de jeito para além de que os temas foram gravados cinco anos antes da estreia do filme. Sobre a identidade dos músicos intervenientes, nem uma pista. A única pessoa a falar no assunto é a Né Ladeiras que, em entrevista ao Fernando Magalhães, se lembra de ter gravado com o Fausto dois temas para esta banda sonora: o que ocupa o lado B e ainda “Os Mandamentos do Vinho”. Desconheço se este último chegou a ser editado, mas versões posteriores de ambos surgem em “Atrás dos Tempos Vêm Tempos”, embora desprovidas do contributo ladeiral.
No lado A, Invasão não é propriamente fascinante: um tambor percutido marcialmente, um coro que faz oooh-ooooh e umas cordas sintetizadas sumidas em fundo. É o segundo lado que faz o disco valer a pena. Acompanhada apenas de braguesa e castanholas, a canção é daquelas coisas que o Fausto faz melhor que ninguém, submetendo os ritmos tradicionais portugueses a um enigmático processo que os projecta numa outra esfera a que, à falta de melhor termo, se convencionou chamar (a partir de agora) a dimensão faustiana. Com a Né Ladeiras nos coros, então, o resultado final ainda é mais ofuscante. O som é que não é grande coisa, mas não vale a pena reclamarem muito porque que o disco não está bem gravado. E, sim, é mesmo em mono.

Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

Los Humillados / Rua do Gin / The Barbie Lovers / H.I.S.T. (Grabaciones Góticas / Facadas na Noite, 1990)



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01. Los Humillados – Tormenta Sobre la Piel
02. Rua do Gin – A Casa em Frente
03. The Barbie Lovers – Ultimatum
04. H.I.S.T. - His Nightmare

LOS HUMILLADOS
Artur Rios – voz, teclados, harmónica, guitarra
Ester Subirana – teclados
Javier Carnicer – letra

RUA DO GIN
Tó – voz
Paulo Trindade – guitarra, ritmos
Marinheiro – baixo
Casa das Máquinas – ritmos

THE BARBIE LOVERS
Big Ken – sintetizadores, fita magnética, computador
Kenny B – sintetizadores, fita magnética

H.I.S.T.
Eurico Coelho – voz, ritmos, programas
Abel Raposo – baixo, guitarra
Miguel João – programas, ritmos

Em 1990, o vinil chega para a Facadas na Noite como o prenúncio do fim. A editora bracarense, que até então se dedicara exclusivamente a divulgação da música electrónica/industrial no suporte cassete, alia-se à Grabaciones Góticas, de Barcelona, para produzir um EP com quatro bandas. As bobinas com as gravações das bandas portuguesas são enviadas para Espanha mas perdem-se no caminho (ou são roubadas, dependendo de quem conta a história) e o single acaba por sair com gravações de recurso tiradas de uma cassete manhosa, soando manhosamente a uma maquete gravada na garagem. A odisseia acabaria por ter consequências funestas para a Facadas na Noite, que terminaria pouco depois, e provocaria telenovelescos atritos entre a movida alternativa de Braga.
Suspeito, no entanto, que a qualidade sonora não resgataria este disco para a posteridade, mesmo se as gravações tivessem chegado incólumes ao seu destino. A contribuição dos Rua do Gin (já sem o vocalista Paulo Sombra que cantou/berrou em “Rebeca”) é um evidente downgrade em relação ao tema gravado um ano antes para o À Sombra de Deus; os H.I.S.T., banda que sempre me pareceu chata, continuam na senda da chatice, com as suas programações sem tusa e os seus ritmos martelados; os Los Humillados cantarolam lenta e goticamente sobre as coisas que atormentam as suas góticas almas; só os Barbie Lovers mostram uma ligeiríssima pujança, sobrepondo vocalizações monstruosas a uma base sonora que, aqui e ali, tem algum interesse. Resumindo, um fim inglório para uma editora pioneira que, na cena industrial portuguesa dos anos ‘90, serviria de inspiração para outras aventuras editoriais em cassete por esse país fora (mas nenhuma com um nome tão cool quanto Facadas na Noite).

Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

Shila – Meu Amor Pequenino (Polygram, 1981)



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01. Conto do “Rei da Noite”
02. Meu Amor Pequenino
03. A Canção do País da Vontade

Shila – voz
Mário Viegas – voz
Sérgio Godinho – voz
João Paulo – piano, órgão
Zé Carrapa – viola, cavaquinho
Zé Martins – bateria, percussão, vibrafone
Luis Duarte – baixo
Luis Caldeira – sopros
Tomás Pimentel – sopros

produção – Shila
direcção musical – Luis Caldeira

A krida Shila deixa-nos aqui com um sabor amargo na boca: ela canta bem, ela escreve as músicas todas, ela até produz o disco, mas não há nada a fazer – é a última coisa que a Shilinha editará até ao presente momento (Shilinha, se estiveres a ler isto, nunca é tarde para voltar). A despedida, no entanto, é em grande. Sob o pretexto de musicar poemas e histórias de António Botto, a Shila produz uma espécie de single conceptual em que o poeta percorre os três temas, quer como autor dos textos quer como sua inspiração. O Conto do Rei da Noite, a abrir, começa como uma história narrada pela Shila, o Sérgio Godinho e o Mário Viegas e descamba rapidamente num reggae marado movido a trompetes e saxofones. No segundo tema, que dá nome ao disco, a bela composição da Shila consegue abafar a pífia letra do Filipe La Féria (que também desenha a pífia capa), e depois o single acaba em grande festa, com a Shila ainda animada com o destino deste país “da vontade” e com a transformação “a dar-se” (em 1981? ó Shila, não me parece...). Os músicos também são do camandro, até tem o João Paulo (Esteves da Silva) que começava aqui a dar os primeiros passos fora do jazz e da música erudita, seguindo logo depois para o Sérgio Godinho, Fausto, etc. Continuo a não compreender como é que sobrevivemos nos últimos 31 anos sem um disco da Shila. Se calhar, é por causa disso que as coisas não andam bem. As petições online parece que estão na berra, proponho uma para exigir novo disco da Shila. Com o Cavaco demitido e um novo disco da Shila púnhamos este país de novo a andar.

Shila – O Burro e o Grão / Papagaio (Diapasão, 1979)



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01. O Burro e o Grão
02. Papagaio

Shila – voz
Júlio Pereira – viola, coros
Rui Reis – piano
Luis Duarte – baixo
Carlinhos Tumbadora – percussão
Sérgio Godinho – coros
Eugénio Melo e Castro – coros

arranjos e direcção musical – Sérgio Godinho

Este single da Shilinha é descendente directo daquele álbum que está lá em baixo, Cantigas de Ida e Volta. Até repete uma canção (Papagaio) que era cantada pelo Fausto no dito LP. Para os shilófilos mais atentos, nota-se que, à medida que os anos avançam, a moça canta cada vez melhor – aquela voz tremeliques com que, 4 anos antes, interpretava a Canção Para Embalar Bonecas Pobres, agora já está bem mais segura e afinada – só sobra a pronúncia. Das canções também não se pode ter razão de queixa. A direcção musical do marido Sérgio assegura que tudo corre sobre rodas, com arranjos semelhantes aos discos que o próprio fazia na altura. No lado A, O Burro e o Grão, tema original do esposo, pretende ensinar à juventude que “a nossa força é a nossa união”. Virando o disco, o Papagaio, de Sidónio Muralha e Jorge Constante Pereira, adverte a miudagem para o perigo de se confiar no dito bicho que, tal como muitas pessoas, “põe no mesmo pé coisas más e coisas boas”. Passados estes anos todos, parece óbvio que esta pedagogia cançonetista falhou miseravelmente nos seus propósitos. Nem a Shila, nem o José Barata Moura, nem o Carlos Alberto Moniz, conseguiram fazer das criancinhas que os ouviam adultos convertidos à democracia popular – a geração que ainda os lembra com uma lágrima no canto do olho sabe que é preciso comer a papa, mas pouco mais do que isso. E, bem vistas as coisas, terá sido grande ideia querer ensinar mais do que isso à miudagem quando os pais delas nem sequer aprenderam a pôr a papa na mesa?

Ode Filípica – Off... (Tesco, 1991)



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01. Time to Hell
02. Língua Morta
03. Ritual of Purity

Pedro Granja
Carlos Matos

A sério que não queria postar um disco horrível depois de meio ano sem postar nada, mas já tinha isto aqui ripado, preparado, e agora vai ter de ser. Os Ode Filípica formaram-se em 1990 em Leiria e, tal como a maioria das bandas tardo-industriais desta época, demonstram bem que o género industrial, se bem que alicerçado em sãos princípios de subversão e sabotagem, demasiado facilmente se tornou um mostruário de poses bacocas e referências estereotipadas e previsíveis. O duo de Leiria sabe-a toda: vozes à mauzão a declamar textos pomposos sobre “suffering, pain and degradation”, bidões percutidos à martelada (what else?), sintetizadores planantes e misteriosos saídos dos filmes da Hammer, e toda a restante panóplia para assustar criancinhas. Tudo isto, diz a banda, gravado no contexto das sessões Ol Facipia Dei, aparentemente uma coboiada mongo-esotérica com sete homens e sete mulheres cujo objectivo é a procura de “sensações nobres”. Mas nada de sexo, dizem eles. Já que era para gravar uma banhada destas mais valia terem aproveitado, digo eu.

Quinta-feira, 14 de Julho de 2011

Osso Exótico - I (Multinational, 1990)



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01. Osso Exótico
02. The New Stone Age
03. “ “
04. Lunar Circus Maximus

António Forte – percussão
David Maranha – guitarras, baixo, sintetizador, sampler, voz
Bernardo Devlin – voz, harmónica de vidro, sintetizador, sampler
André Maranha – sampler, mesa de mistura

produção e arranjos – Osso Exótico
conselhos e sistema de produção electrónica (?) – Vítor Rua

Dando seguimento à linha de orientação inaugurada no post anterior, os Discos Com Sono afastam-se ainda mais da luz e descem neste post ao inferno do cripto-industrial lusitano, com a primeira e misteriosa edição dos Osso Exótico. Para acentuar o lado subterrâneo de tudo isto, refira-se que o ripanço foi criminosamente roubado ao lovecraftiano blog The Thing on the Doorstep, que parece ter tido acesso a uma cópia deste disco fugidio.
Os Osso Exótico dos primórdios soarão atípicos aos fãs dos prolongados drones que a banda tem produzido nos últimos 15 anos. Mercê da porradaria metálica que António Forte dava nos bidões e da voz de mauzão de Bernardo Devlin, a coisa aproximava-se de uma versão mais contemplativa dos Neubauten ou dos Coil na época Scatology, comportando-se o colectivo ao vivo como uma banda quasi-rock, de guitarras em punho, baquetas na mão, microfone no tripé e outros maneirismos vergonhosamente ultrapassados para quem quer fazer música de vanguarda. Ainda assim, o disco aponta já noutras direcções e esforça-se por escapar ao previsível, abrindo com um instrumental que ocupa todo o lado A e por onde vai desfilando uma imensa panóplia de obscuras intervenções sonoras sobre um motivo em loop quase constante que lembra um comboio em andamento. Virando o disco, o registo muda para canção e o Devlin vocifera acerca da Nova Idade da Pedra ao ritmo de chicotadas e pancadaria metálica. Seguem-se quase dez minutos de guitarras em feedback sobre grilos em alegre cantoria, terminando com mais uma semi-canção que inclui Devlin aos berros + pancadaria em bidões + feedback & distorção.
Mas, se os clichés industriais da voz endemoninhada, percussão metálica e guitarras aos guinchos estão bem presentes, a verdade é que a banda tem o discernimento para fugir ao mau gosto reinante em 99% dos projectos tardo-industriais. A identidade ossoexótica, ainda que algo incipiente, mostra-se já ao mundo como uma unidade de música exploratória que escapa à catalogação fácil e que segue alegremente caminhos novos sem se preocupar demasiado com géneros ou rótulos.
Miguel Santos distribuiu eficazmente o disco pela Europa fora e os Osso Exótico tornam-se uma das primeiras bandas portuguesas com verdadeira (ainda que microscópica) projecção internacional. Dos poucos exemplares que por cá se venderam, nunca vi nenhum. Quem tenha e quiser vender é contactar-me nos comentários, pago o que quiserem até 10 euros.

Quinta-feira, 7 de Julho de 2011

Poke – Digitalmente Afectivo / Flip-Flop (Transmédia, 1984)



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01. Digitalmente Afectivo
02. Flip-Flop

Ricardo – voz, vocoder, Roland electronic piano, JX-3P, Juno-6, Jupiter-8
Quico – Roland MC-4 microcomposer, Jupiter-8, Jupiter-6, Juno-6, JX-3P, TR-606 drum machine, TR-909 drum machine, Simmons+MC-4, SH-101, SH-2+MC-4, voz

produção –Quico e Nuno Rodrigues

A caixa de correio deste vosso blog tem sido invadida por centenas de emails protestando contra a toada mainstream dos últimos discos e exigindo material altamente refundido. Tentaremos corresponder analisando, em primeiro lugar, este singular fonograma dos Poke, banda que durou pouco mais de um ano e caiu entretanto no esquecimento.
Os Poke eram dois manos, Quico e Ricardo Serrano, que viviam no Porto e amavam a tecnologia de ponta. Para eles, o admirável mundo novo dos anos 80 erguia-se sobre duas pedras basilares: a música electrónica e o ZX Spectrum. Partindo da proximidade emocional que, nessa época, boa parte da juventude tinha com o ZX Spectrum, o lado A reflecte sobre a questão das relações afectivas entre homem e máquina, lamentando a pouco afectividade do computador. O lado B debruça-se sobre questões do foro íntimo dos manos Serrano que, sinceramente, não compreendo bem.
Aparte a dimensão filosófica, o disco surpreende pelo domínio da tecnologia digital e pela manipulação desenvolta de botões (é olhar para a quantidade de equipamento creditado a cada mano), surgindo como um sucedâneo da electrónica pós-funk de sumidades como Herbie Hankock (impossível não recordar Rockit ao ouvir aqueles vocoders) ou os Yellow Magic Orchestra.
Quico e Ricardo extinguiram os Poke pouco depois deste disco, e lançaram-se em colaborações múltiplas no meio portuense, desde os Ban aos Três Tristes Tigres e ao primeiro disco de Pedro Abrunhosa e os Bandemónio, deixando para trás aquele que é, provavelmente, o único disco português ao som do qual se pode dançar breakdance.

Segunda-feira, 6 de Junho de 2011

Anamar - Almanave (Polygram, 1987)



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01. Canção do Mar
02. Sabe-se Lá
03. Céu da Gente
04. Ana Ai Maria
05. Homem
06. Animal
07. Maçadeiras
08. Tudo Dar

Anamar – voz
Emanuel Ramalho – bateria, percussões, programação rítmica, efeitos especiais
Nuno Rebelo – guitarras eléctrica e acústica
José Tó Aguiar – guitarra baixo
José Casanova – guitarra portuguesa (01.), guitarra acústica (03.)
Paulo Jorge – guitarra portuguesa (02.)
Ziegfried Zung – acordeão (01.)
Vasco Pimentel – sons naturais (08.)

produção
Emanuel Ramalho e Jorge Barata

Ainda hoje não sei ao certo o que é que, nos finais dos anos 80, era tão imperdoável na Anamar aos olhos da crítica bem pensante deste país: seria a postura de mulher fatal numa terra que idolatra virgens ofendidas? A lata de cantar no Coliseu logo depois de gravar o primeiro álbum? As vezes que recusara entrada no Frágil quando era lá porteira? A voz que não estava fadisticamente colocada e afinada nos meios-tons da praxe? Passados estes anos todos, uma coisa parece evidente. A campanha que moveram para acabar com a carreira da Anamar foi um dos pontos culminantes na história da filhadaputice luso-musical do século XX. E o mais desgraçadamente curioso é que as coisas não parecem ter mudado assim tanto. Hoje em dia, os críticos babam-se com a quadragésima nova amália que vem ganir fadunchos de olhos mortiços e tez deslavada, enquanto as gajas que quiseram dar à música a sua própria e singular reviravolta imploram para gravar um disco por década (não, não me estou a referir a Deolindas, Clãs, Gifts e outros trampuns).
Após esta amarga e rabugenta introdução (desculpem mas, escrevendo isto em dia de eleições, não havia como escapar), chega-se ao lado luminoso deste post: sete grandes malhas (descontando a pouco feliz versão do tradicional Maçadeiras), abrindo logo com dois fados devidamente adulterados e vertidos em formato pop, seguindo por composições da própria Anamar e dos restantes músicos que culminam no fantasmagórico Tudo Dar, tudo condimentado com os talentos de Emanuel Ramalho e Nuno Rebelo (que já trabalhara no excelente MX-S Amar por Amar, lançado um ano antes pela Ama Romanta). O produto final ilustra bem a faceta mais memorável da música pop que nessa altura se fazia por cá: caldeirada descomplexada de géneros díspares ou aparentemente contraditórios, com uma pitada bem medida de provocação para dar um refogado onde já não nos lembramos dos ingredientes iniciais mas resfolegamos de júbilo no caldo mutante que esse processo destilou. Está bem que ela canta sem saber cantar como deve ser, que tem o nariz mais empinado do que o costume, que esperneia e esbraceja mais do que estamos habituados; mas caramba, num país de tímidos como este, não será disso que andamos a precisar?

Domingo, 24 de Abril de 2011

Júlio Pereira – Nordeste / Vira Cavaquinho (Diapasão, 1983)



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01. Nordeste
02. Vira Cavaquinho

Júlio Pereira
Carlos Zíngaro
José Marreiros
João Seixas
Amélia Muge

arranjos, direcção musical, produção – Júlio Pereira

O Júlio Pereira tem-me pago bem para lhe resgatar os discos não reeditados em CD, e hoje vai este single gravado, julgo eu, na mesma altura do álbum Braguesa (já podes pôr o cheque no correio, Júlio). A época era de sucesso juliopereirino, depois do êxito do Cavaquinho e da sequela, o tal Braguesa, álbuns didáticos e bem planeados, em que os ditos instrumentos são virtuosamente esgrimidos pelo nosso hirsuto multi-instrumentista. Guardo-lhes bastante reservas, porque me parecem chatos pra burro, mas essa é outra história. Este single, e é disso que se trata aqui, revela duas facetas do Júlio: essa, a ligeiramente aborrecida, no mais que previsível Vira Cavaquinho, e a surpreendente, inventiva e pulirante, no óptimo Nordeste. E é aí, no lado A deste single, que apetece ficar: no inconfundível violino do Carlos Zíngaro, nas percussões que abrem o tema, no arranjo perfeito do mestre Júlio, e na voz fresquíssima da Amélia Muge, que aqui (ou no último tema do Braguesa, não sei qual saiu primeiro) se estreia a cantar em disco e, como se isso não bastasse, posa com grande charme para a fotografia da contracapa. Belas botas, Amélia!

Quarta-feira, 6 de Abril de 2011

V.A. – À Sombra de Deus (Câmara Municipal de Braga, 1989)



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01. Rongwrong – Estranho Prazer
02. Pai Melga – Protesto do Diabo
03. Orfeu Rebelde – Através dos Tempos
04. Os Gnomos – Destino
05. Bateau Lavoir – Até um Dia
06. Baile de Baden-Baden – Chuva de Verão
07. Rua do Gin – Rebeca
08. Mão Morta – 1º de Novembro

idealização e organização – Adolfo Luxúria Canibal, Berto Borges
produção – M. Leite (01.); Pai Melga (02.); Orfeu Rebelde (03.); Os Gnomos, Bula (04.); Bateau Lavoir (05.); Baile de Baden-Baden (06.); Rua do Gin, Bula (07); Mão Morta, Bula (08.)

Vinte e dois anos passados sobre os acontecimentos, é difícil conceber hoje a vaga sensação de exotismo que era ouvir falar na capital de uma vigorosa cena de música moderna em Braga. Braga, toda a gente o sabia, era um sítio lá para cima cheio de padres e incenso, em que a juventude de bochechas rosadas e cérebros iletrados pouco mais fazia do que guiar carros de bois. E, contudo, os Mão Morta deitavam abaixo o RRV de cada vez que lá passavam, os Rongwrong e os Bateau Lavoir rodavam com insistência na Rádio Universidade Tejo, e dizia-se que ainda mais bandas havia lá para o Minho a fazer barulho como deve ser. Era coisa nunca vista, e o fenómeno tinha de ficar registado de alguma forma. O Adolfo Luxúria Canibal e o Berto Borges (baterista dos Rongwrong) aproveitaram o hype e tentaram convencer a Câmara a pagar e editar um disco com aquela malta, coisa que, nos idos de 1989, era bem mais difícil de fazer do que agora. Correu bem, pelos vistos, porque ainda houve volume dois e volume três de À Sombra de Deus, editados em CD já nos anos '90 e '00.
O disco começa em alta, com os Rongwrong a musicarem e interpretarem uma letra luxuriocanibalesca, numa canção que fica poucos furos abaixo de Sombra Veloz. Depois a coisa descamba, com dose tripla de urbano-depressão adolescente e mal amanhada (“encontrei uma mansão sombria onde jazia um corpo mutilado”, etc.), que se prolonga até ao final do lado A. Virando o disco, a festa volta a animar. Os Bateau Lavoir casam o cinzentismo oitentista com uma secção de metais à la Radar Kadafi, e produzem uma óptima canção que até resiste a um vocalista pouco inspirado. Os Baile de Baden-Baden bombardeiam-nos com camadas de guitarras em distorção numa saudável aventura sónico-janada, e os Rua do Gin dão-nos provavelmente o melhor tema do disco e de certeza o mais surpreendente – até porque ninguém ouvira falar neles até então. A caixa de ritmos semi-industrial, o vocalista a rebentar as cordas vocais, as voltas imprevistas das guitarras, tudo bem feito. E acaba-se, evidentemente, com Mão Morta (a única banda incluída em todos os 3 volumes da compilação), numa versão bem poderosa, ainda que percutida electronicamente, do clássico 1º de Novembro.

Quinta-feira, 17 de Março de 2011

Luis Madureira – O Teu Amor Sou Eu (Fundação Atlântica, 1984)



sacar

01. O Teu Amor Sou Eu (solo)
02. O Teu Amor Sou Eu (dueto com Anamar)

Luis Madureira – voz
Anamar – voz (.02)
Pedro Ayres Magalhães – guitarras, programação de ritmos
António Emiliano – piano, sintetizador

produção – Pedro Ayres Magalhães

Eu sei o que vocês estão a pensar: A capa é horrível mas lá dentro deve estar um tesouro musical esquecido, uma obscura pérola agora resgatada das brumas do tempo, uma centelha de criatividade eighties que vamos samplar semi-ironicamente e incluir em meia dúzia de mixtapes. Pois era. Só que, para além da capa ser horrível, a música é chata pra burro, o meu exemplar do disco está todo avacalhado e o ripanço ficou uma merda. Se, mesmo assim, quiserem saber quem é o Luis Madureira, eu digo o que sei: É um senhor com larga e respeitada carreira no canto lírico, que nesta altura era professor de canto da Anamar (vá, parem lá com as piadas) e que, já nos anos 90, editou um CD com canções do Boris Vian. Neste disco, a malta da Fundação faz o que tem a fazer: o Miguel Esteves Cardoso adapta a letra para Português (a canção é um original de Irving Berlin), o Pedro Ayres produz e toca guitarra, e o António Emiliano tecla na pianola. A canção é tipo as coisas que o Manuel João canta nos Corações de Atum, mas sem ter piada. E pronto, queriam mais Fundação Atlântica, não era? Agora aguentem-se.

Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 2011

Rongwrong - Sombra Veloz (Dansa do Som, 1987)



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01. Sombra Veloz
02. Frenética Paixão
03. O Enforcado

Manuel Leite – baixo
Toni Simões – guitarra
Zé Salgado – guitarra
Berto Borges – bateria
Teota – voz

produção – Zé Nabo

Este é um disco perigoso para quem padece daquela patologia tão disseminada pelos trintões que é a nostalgia dos anos 80. De facto, raras foram as bandas que encarnaram tão perfeitamente a estética vangue como os Rongwrong. Está lá tudo, desde as letras melancólicas e lúgubres às guitarras chorosas do Zé Salgado (o Zé dos Eclipes dos Mão Morta) e à voz torturada da Teota. E, se formos a ver o vídeo da canção-título ao vivo, a coisa ainda bate mais forte. Por isso, tenham lá cuidado e consumam estes ficheiros com moderação.
Para a malta mais nova, fica a pedagogia: nos anos 80, antes de surgirem os góticos (é verdade, houve uma altura em que não existiam góticos), havia os vangues (short for “vanguardistas”) que pensavam em cenas depressivas (tipo destroços, noite, a cor cinzenta, etc.) e curtiam Joy Division. Vestiam-se à mesma de preto mas, ao contrário dos góticos, ainda conservavam alguma dignidade. A música de que os vangues gostavam era, quase sem tirar nem pôr, a música que tocavam os Rongwrong.
E agora o parágrafo técnico: este disco é o prémio para a banda vencedora do 3º Concurso de Música Moderna do Rock Rendez Vous (1986), ano em que os também bracarenses Mão Morta ganharam o prémio de originalidade. A banda só editaria mais um tema, em 1989, na colectânea À Sombra de Deus, e já sem o Zé dos Eclipses na guitarra. Nos anos 90, os Rongwrong dissolveram-se e parece que só Manuel Leite continuou na música, formando os Humpty Dumpty com Miguel Pedro, dos Mão Morta. A Teota era gira e tinha umas pernas bonitas e roliças. E Sombra Veloz, nos anos 80 e em qualquer altura, é mesmo uma canção do camandro.

Sábado, 5 de Fevereiro de 2011

Shila – Lenga-Lengas e Segredos (Diapasão, 1979)



sacar

01. Teresinha
02. A Gota da Meadela
03. A Bailarina
04. Pulga
05. A Valsa
06. Sempre Foi Assim
07. Eu Não Tenho a Certeza
08. Ai Eu Quero
09. Cabecinha Fria
10. Todos Me Querem

Shila – voz, cavaquinho, colheres de pau, palmas, pandeireta
Júlio Pereira – viola acústica, viola 6 cordas, bandolim, bombo, cavaquinho, cabaça, adufe, coros
Pedro Caldeira Cabral – guitarra, flauta
José Eduardo – contrabaixo, baixo
Paulo Godinho – baixo
Pedro Osório – acordeão
Rui Cardoso – flauta, saxofone
Raul Mendes – harmónica
Sílvio Pleno – clarinete
António Serafim - oboé
Paleka – bateria
Moreno Pinto - ferrinhos
Sérgio Godinho, Lena Vaz, Guida Silva, Rui Vaz – coros

direcção musical – Júlio Pereira
som – Rui Novais, José Manuel Fortes

Cá está, tal como prometido, o segundo fonograma de longa-duração da kridíssima Shila. Desde que postei aqui o “Doce de Shila”, a minha apreciação pela obra da senhora tem crescido a bom ritmo (apesar de ela ainda não ter aceite o meu pedido de amizade no facebook). Há aqui em casa uma parede à espera de um poster da Shila, quem souber onde se arranja diga alguma coisa nos comentários, sff.
Voltando ao disco, vê-se que o primeiro deve ter corrido bem porque, neste segundo, ela ainda cravou mais malta para colaborar – desde gurus intervencionistas como o Zé Mário e o João Loio, ao Raul Mendes (do Mendes Harmónica Trio) e ao Paleka, (seja ele quem for). Até o Chico Buarque não resistiu aos encantos da moça e lhe ofereceu uma canção (Teresinha).
Na composição, a maior parte do trabalho continua a ser do Sérgio Godinho, mas a direcção musical passa agora para as mãos do Júlio Pereira, que vai alternando os arranjos dos temas entre uma inspiração mais tradicional e uma toada mais jazzística, estes últimos, para o meu bico, menos bem conseguidos. Mas aqui há música para todos os gostos: óptimas canções populares de castanholas saltitantes (A Gota da Meadela, Sempre Foi Assim), letras godinhianas ao melhor estilo do respectivo (Cabecinha Fria) e uma excelente canção do José Mário Branco que julgo não estar gravada em mais lado nenhum (Eu Não Tenho a Certeza). E, claro, sobre tudo isto paira ainda a esperança de que a coisa dê a volta e a democracia popular volte a ser possível.
E agora aguentem enquanto vou ali cravar a um amigo o single “O Burro e o Grão” para ficarmos com a mui cobiçável Discografia Completa da Shila!

Quarta-feira, 19 de Janeiro de 2011

Links actualizados

Os links para "Subtilmente" (Anabela Duarte), "Olho de Fogo" (Janita) e "Vydia" (Vitor Rua) tinham falecido, e foram agora repostos. Entretanto, aguardem mais uns dias que vem aí o segundo LP da Shila.
Grato pela paciência.

Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010

Pilar – Pilar (EMI – Valentim de Carvalho, 1989)



sacar

01. Cidade a Arder
02. A Voz
03. Senhora da Noite
04. Lágrima
05. Dentro
06. Lua no Olhar
07. Um Amor Assim
08. Princesa
09. Voz do Mar

Pilar – voz, guitarra eléctrica, guitarra acústica
Mário Laginha – piano, Roland D50, Yamaha DX7 II D, Kurweil
Yuri Daniel – baixo
Mário Barreiros – bateria, caixa de ritmos, guitarra eléctrica
Wayne Shorter – vento, percussão, shaker, Yamaha DX7 II D
Flak – guitarra acústica, guitarra eléctrica
Paulo Neves – caixa de ritmos

produção – Wayne Shorter

A indiferença deste país para com a Pilar é uma das coisas que me dá vontade de deixar de ser português. Como é possível passar ao lado desta mulher? A Pilar ama o 25 de Abril porque lhe permitiu passar a adolescência no Brasil. A Pilar convence o Wayne Shorter a produzir-lhe o primeiro disco e o Caetano Veloso a convidá-la para uma feijoada. A Pilar é casada com um pintor que foi ao Benim iniciar-se nos cultos vodu. E, como se isso não bastasse, os discos dela também não são nada maus. Este primeiro, por exemplo, tem três ou quatro canções capazes de fazer estremecer o mais inamovível coração do mais insensível brutamontes. Já vi homens feitos e barbados com o lábio inferior a tremelicar enquanto ouviam “A Voz”, “Dentro”, “Voz do Mar”, e o inevitável “Um Amor Assim” – favor verificar o teledisco.
Neste LP, a Pilar está luxuosamente acompanhada: para além de Wayne Shorter a produzir, tem Pedro Ayres Magalhães (02.) e Miguel Esteves Cardoso (04., 06.) a escrever, e Laginha e demais malta do jazz a tocar. A música é toda dela, à excepção de 03. e 04., que a Pilar compôs com a ajuda de Nuno Canavarro. Apesar do background jazzístico desta gente, os arranjos são surpreendentemente planantes e sintetizados, evocando por vezes os ambientes etéreos dos Dead Can Dance e chegando mesmo a aproximar-se dos terrenos pantanosos de uma Enya (Armando Teixeira faria um melhor trabalho quando produziu, anos mais tarde, “Não Quero Saber”). Mas a Pilar resiste a tudo isso e mantém acesa a chama cantautoral acima de todos os artifícios. Enquanto esperamos que ela volte de África com mais um disco (estava a gravá-lo há dois anos com músicos senegaleses), é ouvir em loop este primeiro álbum e os três seguintes – sem esquecer o CD ao vivo com a Anamar e a Né Ladeiras.

Sábado, 13 de Novembro de 2010

Rosa dos Ventos – Rimando Contra a Maré (Diapasão, 1983)



sacar

01. Cantiga de Amor
02. Canção Para Maria
03. Baladilha
04. Em Jeito de Sapateia
05. Novo Amanhecer
06. O Voo do Pássaro
07. Invenção
08. O Espanto das Caravelas
09. Feira Antiga, Feira Nova
10. Vai de Roda
11. Rimando Contra a Maré

Telmo Palma – viola da terra, viola eléctrica, harmónica
João Miguel – viola de 12 cordas, viola de 6 cordas
Tólis - baixo
José Medeiros – voz, adufes, piano, batuque, viola acústica, strings
Elisa – voz
Vera Quintanilha – voz
+
Sérgio Mestre – flauta, voz
Rabanal – bateria
Rui Vaz – adufes, percussão, gaita-de-foles, bombo
Mário Ribeiro – viola acústica
Pedro Casaes – contrabaixo
Ed – percussão, triângulo

música – João Miguel (01, 05, 06, 08, 09, 10); José Medeiros (02, 03, 04, 09, 11); Eduardo Paes Mamede (07)
letra – José Medeiros (01, 02, 03, 04, 06, 09, 11); Luísa Mareante (05); João Manuel (06); José Fanha (07); Fernando Reis Jr. (08); João Miguel (09)

produção – Eduardo Paes Mamede

Uma boa parte da produção musical do Zeca Medeiros já está ali em baixo, naquele disco que agrupa as bandas sonoras de O Barco e o Sonho, Balada do Atlântico e Xailes Negros. Mas, nessa altura, o homem não era propriamente um novato dessas lides: começara por editar dois singles em nome próprio nos anos 70, integrando na década seguinte os Construção (que editaram um álbum numa editora de nome suspeito, a DisRego) e estes Rosa dos Ventos.
Se bem que a banda seja definitivamente açoriana, “Rimando Contra a Maré” é um disco de produção continental, numa editora das grandes, com técnicos e convidados não-ilhéus (destaque para a flauta de Sérgio Mestre, em grande forma na maior parte dos temas). Também a música se afasta da reconstituição fiel das formas populares açorianas e se aventura sem medos em exercícios que, à falta de melhor termo, chamaremos de fusão. Sobre uma matriz tradicional, a coisa desenvolve-se em várias direcções, desaguando por vezes em afloramentos jazzísticos, outras numa linguagem pop-ligeira, outras ainda no ocasional solo de guitarra santanesco.
O que salta à vista é, essencialmente, a fluência dos membros da banda em todos estes idiomas, a relativa adequação entre as peças do puzzle musical e a eficácia com que um meio periférico produz um disco indubitavelmente moderno, inserido no seu tempo – sem dever grande coisa ao que os Trovante, por exemplo, faziam em Lisboa na mesma altura. “Rimando Contra a Maré” não é uma obra-prima mas, no conjunto dos seus temas, é mais sólido e equilibrado do que grande parte dos discos de raiz tradicional que surgiram pelos anos 80 fora. Ou seja, vale a pena o sacanço.

Quinta-feira, 21 de Outubro de 2010

Heróis do Mar – Heróis do Mar (EMI – Valentim de Carvalho, 1988)



sacar

01. Rossio
02. Café
03. Africana
04. Santinha
05. Abril
06. Eu Quero
07. Eu Não Mereci
08. D.F.S.
09. Passeio
10. Dor de Cabeça

Carlos Maria Trindade - teclados
Pedro Ayres Magalhães – guitarra baixo
Paulo Pedro Gonçalves – guitarras ritmo e solo
Rui Pregal da Cunha – voz
+
Tomás Pimentel – trompete
Claus Nymark – trombone
Carlos Martins – saxofone
Nucha – voz (2, 4, 7, 10)
Cristina – voz (2, 4, 7, 10)
Waldemar Bastos – voz (3)
Fernando Carvalho – voz (3)
Marco Santos – voz (6)
Jorge Bento – programação rítmica (2, 3, 4, 5, 6, 7, 9, 10)

co-produção e misturas – Carlos Maria Trindade e Amândio Bastos

As minhas desculpas por esta prolongada preguiça blóguica. Já cá andava o ripanço dos Heróis do Mar há que tempos, aqui a fermentar no disco rígido, e eu não me decidia a fazer o post. Queria voltar a postar com elogios rasgados, e estava a ver se, com o tempo, as músicas soavam melhor, as letras pareciam mais bonitas, o scan da capa ficava mais nítido. A estratégia não resultou por aí além, mas vai mesmo assim.
A poucos dias do lançamento do último disco dos Madredeus e a Banda Cósmica, vem bem a propósito o último LP dos Heróis do Mar – não, não tenciono fazer comparações, não me pagam a fortuna necessária para ouvir o novo da cena gósmica. Mas o último disco de uma banda é quase sempre um objecto mal amado, um registo de um grupo de gente em fade out, esforçando-se por reunir energia que se dissipa demasiado rápido – e neste quarto LP dos Heróis isso é demasiado evidente. Claro que, no Portugal dos quase ‘90s, estes já não podiam ser os Heróis do Mar que puseram tudo em polvorosa no início dos ’80s, os provocadores que convocam a polícia de choque para o concerto de estreia, que berram na cara do Pátria o que não dava jeito nenhum ouvir naquela altura. Os ideais quintimperistas sobrevivem ainda na mona do Pedro Ayres, mas o resto da malta já quer zarpar para Inglaterra e trocar a alma atlântica pelas promessas da nova Europa – o baterista Tozé Almeida, substituído por uma caixa de ritmos, já tinha saído depois do “Macau”.
Na música, reflecte-se o desconchavanço: o trio de metais dá a muito necessária unidade a um conjunto irregular de temas, em que óptimas canções (Santinha, Abril) alternam com algumas das letras mais patetas de sempre (Rossio, Eu Não Mereci) enroladas em excessos de pedais nas guitarras e algumas digressões curiosas pela música africana.
No capa interior, Pedro Ayres Magalhães parece reconhecer que a banda estava a finar-se: “Missão cumprida stop. Povo conhece ideal pátrio stop”, mas apetece aqui dizer que a missão dos Heróis do Mar, fosse qual fosse, já se cumprira anos antes. O que Portugal precisaria a partir de então não sei bem o que era, mas para esse peditório os Heróis já tinham dado o que podiam.

Domingo, 1 de Agosto de 2010

Trovante – O Trovante Toca a Reunir (Forum, 1979)



sacar

01. A Tocar a Reunir
02. Não Há Três Sem Dois

Artur Costa – charamela, flauta, voz
João Gil – viola, voz
João Nuno – adufe, ronca, ferrinhos, voz
Luis Paulo – voz, bandolim, cavaquinho
Manuel Faria – acordeão, voz
Né – voz, pandeireta, castanholas

Letra – Chico Viana
Música e Arranjos – Trovante
Produção – Chico Viana / Trovante

Em 1979 aconteceu aos Trovante uma das melhores coisas que pode acontecer a uma banda em Portugal: entrou a Né Ladeiras para cantar. Os Trovante, que tinham já dois LPs politicamente engajados mas musicalmente contidos, estavam prestes a explodir para as massas com o “Baile no Bosque” e a fazer saltar milhares de semi-friques em várias Festas do Avante consecutivas. Infelizmente, a Né não se aguentou muito tempo. Seguiu logo depois para a Banda do Casaco e deixou só este single gravado com os Trovante.
No lado A, a letra de Chico Viana – prosador particularmente agradável ao Partido – canta a Maria da Fonte que, de corneta na mão, lança invectivas revolucionárias ao povo. Acompanha um adufe e uma flauta que dão uma toada quase medieval ao tema (digo eu, que não percebo nada do assunto). “Não Há Três Sem Dois”, no lado B, é uma malha ainda mais poderosa, capaz de arrastar multidões às costas de um acordeão hiperactivo. Será um corridinho? Uma chula? Ajudem-me, leitores eruditos, que agora dava-me jeito perceber alguma coisa de música. À falta de melhor, digo-vos que é como se os Pogues tivessem nascido 10 anos antes em Portugal e todos os seus membros fossem saudáveis e bem penteados. Mais coisa menos coisa.

Terça-feira, 22 de Junho de 2010

Júlio Pereira – Mãos de Fada (Diapasão, 1979)



sacar

01. Abertura
02. Uma Chula P’ra Rosa e P’ra Gente
03. O Mundo na Mão de Mary
04. Os Cuidados de Laurindinha
05. Maria Negrita
06. Diz Teté, Se Viste Por Aí um Palhaço
07. A Xica e a Garotada
08. Paula Barraqueira
09. E a Zé Cantava na Ilha da Culatra
10. Mãos de Fada

Júlio Pereira – voz, guitarra acústica, bandolim, cavaquinho, concertina, bombo, reco-reco, xarango, baixo, banjo, chocalho, vibrafone
Maria Helena Davila – voz
Henri Tabot – guitarra acústica, ferrinhos, reco-reco, canas
Fernando Júdice – contrabaixo, baixo
Guilherme Inês – pandeiro, bateria, bongós, tumbadoras, caixinha de arroz, pinhas
Raúl Mendes – harmónica
Pedro Osório – piano eléctrico, acordeão
Rui Cardoso – saxofone, flauta, flauta transversal
Carlos Salomé – trancanholas
Naomi Anner – violino
Tomás Pimentel – trompete
António Lages – tuba
Moreno Pinto – ferrinhos
António Pinho – piano eléctrico
Zé Eduardo – contrabaixo
Elsa Bruxelas – flauta de bisel
Rão Kyao – flauta de cana, saxofone
Manuel Faria – acordeão

Arranjos e direcção musical – Júlio Pereira
Técnicos – Moreno Pinto, Jorge Mendes Barata
Misturas – Júlio Pereira, Jorge Mendes Barata

Depois do famigerado escândalo do post anterior, em que partilhei um disco já reeditado em CD, tento agora redimir-me com um fonograma já pedido por estas bandas, nunca reeditado em formato digital e nunca antes ripado (que eu saiba). É o último disco em que o Júlio Pereira acaricia os nossos ouvidos com a sua voz, antes de se decidir a sugar o tutano dos instrumentos tradicionais portugueses em discos que os espremem à vez (“Cavaquinho”, “Braguesa”, “O Meu Bandolim”) ou em grupo (“Os Sete Instrumentos”). No “Mãos de Fada”, esta panóplia instrumental já lá está, mas aqui ao serviço de canções sobre diversas mulheres que, calculo, cruzaram a vida do próprio Júlio. Os apetites do artista parecem ecléticos e cosmopolitas, tanto canta a Mary quanto a Maria Negrita, tanto enaltece a Paula Barraqueira quanto a Teté, a Mulher-Palhaço (esta última não percebo, mas pronto…).
Há aqui canções melhores do que no anterior Lisboémia, principalmente as que mais se inspiram em moldes tradicionais (“Uma Chula P´ra Rosa e P’ra Gente”, “Os Cuidados de Laurindinha”, “E a Zé Cantava na Ilha da Culatra”), mas torna-se difícil saltar e pulirar com elas perante o surrealismo involuntário de algumas letras: “Aqui vai mais uma chula que pula com a gente / Rapazes e raparigas não trouxeram pente”, “Anda por aí um palhaço / Diz lá onde é que o viste ó Maria diz / Talvez ó Manel num bagaço”, etc. Por outro lado, é precisamente esta veia lírica algo transviada que dá aos três primeiros discos do Júlio Pereira um certo charme e entusiasmo quase juvenil, uma toada lúdica que se perde nos trabalhos posteriores, em que domina o virtuosismo e a muito grave missão de resgatar as maltratadas tradições musicais do nosso povo. E é claro que a missão era grave e que ele a cumpriu de forma inexcedível, mas caramba, ó Júlio, parecias divertir-te mais quando também cantarolavas.

Segunda-feira, 31 de Maio de 2010

Saheb Sarbib & Jorge Lima Barreto – Encounters (Alvorada, 1979)



sacar

01. Talisman
02. Nightwings
03. A Canticle for Leibowitz
04. Stand on Zanzibar
05. City: Tomorrow the Dogs
06. A. Islands

Saheb Sarbib: baixo acústico e semi-acústico (02., 03.), oboé de plástico (01.), flauta clássica (04.), clarinete baixo (01.), etno-flautas (05.)
Jorge Lima Barreto: sintetizador ARP Odissey (todos os temas), piano eléctrico Fender Rhodes (01., 05.)

Gravação – Luis Alcobia
Montagem e Mistura – Luis Alcobia, Saheb Sarbib, Jorge Lima Barreto
Remistura e Direcção – Saheb Sarbib

Pois é, malta, como dizia a Laurindinha, it’s difficult listening hour. Descansem que “hora” é uma maneira de dizer, a coisa não chega aos 40 minutos e podem fazer uma pausa a meio para se refrescarem ou comer qualquer coisa. O que temos aqui é, que eu saiba, o segundo disco em que o Lima Barreto se fez ouvir, dois anos depois de ter saído o fonograma da AnarBand, em que toca com o Rui Reininho. Neste Encounters, o Reininho desaparece e surge em seu lugar o Saheb Sarbib, homem do jazz que tocou com Cecil Taylor e Archie Shepp, e filho de outro Sarbib que dirigiu big bands em Portugal nos anos 40 e 50.
Neste disco, o Sarbib é responsável pelas partes em que é preciso saber tocar – nalguns casos com resultados satisfatórios (a flauta em Stand on Zanzibar) e noutros com efeitos soporíferos (o solo de baixo em A Canticle for Leibowitz). Já o Lima Barreto não toca grande coisa, o que até pode muito bem ser um ponto a favor, a menos que o intérprete seja pura e simplesmente chato – o que é o caso. A estrela do desempenho limabarretiano são os vários registos que ele concebeu para o sintetizador ARP Odissey e que – segundo parece – patenteou na SPA (ou equivalente da altura): o registo psicokasbah de Nightwings, o libid de Talisman e principalmente o inconfundível cosmic felatio de A Canticle for Leibowitz.
Não estamos aqui para enganar ninguém e, verdade seja dita, Encounters tem momentos verdadeiramente irritantes, entediantes, exasperantes. Às vezes, esses momentos prolongam-se por temas inteiros. E às vezes esses temas inteiros têm mais de 8 minutos. Mas também há coisas boas de se ouvir: alguns registos (patenteados, claro) do Lima Barreto são realmente engraçados, o Sarbib toca realmente bem, as flautas dão quase sempre bom resultado, e o último tema, A. Island, é francamente porreiro. É dar uma hipótese aos velhotes, vá lá.

Segunda-feira, 19 de Abril de 2010

Mler Ife Dada – L’Amour Va Bien Merci / Ele e Ela… e Eu (Ama Romanta, 1986)



sacar

01. L’Amour Va Bien Merci
02. Ele e Ela… e Eu

Anabela Duarte
Nuno Rebelo
José Garcia
António Garcia

Produção – Nuno Rebelo

O estatuto sonolento deste disco, admito, é bastante duvidoso. Afinal, já se perderam a conta ao número de reedições do tema L’Amour Va Bien Merci, seja em compilações da Ama Romanta, dos próprios Mler Ife Dada ou de golden oldies dos anos 80. Não esquecendo que a canção já tinha saído no Divergências antes de sair em single. Mas pronto, para a juventude ignara, esclarece-se que é o tema que marca a entrada da Anabela Duarte nos Mler Ife Dada, que é o segundo disco da Ama Romanta, que toda esta malta ainda era amicíssima, pululante, fresca que nem uma alface, que ainda não tinha chegado a altura das zangas, das drogas duras e das depressões crónicas. É a banda sonora perfeita para o boémia burguesita da segunda metade dos anos 80, aquela que andava entre o Bairro Alto e o Rock Rendez Vous, que já tinha vomitado o boom do rock português e que tentava ser arty sem deixar de se divertir o mais possível.
Virando o disco, encontramos a razão deste post: uma versão nunca reeditada do tema Ele e Ela, que Madalena Iglésias levou ao festival da canção e que aqui leva um muito eficaz tratamento mlerífico, tongue in cheek q.b. mas sem entrar no gozo descarado. Mas o final deste tema é que me intriga. Ora oiçam a partir do 1m50s e digam-me o que é aquilo. Não é uma mini-versão de um mini-excerto do disco Clara Crocodilo do brasuca Arrigo Barnabé? Ajudem-me lá, caros clientes do Discos Com Sono, que estou sem pachorra para reouvir o Clara Crocodilo mas nem tenho dormido a pensar no assunto.

Quinta-feira, 25 de Março de 2010

Shila - Doce de Shila (Diapasão, 1977)



sacar

01. Espectáculo
02. Chula
03. Doce de Chila
04. Mais um Filho
05. Entre a Flor e a Enxada
06. Rapa Tira Deixa e Põe
07. Parteira do Mar
08. Dança do Amargar
09. Rosie
10. Gente Assim

Shila – voz, auto-harp, dulcimer, percussão, colheres de pau
Fausto – viola, percussão, coro
Sérgio Godinho – viola, percussão, coro
Paulo Godinho – baixo
Manuel Guerreiro – flauta, saxofone soprano
Rui Monteiro – percussão
Rui Reis – piano
Guilherme Scarpa – bateria, percussão
Rui Cardoso – flauta
Júlio Pereira – viola, baixo, percussão
Carlos Zíngaro – violino
José Luis Simões – viola eléctrica
Eduardo Maia – assobiadoiro
Francisco Fanhais – coro
Geninha Melo e Castro – coro
Carlos Vaz – coro

Arranjos – Sérgio Godinho e Fausto (excepto 05. – Júlio Pereira)
Letras – Sérgio Godinho (01., 02., 03., 04., 06., 07., 08., 10.), popular (02.), Fausto (02.), Júlio Pereira (05.), Reinaldo Ferreira (09.)
Músicas – Sérgio Godinho (01., 03., 04., 06., 07.), popular (02.), Júlio Pereira (05.), Carlos Zíngaro (08., 10.), Fausto (09.)

Nos bons velhos anos setenta, fazer discos devia ser um grandioso forrobodó. Sempre que se queria gravar o belo fonograma (agora é melhor dizer assim, ou ainda não espreitaram a recém-parida Enciclopédia da Música Portuguesa?) era só chamar os amigos e, escreve-me aí uma letra que eu depois escrevo-te outra, faz-me um arranjo que eu depois te faço coros, toca-me aqui um reco-reco que eu depois toco-te uma concertina. O Sérgio Godinho levou a premissa um pouco mais longe, chamou o Fausto, o Júlio Pereira, o Zíngaro, e pediu uma letra, um arranjo e um reco-reco para o disco da namorada. A Shila era uma jovem saltitante vinda do Canadá, diz que boa rapariga, sem saber cantar muito bem mas entusiasta q.b. do ambiente revolucionário da altura e dos artistas que lhe serviam de banda sonora. Vai daí, engaja com o Sérgio Godinho, começa a fazer coros (típico), e enquanto o diabo esfrega o olho, já está a gravar o primeiro LP.
E é um belo LP, este fonograma. Começa um bocadito mal, com uma versão chocha e murcha do Espectáculo (que o Sérgio Godinho gravaria bem melhor dois anos depois, no “Campolide”), mas depois engrena com a Chula, e já ninguém segura a rapariga. A malta do costume faz a festa com bombos e ferrinhos, guitarradas e arranjos de cordas, enquanto a Shila canta naquele sotaque estranho mas esforçado. E ouvindo, por exemplo, “Rapa Tira Deixa e Põe”, há mesmo que lhe dar crédito: nunca uma canadiana enfiou tantas sílabas em tão poucos segundos (mas pronto, raras foram as canadianas que cantaram letras do Sérgio Godinho). Oiço por aí dizer que, na altura, a Shila levou muito nas orelhas, provavelmente da esquerdalha que não gostou de uma anglo-saxónica intrometida na sua revolução privada. Mas digo-vos que foi injusto e que a Shila só merece os nossos aplausos. Aproveitem que estão com a mão na massa e mandem-lhe uma beijoca.

Quinta-feira, 11 de Março de 2010

Tão lindo

O João Chambel saiu da sua Pele Vermelha para me vir embonecar o blog. Estejam à vontade para tecer os mais rasgados elogios.

Domingo, 28 de Fevereiro de 2010

Linha Geral – Linha Geral (Ama Romanta, 1988)



sacar

01. Porque os Outros
02. Dança de Sombras
03. Formas Estranhas
04. Coro Jovem
05. Auto de Fé
06. Sinais no Tempo
07. Ousadia
08. Riscando os Céus

Carlos Manso – voz, guitarras
Fernando Soares – bateria
Tiago Lopes – guitarras
Pedro Alvim – baixo
+
Nuno Rebelo – piano, guitarra, sampler, coros
João Peste – coros

Produção – Nuno Rebelo

Vinte e dois anos passados sobre a sua edição, a sombra que o disco dos Linha Geral continua a estender sobre nós permanece um dos grandes enigmas da música pop feita em Portugal. São uns míseros 21 minutos de canções, uma banda que nem cinco anos durou, quatro músicos de que não se conhece o paradeiro. E todo um país (sim, todo) que sempre que os Linha Geral rodam no gira-discos, se põe de olhar vago não se sabe onde, a suspirar não se sabe porquê. Diz-se que a banda era comuna, revolucionária até, mas a verdade é que, nos Linha Geral, o que se ouve não é o panfletismo marxista do costume; a lírica inflamada e visionária do vocalista Carlos Manso não se compadece dessas coisas, e sempre que canta “a secreta caminhada”, “a hora prometida”, “o gesto decidido”, “o futuro que se anuncia” ou “a ilusão que se desvanece”, os corações atlânticos à beira-mar plantados reverberam de outras coisas que não somente a esperança na sociedade sem classes. Rasgando o rumo do futuro mas deixando-o por nomear, a banda alcança o efeito máximo – é preencher os espaços em branco e fazer a ponte entre a revolta proletária de um José Mário Branco e os sonhos de glória imperial de uns Heróis do Mar. Esta é a música que nos aguenta até ao Advento; seja ele o da Revolução, do Quinto Império ou da Segunda Vinda, o disco que vai estar a rodar nessa altura será o dos Linha Geral.

Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

Clube Naval – Professor Xavier / Salva-Vidas (Fundação Atlântica, 1983)



sacar

01. Professor Xavier
02. Salva-Vidas (Mistura Muito Rica)
03. Salva-Vidas
04. Professor Xavier (Especial Para Dançar)

Godinho e Salema – voz

Música, Produção – Ricardo Camacho
Letras – Miguel Esteves Cardoso

Para estrear o bit rate de 320 temos um disco que é uma fofura. É o disco número um da Fundação Atlântica e, por muito que se embirre com a editora (aqui não é propriamente o caso), tem que se dar o braço a torcer perante os contornos épicos de uma primeira edição em duplo single – provavelmente o formato mais espectacular para se editar o que quer que seja. A natureza aparentemente fofa do disco, contudo, não nos pode fazer esquecer as salganhadas históricas da sua génese. Como se sabe, no início dos anos 80 um grupo de amigos fartos da hegemonia barbudo-marxista no meio musical decide adoptar uma postura assumidamente “à direita” e voltar a falar de Portugal com uma lata como há muito não se via. O fruto mais visível destas aventuras – cuja fascinante história ainda está por contar como deve ser – foram os Heróis do Mar, e logo a seguir a Fundação Atlântica.
Com o Clube Naval, Miguel Esteves Cardoso e seus comparsas decidiram deixar de lado a estética marcial de olhos arregalados ao céu que Pedro Ayres Magalhães adoptara nos Heróis, e optaram antes – talvez pela primeira vez na História – pela promoção descomplexada de uma identidade beta, que aqui toma forma nos corpos tenros de duas adolescentes do Estoril. As meninas cantam sobre a praia e o colégio – dois elementos basilares do luso-betismo – e queixam-se da indiferença do professor e do salva-vidas, podres de bons mas indiferentes aos seus coraçõezinhos. A ficha técnica indica que os temas são compostos por Ricardo Camacho, mas não esclarece quem os toca – salienta, porém, que as meninas são vestidas pela Tara e que “a cor mais linda é o azul”. Valha-nos isso. Ainda que a música possa não surpreender – electrónicas dançantes como se fazia no estrangeiro, remixes incluídos e tudo –, é aqui, neste casamento inusitado de uma estética proto-beta com uma insinuação algo rebarbada de despertar sexual lolitiano, que o disco do Clube Naval se torna um objecto sem igual. Sacanço obrigatório, portanto.

Um Luxo

Com 2010, a taxa de bits a que os Discos Com Sono são ripados passa a ser de 320 por segundo – a mais alta possível, portanto, um espectáculo. Boas notícias para os audiófilos, que passarão a ouvir a batata frita com uma qualidade inexcedível. Malta que consegue ouvir cores no Dark Side of the Moon, a partir de hoje este também é o vosso blog.

Terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

V.A. - Cantigas de Ida e Volta (Orfeu, 1975)



sacar

01. Macacos
02. Papagaio
03. Balada das Vinte Meninas
04. Consulta
05. O Nariz
06. Cavalinho, Cavalinho
07. Ladaínha da Aranha
08. Canção de Embalar Bonecas Pobres
09. Pulos
10. Dança da Rosa
11. Cantilena
12. O Ovo
13. Grilos e Grilões

Sérgio Godinho – voz (01., 05., 10., 12., 13.), kazoo, xilofone
Fausto – voz (02., 04., 06., 09., 11., 13.), guitarra, kazoo, metalofone
Vitorino – voz (03., 04., 07., 11., 13.)
Sheila – voz (08., 13.), dulcimer
Janita Salomé – voz
Carlos Salomé – voz
Jorge Constante Pereira – piano, flauta de bisel, xilofone, metalofone
Paulo Godinho – baixo
Filipe Zau – percussão
Raul – timbalinhos
Eduardo Maia – assobios

Música, arranjos, direcção musical – Jorge Constante Pereira

Letras – Sidónio Muralha (01., 02., 13.), Matilde Rosa Araújo (03., 06., 07., 08., 10.), Maria Alberta Meneres (04., 05., 09., 11.), Sérgio Godinho (12.)

“Aranha, anha, tão muda e mole”, canta Vitorino naquele que é um dos grandes versos perdidos da música popular portuguesa. Cantigas de Ida e Volta já tinha valido a pena se fosse só a “Ladaínha da Aranha”, mas a verdade é que por lá também andam o Fausto, o Sérgio Godinho e a fofa da Sheila a cantar sobre um nariz de giz, um urso polar que não sabe pular, uma galinha que pôs um ovo na cabeça, vinte meninas de cabeça preta e outras histórias edificantes. Podemos imaginar a paródia que foi gravar este disco um ano após a Revolução, uma resma de canções que, em menos de meia hora, casa o nonsense do imaginário infantil com a pedagogia naif-marxista, educando desde o berço nas questões da luta de classes. O disco, já se percebe, não é de tão fácil digestão quanto a música infantil que se compõe e grava actualmente – poesia a sério para miúdos, de Matilde Rosa Araújo e Maria Alberta Meneres, alguns arranjos que não destoariam dos Osso Exótico, naquele disco ali uns posts abaixo, e a Sheila a cantar (julgo que pela primeira vez em disco) e a tirar o sono a muitas criancinhas.
O grande mérito desta aventura é do seu homem do leme, Jorge Constante Pereira, que nas décadas seguintes ganhou um merecido lugar no imaginário mítico nacional mercê de novas colaborações com Sérgio Godinho, principalmente em A Árvore dos Patafúrdios e Os Amigos de Gaspar. E, se a actual geração de trintões cultiva uma obsessão perturbadora e quase doentia com as músicas da sua meninice ao ponto de motivar reedições em CD dos genéricos dos desenhos animados de antanho, o trabalho de Jorge Constante Pereira bem que podia ser mais bem tratado e divulgado. Mas, claro, não ao ponto de reeditar Cantigas de Ida e Volta e de me obrigar a retirar este post dos Discos Com Sono.

Quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

Banda do Casaco - Contos da Barbearia (EMI, 1978)



sacar

01. Na Cadeira do Barbeiro
02. O Diabo da Velha
03. A Noite Passada em Caminha
04. O Enterro do Tostão
05. La Pastorica
06. Malfamagrifada
07. Zás! Pás! (O Casório do Trolha)
08. Retrato d’Homenzinho Pequenino com Frasco
09. Amo Tracinho Te
10. Godofredo Cheio de Medo

Mena Amaro – voz
Nuno Rodrigues – voz, guitarra acústica, bombarda, adufe, glockenspiel, cromo harp, castanholas, flauta de bisel
Celso de Carvalho – violoncelo, sitara
Tó Pinheiro da Silva – flauta
António Pinho – voz, adufe, bombo, paus de Miranda, castanholas, pandeireta, cistros, sinos
+
Armindo Neves – guitarra acústica, guitarra eléctrica
José Eduardo – baixo eléctrico, contrabaixo
Carlos Zíngaro – violino
Rui Reis – piano, órgão, cravo
Vitor Mamede – bateria
José Barrocas – flautim
Adácio Pestana – trompa
António Reis Gomes – trompete
Rita Rodrigues – voz (06.)
Glória Luz, Guida Veloso, Cristina Janeiro, Vitor Silva, Vitor Reino, Manuel dos Santos, José Moças – coros

Produção – António Pinho e Nuno Rodrigues

Vamos deixar uma coisa bem clara: Banda do Casaco não é prog. Certo? A Banda do Casaco é muitas coisas, é milhentas coisas, antes de ser prog. Por isso, malta do prog, deixem de dar balúrdios pelos discos da Banda do Casaco, deixam de inflaccionar estupidamente o mercado, deixem de chamar a isto prog-folk ou trad-prog ou seja-lá-o-que-for-prog, e permitam, se faz favor, que os preços destes discos voltem a ser suportáveis para gente normal. Ainda me faltam quatro, e gostava de os comprar antes de bater a bota.
Esclarecida esta questão, há que reconhecer que a Banda do Casaco se encostou perigosamente ao prog no “Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos”, e em momentos ocasionais de outros discos. Mas este “Contos da Barbearia”, que saiu no ano seguinte ao “Hoje Há Conquilhas”, mostra que a Banda continuou a seguir um caminho próprio e a resistir, ainda e sempre, aos invasores – fossem eles os músicos socialmente empenhados da época que acusavam a Banda de alienar as massas ou os azeiteiros miasmas progressivos que contaminaram do exterior tantas bandas portuguesas dos anos ’70. “Contos da Barbearia” é Banda do Casaco vintage, é o bom e velho caldo de música de raiz tradicional com jazz, rasgos de pop anglo-saxónico, apontamentos avant-garde, tudo condimentado com humor e sarcasmo q.b. Uma espécie de Mutantes dos climas temperados, mais cerebrais e menos esfuziantes que os tropicais, de sobretudo e bigode em vez de biquini e plumas. Na Barbearia, os arranjos recuperam uma sobriedade que se tinha perdido nas camadas megalómanas de instrumentos sobrepostos das Conquilhas, e o resultado final acaba por ser mais palatável. Metade de temas originais, outra metade de inspiração tradicional, e temos, em pouco mais de meia hora de música, um dos discos mais equilibrados da Banda do Casaco.
A seguir, a Banda tiraria uma sabática antes de surgir renovada em 1980 – um pouco menos tradicional, um pouco mais pop – e continuar a desbravar caminho até 1984. Se isto fosse no estrangeiro, já tínhamos uma caixinha com os 7 CDs de originais remasterizados, livrinho cheio de entrevistas e ensaios, um DVD de bónus e mais não sei quantas mariquices. Como felizmente estamos em Portugal, temos masters perdidas, reedições em CD esgotadas e até um disco que nunca saiu do vinil – mesmo perfeito para o Discos Com Sono.

Quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Mler Ife Dada - Mler Ife Dada (Polygram, 1990)



sacar

01. Música do Homem que Anda
02. Erro de Cálculo
03. Choro do Vento e das Núvens
04. À Chuva

Sofia Amendoeira – voz
Bruno Pedroso – bateria
José António Aguiar – baixo
José Pedro Lorena – saxofone alto, clarinete baixo
Nuno Rebelo – guitarra eléctrica e clássica, voz, programação de ritmos e teclados, CD’s
+
Rafael Toral – fitas magnéticas, guitarra eléctrica (01, 04)

Produção – Nuno Rebelo

Dizia o Nuno Rebelo em entrevista não sei onde que este disco era um grito de “estamos vivos”, que era os Mler Ife Dada a erguerem o punho perante o mundo (quer dizer, perante a aldeia do pop experimentalóide português do final dos anos ’80) e a dizerem que ainda tinham um futuro brilhante. Dizia logo de seguida que se enganou e que, afinal, já estavam mortos. Mas limpemos as lágrimas e recuemos um pouco no tempo: Em 1989, Espírito Invisível, o segundo álbum dos Mler Ife Dada, já foi gravado em ambiente de ponta e mola, com os egos de Anabela Duarte e Nuno Rebelo a colidirem violentamente e a lutarem pelo espaço criativo que – não se percebe bem como – parecia ser escasso numa banda tão aventureira como os Mler Ife. Lançado o álbum, Anabela zanga-se de vez e sai da banda, gravando pouco depois, ainda num registo mlerífico, o máxi-single Subtilmente (para sacar ali uns posts abaixo).
Mas Nuno Rebelo recusa-se a deitar a toalha ao chão e recruta uma menina saída do conservatório chamada Sofia Amendoeira. Integrada a menina, vai então de gravar este disco, um empreendimento que podia ter sido bem mais esforçado – é que se trata apenas dos quatro temas mais cantaroláveis de Espirito Invisível, precisamente com as mesmas pistas instrumentais, só que com a Sofia a cantar. A Sofia até canta bem, mas não alegra. A voz é mais grave, um pouco menos expressiva, tem assim os bracinhos caídos, não salta tanto quanto a Anabela, a roupa não é tão gira. Vistas bem as coisas, não dá. A banda finda-se, para tristeza de muitos (eu próprio chorei), e deixa como último registo este disco, o mais desnecessário dos Mler Ife Dada, o mais desnecessário dos Discos Com Sono, mas ainda assim interessante para a meia dúzia de tarados que se dedicam a documentar estas coisas.

Quarta-feira, 26 de Agosto de 2009

Street Kids - So Far For So Long (Vadeca, 1983)



sacar

01. So Far For So Long (I)
02. So Far For So Long (II)

Eduardo Sobral – guitarra ritmo
Emanuel Ramalho – bateria, percussões, maracas, salpicos de piano
Luis Ventura – voz
Nuno Rebelo – baixo, guitarras diversas, pratos de choque, voz
+
Nuno Canavarro – strings, piano

Produção – Emanuel Ramalho e Nuno Rebelo

Desconheço as circunstâncias que reuniram nesta banda tantos músicos que mais tarde se tornariam conhecidos, mas a verdade é que os Street Kids foram uma espécie de jardim infantil da música portuguesa dos anos 80. Versões minúsculas do Nuno Rebelo antes de fundar os Mler Ife Dada, do Emanuel Ramalho antes de tocar nos Delfins e Rádio Macau, do Nuno Canavarro antes de fazer Música para 70 Serpentes, do Luis Ventura antes de cantar nos Lobo Meigo. Todos juntos a brincar ao boom do rock português.
Fundados em 1979, os Street Kids lançaram 3 singles, um MX-S – este So Far For So Long – e um LP, aproveitando a benevolência editorial que, naquele época, não se fazia rogada em lançar para o mercado qualquer banda que soubesse tocar mais ou menos e tivesse umas canções de encher o ouvido (o tema Propagando ainda gozou de relativo sucesso). Como se depreende, torço o nariz à maior parte dos discos dos Street Kids, um pop meio new wavezado, às vezes a dar para o punk-light, que não acrescenta muito ao que então se fazia.
Este disco, contudo, apanha a banda a tentar abrir caminho noutras direcções, numa altura em que o tal boom do rock português já tinha dado o que tinha a dar. Suponho que a culpa terá sido do Nuno Rebelo – compositor e co-produtor do disco – que deve ter começado a ouvir coisas mais ousadas e a tentar puxar a banda para outros territórios. O formato canção é aqui um mero suporte para divagações instrumentais onde cabe uma secção rítmica irrequieta e imaginativa, umas guitarras frippianas de vez em quando e uma boa dose de truques de estúdio que dão às duas versões do tema-título uma aura experimental q.b.. Nem todas as partes interessadas terão gostado da brincadeira, pelos vistos, porque a banda acabou pouco depois e cada um foi à sua vida. Para mim, ainda é o disco dos Street Kids que melhor resistiu a estes últimos 26 anos.